
DuArte parecia outro. Insistia em ficar sozinho, escrevia muito: “Meu coração me dói, triste, por não ter quem amar, Por não encontrar alguém a quem dar, Receber, Trocar, Partilhar o ser amado, Adorado, Aventurado no corpo de uma mulher, Entregue ao prazer de ser amor”. Entre os poemas frequentemente chorava, sentia saudades dos pais, dos amigos de infância, da terra que o tinha visto nascer, saudades do tempo em que jogava à bola na rua, em que era livre, subia às árvores, sorria ao ver as andorinhas chegarem de África. Voltava a escrever, “Sou forte, Tenho que ser forte, Porque estou dependendo dessa força Para minha salvação”; como se o papel fosse um confidente, como se a escrita fosse psicanálise. Passava noites a fio acordado, quase sempre a escrever, pensando que a sua dor não era nada se a comparasse com a de outros, com os que não tinham nem pão nem amor. “Caminho cansado pela Noite escura e silenciosa Carregando minha fábrica de engraxar Continuo a caminhar Hoje só ganhei vinte paus Não posso ir para casa Talvez possa pedir socorro a alguém Por minha fome. Mas o mundo não tem pena, Desconhece-me, Vê-me apenas como sendo mais um vadio que vive na sarjeta do desespero de ter que carregar minha fábrica de engraxar até ao dia feliz de meu adeus”. Então lembrou Manoel Bandeira, “Vi ontem um bicho Na imundice do pátio Catando comida entre os detritos Quando achava alguma coisa Não examinava nem cheirava Engolia com voracidade. O bicho não era um cão, não era um gato, não era um rato. O bicho, meu Deus, era um homem”. Pink Floyd continuava a tocar, “Wish you were here”, a caneta não parava de escrever, “Tu tristeza Tens um lugar Reservado Em meu coração”.
Estava deprimido e ainda mais deprimido ficou quando ouviu na rádio local uma notícia que o chocou. Herbert Vianna, líder da banda Paralamas do Sucesso, pilotava um bimotor que se despenhou no mar, ficando tetraplégico. Aparentemente tinha visto, impotente, a esposa, que o acompanhava, a morrer lentamente. Ficou perturbado. Herbert não era propriamente um amigo, na verdade, quando se conheceram, tinha achado o jeito dele meio estranho, mas a situação era de fato catastrófica. Tetraplégico? Lembrou-se da canção “Lanterna dos Afogados” e associou-a ao acontecido: “Quando está escuro E ninguém te ouve Quando chega a noite E você pode chorar Há uma luz no túnel Dos desesperados Há um cais de porto Pra quem precisa chegar Eu tô na lanterna dos afogados Eu tô te esperando Vê se não vai demorar”, e recordou-o a exclamar: “…O mundo enlouqueceu! Hoje, Deus é a autoimagem. Religião é dieta. Fé, só na estética. Gordura é pecado mortal. Ruga é contravenção. Celulite é falta de educação. FDP bem-sucedido é exemplo de sucesso”. Mais à frente, no mesmo tom, lamentava que nos nossos dias os sentimentos não interessassem mais. “Não importa o outro, o coletivo. Jovens não têm mais fé, nem idealismo, nem posição política. Adultos perdem o senso em busca da juventude fabricada”. No final, advertia: “Cuide bem do seu amor, seja ele quem for”.
Para levar as pedras semipreciosas para a plataforma, Kadafi comprou um estojo de veludo e, como se fosse um penso higiénico, passou o controle com aquilo entre as pernas por debaixo das cuecas igualmente vermelhas. Apanhou a catamarã e percebeu que o mar estava invulgarmente bravo. A maioria dos operários não aguentou os saltos e começou a vomitar. DuArte mantinha-se a um canto, aparentemente impávido, indiferente à intempérie e aos odores nauseabundos.
Nessa mesma manhã, ao chegar ao quarto da plataforma, o cara do beliche de cima disse-lhe que ele iria viver durante muitos e bons anos pois era uma pessoa muito bem humorada. DuArte não concordou. Felicidade era o que buscava mas cada vez mais se sentia indeciso. A plataforma fazia- lhe mal. Deixava-o crescentemente inseguro. Havia algo de imensamente triste nas paredes que olhava vagamente. Queria fugir dali mas como ainda faltavam 14 dias para voltar a ver terra dedicava a maior parte do tempo a ler e a escrever, percebendo que a tristeza passou a ter um lugar reservado em seu coração. No Sânscrito leu um apelo: “cuide da própria vida de sua vida.” Constatou que no percurso dos homens “se encontram todas as verdades e realidades de sua existência, a alegria do crescimento, o esplendor da beleza, pois o ontem é só um sonho de felicidade e de cada amanhã uma visão de esperança. Assim, olhe bem para dentro de si e veja o dia de hoje”.
Pousou o livro no chão frio da plataforma e pensou que tudo o que fazia saia-lhe do fundo do peito. “E amo. Mas meu coração fecha os olhos e chora”, disse para si mesmo deixando escorregar lentamente uma lágrima pelo rosto.
