
GÏTÄ
meditei
sim meditei
por três dias
sem parar
sem parar de escrever
uma eternidade por segundo
todos os versos do mundo
dentro do meu útero
tudo o que há de mais profundo
sutil
estava ali
Śiva em todas as suas formas
e isso foi somente em três dias
juro
mas ninguém precisa acreditar
também é impossível narrar
chega um momento em que tudo fica tão claro
mas tão claro…
que nada mais pode ousar fazer sentido
*
calmo
escolhi uma folha boa
eu queria arco-íris
encontrei
é só jogar a água de forma que faça a luz ficar
confusa e permeável
ao caos das cores
beija-flores gostam dessas folhas
largas como de bananeira
o ar ali bate diferente
as cores do arcoíris se resumem em sete
há o universo ali
o arco-íris é o silêncio das cores
…
vermelha, laranja, amarela, verde, azul, anil e violeta
*
violenta
com os excessos
a criação de tudo
do absoluto
e do tédio
toda luz cega
toda faca corta
todo canto rasga
como as unhas
de pessoas-onça
há muita coisa por aí
e é impossível narrar
sem maltratar o coração
que é onde se guarda esse tipo de coisa
depois que é criada no útero do cérebro
que é onde os poemas são gerados
gestei por longo tempo este
como gesta as cores cada gotícula de água
todas
e não há nada mais que possa ser feito
não há nada que precisa ser feito
tudo o que precisa ser feito
já está sendo feito
e a minha cabeça continua derretendo
mesmo sem ácido
fritando no final de tudo
o fim do mundo será alaranjado
e será lindo
eu sei porque já está escrito
eu vi
naquela tarde esfumaçada
eu vi
por trás das máscaras
mas não tem como narrar
a gente doi porque o coração bate
e bate mais forte
quando tem tambor
samba bom e gente feliz
vai batendo
batendo
batendo
batendo
batendo
batendo
batendo
batendo
até o sangue errar de veia e se perder
na bagunça de corações alheios
*
no me perder
fechando os olhos
despertei
com a ferina tempestade:
Rudra — solve et coagula
a criação vem da solução
sim
Śiva está sempre presente
Naṭarāja:
a ilusão da dança cósmica
o tempo nunca erra
mas ilude
assim como o desejo:
nos move e nos mata
Júpiter e Saturno
o desejo e o tempo
a psicologia do fogo
o tempo da terra
do que é eterno
nas linhas do seu desejo
eu sou aquele verso
eu sou o verso que você não leu
Caio V. Selva é poeta, professor, performer, yogi e tradutor. Ensina português e inglês, revisa, traduz e edita livros e textos. Co-fundador e co-organizador da revista de arte Anturragem. Organizou, juntamente com outros artistas de Florianopólis, o Núcleo d’Explosão da Palavra — grupo de leitura e de performances a partir das Galáxias, de Haroldo de Campos. Seu livro de poemas, amor te morde, ilustrado por Thomás Borges da Silva, está em processo de finalização. Sua tradução do livro do chileno Rodrigo Naranjo, Cor de saúva, já está no prelo da editora Papaterra.










