Sociedade

São maningue cenas: uma forma de niilismo na vida dos jovens moçambicanos? | Marlon Langa

imagem: https://news.un.org/

I

“São maningue cenas” é uma expressão comummente usada em Moçambique por muitos jovens. Mas em que contexto é usada essa expressão? “Maningue cenas”, ou simplesmente “muitas coisas”?

 

Comummente, usa-se em situações em que o jovem se sente sobrecarregado ao gerir muitos problemas da sua vida em simultâneo: trabalho, escola (faculdade), vida pessoal e emocional, dentre outras áreas.

 

Em Psicologia, o termo pode aproximar-se do conceito de burnout — cansaço extremo devido à sobrecarga da rotina e de tarefas. Quando um funcionário exerce uma actividade demasiadamente exigente, isso pode repercutir em esgotamento. Podemos dar como exemplo os profissionais de saúde — médicos e enfermeiros — cuja actividade é intensamente cansativa.

 

II

 

“Tudo bem aí? O que contas?”

 

“São maningue cenas.”

 

Eis a resposta que comumente se dá.

 

No meu entendimento, essa expressão revela, primeiro, uma juventude esgotada e sobrecarregada; segundo, mostra que as questões que pesam são múltiplas. “Muitas cenas” refere-se a situações diversas que o jovem, por vezes desconfiado de quem pergunta, prefere não revelar. Recorre, então, à expressão como escudo: pode significar “deixa para lá”, “não posso contar”, ou “não vais aguentar o que tenho para dizer”.

 

As pessoas já não têm tempo para ouvir as outras. Cada uma está ocupada a gerir os seus próprios problemas. A escuta acaba sendo terceirizada aos psicólogos — o que, na realidade moçambicana, ainda constitui um desafio devido aos custos e à pouca prática cultural de procurar ajuda profissional. O que mais sucede é recorrer às redes sociais ou, mais recentemente, às Inteligências Artificiais.

 

III

 

Nas grandes cidades seculares, como Nova Iorque ou Paris — onde já se criou de tudo, onde empregos e serviços foram reinventados inúmeras vezes — é normal inovar constantemente. Criaram-se indústrias, desenvolveram-se Inteligências Artificiais para substituir mão-de-obra. Em países como o Japão, já existem até pessoas de aluguer para fazer companhia a quem se sente carente.

 

Nota-se a necessidade de criar novos empregos e de os cidadãos se reinventarem devido à pressão demográfica e à saturação das indústrias. Muitos tornam-se criativos para sobreviver: alguns vão às praças tocar violão para receber gorjetas.

 

Mas é inquietante quando, num país como Moçambique — ainda em construção —, notamos jovens a criar trabalhos apenas para subsistir. E que tipo de empregos? Sabemos que, há muito, a vida em Moçambique é difícil; sempre foi um “revirar-se”. Como afirmou o músico Dimas: “Vo txotxoloza va fana.” Ou Jeremias Nhoenha quando diz: “Vadla voxe.” Os problemas que os nossos pais enfrentaram no passado aparecem hoje multiplicados.

 

Se o capitalismo cria oportunidades, por que razão países como o nosso continuam mergulhados na penúria?

 

É comum, em Moçambique, formar-se numa área para depois tornar-se explicador ou dar preparação a futuros formandos. O irónico é que esses formandos, ao terminar a faculdade, também se tornam explicadores, criando um círculo repetitivo. Até o trabalho de estátua humana — arte típica de países desenvolvidos — já é realidade entre nós.

 

Talvez alguém me acuse: o problema não são as profissões em si. Inovar e empreender mostram criatividade e disposição de mudança. A grande questão é enfileirar jovens nas mesmas ocupações por falta de opções. Num país com tanto potencial, esse contraste é gritante.

 

IV

 

Aristóteles, na sua Ética, defende a ideia de uma vida boa baseada no equilíbrio. Ele é inimigo dos excessos e dos extremos. Toda intenção de se entregar ao excesso torna-se vício. Fernando Pessoa também sugere que aquilo que fazemos constantemente — mesmo que moralmente bom — pode tornar-se vício.

 

“São maningue cenas”: como não desenvolver vícios e não entrar em crise, se vivemos conflitos intensos em Cabo Delgado, um período pós-Covid, eleições turbulentas e cheias recentes?

 

A crise existencial entre os jovens moçambicanos é notória. Nota-se nos vários escapes da realidade — verdadeiras “morfínas da dor”: bebidas espirituosas, drogas como soruma ou yaoupi, prostituição visível em vários bairros.

 

Tudo isso é uma forma de fugir da realidade — uma tentativa crua de transformar dor em prazer.

 

Vivemos uma geração aparentemente sem rumo. Os mais conscientes da realidade enfrentam crises psicossomáticas; os que não conseguem lidar com ela lançam-se nos entorpecentes e padecem de dores físicas.

 

Os rumos até existem. O problema são os rumos catalogados — uma vida inteiramente padronizada, como diria Nietzsche. A sociedade dita que só terá valor quem alcançar determinados padrões. As igrejas, que deveria ser porto seguro, muitas vezes adopta linguagem capitalista e torna-se instrumento de exclusão. Vivemos vidas alheias, sucumbidos às imitações dos influencers.

 

Viver para quê? Para quê viver? A vida parece perder valor.

 

Para os que não recorrem a entorpecentes, resta muitas vezes a depressão. O extremo — o mais abominável — é chegar ao ponto de tirar a própria vida.

 

Marlon Langa

fotografia de Marlon Langa.

Marlon Langa é um pensador inquieto, criador de ideias e construtor de projectos que cruzam fronteiras entre o conhecimento, a cultura e a prática profissional. Natural de Moçambique, formou-se em Filosofia pela Universidade Eduardo Mondlane, cultivando desde cedo o gosto pela reflexão crítica, pela busca de sentido e pelo diálogo profundo sobre questões humanas, sociais e políticas. Encontra nas palavras um refúgio e um espelho: escrever é para ele tanto uma fuga ao peso da existência quanto uma forma de mergulhar na sua maravilha.

A sua sensibilidade foi moldada pela convivência íntima com poetas como Fernando Pessoa, Rui de Noronha e Camões; pela narrativa de mestres como Saramago, Fernando Sabino, Jorge Amado, José Luís Peixoto e Vergílio Ferreira; e pelo pensamento profundo de Nietzsche, Schopenhauer, Sartre, Luís Pondé, Severino Ngoenha e Edgar Morin. Sob a máscara de pseudónimos como Íngrid Phra, Jordão António Lopes e Gistofen Mayer, explorou múltiplas vozes e olhares, libertando textos que desafiam fronteiras de género e estilo.

Inquieto, Langa transita entre o estudo e a criação, entre a reflexão filosófica e a observação atenta do mundo, mantendo sempre a convicção de que a palavra — lida, escrita ou dita — pode ser um ato de resistência, revelação e transformação.

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