À tarde, foi entregar as pedras a Mr. Maurice que ficou encantado com a qualidade do produto, pedindo-lhe que, quando fosse de folga, voltasse à mesma fonte para comprar mais.
Desiludido com a vida, cabisbaixo, batia com o corpo nas paredes de ferro dos corredores da plataforma. Foi então que decidiu tentar por cobro à dor que deveras sentia e escrever uma carta a Vera: “Já não aguento tamanho sofrimento. Conheci-te e de imediato pensei que fosses a mulher da minha vida. Enganei-me e agora estou passando por uma das piores crises de que tenho memória. A barba revela isso mesmo pois apesar de ser proibido usá-la na plataforma não há proibição capaz de impedir meus sentimentos de transparecerem no rosto. Infelizmente para nós dois não será mais possível continuar a nossa relação que afinal de contas ainda agora começou. Digo-o porque o sinto e sei que teu momento não está de acordo com o que quero e preciso nesta fase da minha vida. Acredito que se nos tivéssemos encontrado noutra altura seriamos muito felizes juntos. Não é o caso e assim resta-nos a dúvida sobre o que seria ou poderia vir a ser.
É sempre difícil dizer adeus a quem gostamos. Contudo, a despedida é muitas vezes necessária para o bem de nosso futuro. Não vou guardar nenhuma má recordação da nossa curta relação mas sou obrigado a dizer-te adeus para sempre. DuArte.”
Fernando Marcelo, que o tinha visto de passagem na quinzena de folga, antes e depois de ter ido a Belo Horizonte, como se sentisse o processo pelo qual o amigo estava passando decidiu escrever-lhe para a plataforma. “Pois é meu irmão. Me sentei para escrever alguma coisa para o jornal, mas não saía. Aí saquei que eras tu me atentando aí da plataforma e resolvi colocar alguma coisa no papel em forma de reflexões momentâneas. Imagino como dever ser duro para você ficar ilhado nessa merda aí. Você, com esse pique todo de estrada – e ainda por cima rodeado de imbecis e paranoicos por todos os lados, salvo algumas exceções – deve estar a passar um mau bocado.
Vai aí um toque metafísico para você se proteger. Todo o dia de manhã ao se levantar, quando estiver pronto para trabalhar, sente por cinco minutos e feche os olhos. Respire profundamente por três vezes percebendo a infusão de energia cósmica por todo o seu ser. Feito isso, visualize, sinta, vivencie uma luz dourada em volta de seu corpo, como se fora uma armadura. Para finalizar agradeça o fato de estar protegido por aquele dia e pode ir trabalhar que estará garantido. Agora, é preciso força interior, e isso eu sei que você tem.
Tem um lado interessante nesta transação de você embarcar. Te fornece equilíbrio. Se você vivesse 30 dias por mês enlouquecido na estrada se tornaria um desajustado. Se bem que hoje em dia ser um desajustado é ótimo. Mas falo dum papo de sobrevivência. Desajustado é discriminado e ser discriminado acarreta muitas dificuldades. Se estivesse sempre viajando seria diferente. Quando a pessoa está viajando ela está automática e interiormente assumindo as possibilidades da vida. E isso aguça o inconsciente que sempre socorre na hora H. É isso aí. De repente, quando você está mais fodido e achando que não tem mais jeito, pinta a solução sempre surpreendente. É quando você descobre que não é um verme perdido no universo. Já aconteceu isso comigo também. Temos muito a ver um com o outro cara. Pique. Energia. Sintonia. Vamos ver se a gente consegue fazer uma viagem por aí ainda este ano. Ando precisando de um pouco de asfalto na veia. Conhecer uns brotos, recitar umas poesias. Sacudir o ser.
Em relação à Vera, que sei estar a habitar demais seus pensamentos, mando aí algumas sugestões para você pensar e eventualmente optar: vai fundo meu irmão, que o que vale é o amor; larga isso rapaz, vai-te tirar da estrada e você pode capotar; cole com ela. Você não vai esperar que acabe o amor pra curtir alguma coisa com ela não é?; case não, que você vai acabar assumindo o carma dela; sempre que puder pense nela e faça zilhões de poesias; esqueça que não dá futuro.
É o mesmo drama pelo qual tenho passado. Esquecer ou não esquecer eis a aporrinhação. É que a cabeça não acompanha o coração, gerando contradições terríveis. Viva a contradição Viva a zorra Viva o amor e a dor que dele advir Se tiver que doer Que doa com amor Se tiver que morrer Que morra amante. Doravante será assim. Abraços petrolíferos e suficientemente marítimos. P.S. – Espero que nenhum escroto abra a correspondência antes dela chegar a ti. Mas se abrir espero pelo menos que capte alguma coisa do que disse”.
Na quinzena de folga seguinte retornou a Minas Gerais, conheceu uma tia do Paulinho Moraes, de Macaé, onde ficou hospedado, recomendando-lhe que fosse a Diamantina comprar diamantes, que tinha lá uma irmã que lhe daria as indicações necessárias. Sugeriu-lhe que fosse com a empregada, a Sónia, com quem fez amor no autocarro, cobertos com um lençol branco que ela tinha na mochila.
