Cultura

Gïtä | Caio V. Selva

Foto de Austin Schmid na Unsplash

GÏTÄ

 

meditei

sim meditei

 

por três dias

sem parar

 

sem parar de escrever

 

uma eternidade por segundo

todos os versos do mundo

dentro do meu útero

 

tudo o que há de mais profundo

 

sutil

 

estava ali

 

Śiva em todas as suas formas

 

e isso foi somente em três dias

juro

 

mas ninguém precisa acreditar

 

também é impossível narrar

 

chega um momento em que tudo fica tão claro

mas tão claro…

que nada mais pode ousar fazer sentido

 

*

 

calmo

escolhi uma folha boa

eu queria arco-íris

 

encontrei

 

é só jogar a água de forma que faça a luz ficar 

confusa e permeável 

ao caos das cores

 

beija-flores gostam dessas folhas

largas como de bananeira

o ar ali bate diferente

 

as cores do arcoíris se resumem em sete

 

há o universo ali

 

o arco-íris é o silêncio das cores

 

…

 

vermelha, laranja, amarela, verde, azul, anil e violeta

 

*

 

violenta

com os excessos

a criação de tudo

do absoluto

e do tédio

 

toda luz cega

 

toda faca corta

 

todo canto rasga

 

como as unhas

de pessoas-onça

 

há muita coisa por aí

e é impossível narrar

sem maltratar o coração

que é onde se guarda esse tipo de coisa

depois que é criada no útero do cérebro

que é onde os poemas são gerados

 

gestei por longo tempo este

 

como gesta as cores cada gotícula de água

 

todas

 

e não há nada mais que possa ser feito

não há nada que precisa ser feito

tudo o que precisa ser feito

já está sendo feito

 

e a minha cabeça continua derretendo 

mesmo sem ácido

fritando no final de tudo

 

o fim do mundo será alaranjado

e será lindo

eu sei porque já está escrito

 

eu vi

naquela tarde esfumaçada

 

eu vi

por trás das máscaras

 

mas não tem como narrar

 

a gente doi porque o coração bate

 

e bate mais forte 

quando tem tambor

samba bom e gente feliz

vai batendo

batendo

batendo

batendo 

batendo

batendo

batendo

batendo

 

até o sangue errar de veia e se perder

na bagunça de corações alheios

 

*

 

no me perder 

fechando os olhos

despertei

com a ferina tempestade:

Rudra — solve et coagula

 

a criação vem da solução

 

sim

Śiva está sempre presente

Naṭarāja:

a ilusão da dança cósmica

 

o tempo nunca erra

mas ilude

 

assim como o desejo:

nos move e nos mata

 

Júpiter e Saturno

o desejo e o tempo

 

a psicologia do fogo

o tempo da terra

do que é eterno

 

nas linhas do seu desejo

eu sou aquele verso 

eu sou o verso que você não leu

 

 

Fotografia de Caio V. Selva

Caio V. Selva é poeta, professor, performer, yogi e tradutor. Ensina português e inglês, revisa, traduz e edita livros e textos. Co-fundador e co-organizador da revista de arte Anturragem. Organizou, juntamente com outros artistas de Florianopólis, o Núcleo d’Explosão da Palavra — grupo de leitura e de performances a partir das Galáxias, de Haroldo de Campos. Seu livro de poemas, amor te morde, ilustrado por Thomás Borges da Silva, está em processo de finalização. Sua tradução do livro do chileno Rodrigo Naranjo, Cor de saúva, já está no prelo da editora Papaterra.

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