
I
O ser humano, diferente de outras criaturas que, só por existir, já sabem como viver e sobreviver, o homem, não. O homem depende de vários factores; é moldado pela sociedade onde nasceu, pela comunidade, pela cultura ou, se preferir, pelo sistema triádico: religião, família e escola.
É na família onde obtém as primeiras interacções e aprendizagens. Da família vêm as primeiras percepções da realidade; é nela que aprendemos a primeira língua, a qual passaremos a usar para interagir com tudo ao nosso redor. Mas quando a família se dissolve, como fica a criança a nível psicossomático?
Crescer dentro de fórmulas já estabelecidas facilita a vida — por exemplo, num sistema religioso, onde encontrará os ditames do modo de vida a seguir. A família é imprescindível à formação da pessoa; a escola, onde a criança se verá com o seu diferente e o seu semelhante, ensina-a a lidar com o outro.
Nascer fora, ou por fora dessas fórmulas, torna a vida uma tempestade, e poucos sobrevivem fora desses círculos. Existem manadas, círculos incólumes, dos quais, queiramos ou não, faremos parte — por exemplo, a própria sociedade.
A sociedade e a família são as primeiras interacções. Somos produtos delas; é nelas que buscamos as referências de modelo de vida, assimilando desde o comportamento até aos gostos. Somos produtos de uma herança social, como preferia dizer Pierre Bourdieu.
Em certas situações, quando chega o tempo da maturidade hormonal, o homem procura mulheres semelhantes à mãe — em parte no comportamento, até mesmo no físico (o que está mais no subconsciente). Outrossim, as mulheres passam pela mesma experiência.
Fazemos, na maior parte, o que a sociedade molda, até nas repetições funestas e vis. Tentamos replicar e reproduzir vícios sociais. Por exemplo: um pai que engravida uma mulher e não assume a gravidez nem o bebé pode, se este filho for homem, tornar-se, pela incumbência natural de perpetuar a espécie, num futuro pai de infortúnios, com as mesmas lacunas do progenitor.
Somos produtos da nossa sociedade: somos peixes presos num aquário donde é difícil escapar. A sociedade formata-nos, constrói-nos. Raros são os que escapam às suas influências negativas.
II – Como disse o escritor: “O diabo desta vida é que, dentre os cem caminhos que temos, somos obrigados a escolher um e viver com a nostalgia dos outros noventa e nove.”
A nossa existência é entrelaçada, como a árvore o é para os pássaros, ou como a árvore depende do sol. Vivemos numa teia de interdependências, e é dessa teia que depende a nossa própria existência.
A perda de alguém que amamos transforma a vida numa entropia — tanto a nível psicológico, como no quotidiano do nosso dia-a-dia.
O filme Mr. Nobody mostra claramente os antagonismos da vida e o impacto das escolhas. O filme narra a história do idoso Nemo, que, na infância, vivenciou a separação dos pais. Já na velhice, ao tentar recordar se ficara com o pai ou com a mãe, começa a ter falhas de memória. Nessas falhas surgem hipóteses: ora simula ter vivido com o pai — e então a sua vida foi de uma forma “X”; ora imagina ter vivido com a mãe — e nesse caso a vida foi de uma forma “Y”.
A nossa vida é inteiramente feita de escolhas, mas há escolhas que nos encontram desprevenidos e imaturos, como no caso de Nemo, que teve de escolher entre pai e mãe ainda criança.
Enfim, a nossa condição é estar sempre numa parte das escolhas. Não importa a qualidade delas: sempre haverá dor, angústia e simulações hipotéticas, que nos trazem os questionamentos: E se tivesse feito assim? E se fosse de outra forma? Teria sido melhor? Diferente?
O que nos resta é saber lidar com isso, aceitar que mesmo que existisse uma máquina do tempo, e víssemos as escolhas que deixámos para trás, ainda assim viveríamos com alguns arrependimentos.
Porém, há escolhas que não são nossas, mas são guiadas pelas eventualidades da vida, como as feitas pelos nossos pais. José Saramago afirmou que a maior percentagem das nossas vidas não depende de nós. Estatisticamente, dos 100%, apenas 40% seriam considerados nossos; o restante estaria distribuído entre família, amigos, circunstâncias. Nessas situações, todas as escolhas acabam por ser condicionadas.
Sartre, por outro lado, afirma que em todos os casos há sempre escolha. Para ele, todas as situações são duais. O não-escolher já é uma escolha. Daí dizer que estamos condenados a escolher. Mas até a falta de acção poderá ser, em si, uma acção.
Existem vários tipos de escolhas: as voluntárias, conscientes; e as involuntárias, herdadas do nosso meio e das pessoas que fazem parte da nossa vida. Por exemplo, não escolhemos a nossa família, os nossos pais ou a sociedade em que vivemos — de repente já estamos inseridos nela.
III – Será que realmente temos escolhas, ou as situações é que nos acolhem, e, do nada, descobrimo-nos na existência?
Escolher dói. Ainda mais quando temos demasiadas opções. Dói porque sabemos que só escolhemos uma vez e, depois disso, assumimos todas as consequências: escolher a profissão, a namorada ou a esposa.
Sartre tem razão: estamos condenados a escolher. Independentemente da situação, sempre escolhemos, mesmo quando parece que não. Mas se escolher implica assumir responsabilidades, será que todos temos realmente o benefício da escolha? E como ficam as crianças?
Queiramos ou não, somos produtos da sociedade e da família. São eles que nos projectam. Como afirma Pierre Bourdieu, somos produtos duma herança social; as nossas escolhas e oportunidades dependem do nosso cerco. Quem nasce numa família plebeia raramente sai dessa condição; se escapa, é porque enganou o sistema. Já quem nasce numa família abastada, muitas vezes encontra o sucesso e as oportunidades na palma da mão.
A nossa vida, como disse Saramago, depende de muitas coisas. Tudo o que está à nossa volta vai moldando-nos, vai participando das nossas decisões.
Marlon Langa
Nota biográfica: Marlon Langa é um pensador inquieto, criador de ideias e construtor de projectos que cruzam fronteiras entre o conhecimento, a cultura e a prática profissional. Natural de Moçambique, formou-se em Filosofia pela Universidade Eduardo Mondlane, cultivando desde cedo o gosto pela reflexão crítica, pela busca de sentido e pelo diálogo profundo sobre questões humanas, sociais e políticas. Encontra nas palavras um refúgio e um espelho: escrever é para ele tanto uma fuga ao peso da existência quanto uma forma de mergulhar na sua maravilha.
A sua sensibilidade foi moldada pela convivência íntima com poetas como Fernando Pessoa, Rui de Noronha e Camões; pela narrativa de mestres como Saramago, Fernando Sabino, Jorge Amado, José Luís Peixoto e Vergílio Ferreira; e pelo pensamento profundo de Nietzsche, Schopenhauer, Sartre, Luís Pondé, Severino Ngoenha e Edgar Morin. Sob a máscara de pseudónimos como Íngrid Phra, Jordão António Lopes e Gistofen Mayer, explorou múltiplas vozes e olhares, libertando textos que desafiam fronteiras de género e estilo.
Inquieto, Langa transita entre o estudo e a criação, entre a reflexão filosófica e a observação atenta do mundo, mantendo sempre a convicção de que a palavra — lida, escrita ou dita — pode ser um ato de resistência, revelação e transformação.