Em Diamantina encontraram-se com a dona Elídia, pessoa culta e de extrema simpatia. Numa das paredes da sala pousava um poema de T. S. Elliot que dizia mais ao menos assim e que memorizou na hora: “When the moon rises in the heart of the heaven, and a light breeze touches the mirror face of the lake, that’s a moment pure joy. But few are they who are aware of it”.
Nas minas, encontrou Sebastião, familiar de dona Elidia, que lhe mostrou o garimpo e o polidor dos diamantes, conseguindo um produto com muita qualidade.
Mr. Maurice ficou visivelmente encantado e, para surpresa de Kadafi, disse-lhe que o preço era muito bom. Como tinha cobrado o triplo do valor a que tinha comprado, ficou surpreendido mas disse-lhe que não iria lá mais pois era demasiado longe e não aguentava fazer 50 horas de viagem para voltar a Diamantina. Na verdade tinha era receio de ser flagrado na revista a que todos os empregados da plataforma estavam sujeitos antes de apanharem a catamarã ou o helicóptero.
Nessa quinzena aconteceu mais uma tragédia. Uma das plataformas mais próximas da 69, a PCE-1, conhecida como a Anchova, pegou fogo e ficou a arder durante 20 dias consecutivos. Um fumo preto e espesso cobria o céu e até os costumeiros rios de óleo pegaram fogo provocando, igualmente, uma tragédia ecológica. Ficou visivelmente impressionado, sobretudo por ver o mar literalmente em fogo; o receio que as chamas se aproximassem; a plataforma vizinha a definhar gradualmente. Um colega da área da limpeza, o Kalixto, trouxe-lhe um escrito com a sua visão do acontecimento: “A rainha morreu. A maior plataforma da Bacia de Campos está em chamas. Uma grande labareda de fogo ilumina o mar levantando consigo uma nuvem espessa de fumaça. Os rebocadores jogam água mas a força do fogo é maior. Os homens vão ficando apavorados. É o medo. Ali, de frente aos nossos olhos, a rainha falece queimando. Caindo aos poucos. Antes rainha do mar, hoje não mais que cinza, que resto, que fumaça. E tudo isto pelo poder, pela rebeldia, pelo ouro, pelo petróleo, pela ganância, pela grana, pela fama. Cavaram. Abriram um buraco no oceano. Agora segurem seu vómito, seu sopro, seu grito. E tudo é cinza. E aquele império que consagrava a produção, aquela deusa do mar, faleceu, o mar a comeu, a engoliu. A vergonha vem à tona. Vergonha por ser mais um dos colaboradores a destruir, a acabar com o meio ambiente. Vergonha de fazer a própria armadilha, o próprio túmulo. E, será que a lição ao menos ensinou alguém? Até quando esta briga vai durar? O homem, o petróleo, o amor à vida. A rainha morreu”.
Certa noite acordou com um estranho pressentimento. Em cuecas, subiu até ao primeiro andar e daí até ao heliporto onde se deparou com o inesperado: do lado oeste da rig floor umas chamas irradiavam do mar, a noite estrelada, o céu como que mais perto da terra, o vento norte a soprar intenso, as chamas a poucos metros.
Correu para informar e pedir socorro a Mr. Robert que estava a liderar a plataforma nessa noite. “Não se preocupe; o vento está prestes a mudar de direção”. Subiu de novo até bombordo para se certificar de que aquilo que o chefe dizia era verdade e, para seu espanto, o vento já soprava para estibordo.
Foi de folga e decidiu voltar a Belo Horizonte, sobretudo para ver Vera, de quem afinal não se tinha conseguido desvincular, que o recebeu com um misto de desinteresse e curiosidade. Saíram juntos, beijaram-se copiosamente na Rua do Amendoim enquanto o carro, desengatado, andava de marcha a ré. Vera explicou que a causa era um forte magnetismo. Subiram até Mangabeiras de onde avistaram a cidade lá ao fundo envolta num espesso manto de poluição.
Foi dormir sozinho num hotel, aborrecido por mais uma vez ela não o acompanhar. A filha, a Lurdes, sete anos, aguardava-a, afirmou resoluta, que tinha que voltar para casa. No dia seguinte discutiram. Ela achava que estava “a entrar numa furada”, que ele só se encontrava ali de passagem e que não era certo envolverem-se em algo de muito sério. Voltou a ficar confuso, decidiu que tinha que a esquecer. Definitivamente.
José Manuel Simões
José Manuel Simões é Professor Associado e Coordenador do Departamento de ‘Communication and Media’ da Universidade de São José, Macau-China. Tem um pós-doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, doutoramento em ‘Global Studies’ na Universidade de São José e Mestrado em Comunicação e Jornalismo na Universidade de Coimbra. É especialista em assuntos do Brasil, país sobre o qual já publicou três livros, dezenas de artigos académicos e centenas de artigos jornalísticos.










