
Relembro uma conversa vivaz que tive com o Psiquiatra e Psicanalista Javert Rodrigues sobre O Único e a Sua Propriedade, de Max Stirner, tremendamente criticado por Marx e Engels, contudo influenciou imensamente Kazimir Malevich, levando-o para a intensificação do “nada e no zero das formas” como força propulsora da arte. Stirner avisou que “ a sua causa era a causa de nada”, o puro nada devorador, a força estética da vacuidade a libertar-se de ideais, de obras artísticas produtivas e de qualquer objectivação por dentro da plenitude da existência como nos intensifica Boris Groys. Estamos perante uma arte não-objectiva, reforçando posturas anarquistas de Malevich, uma arte sem finalidade: um QUADRADO NEGRO, diremos, uma terrífica ruptura, uma visão infectada por bacilos inconscientes como nos diz Malevich, espelhando Lissitzky e Kabakov. Paula Vaz faz do poema-romance um zero das formas malevicheano onde leitores escavam pedras de um coração esgotado e simultaneamente a jorrar sangue pela possível regerminação: um corpo que se desmancha pelo excesso, fazendo da dor uma falha com muitos sentidos a jogar com os seus limiares vertiginosos. Paula revigora a ideia de um corpo constituído por multiplicidades de corpos, quebrando com a unidade e dizendo-nos que a vida não se explica pela vontade, mas experimenta-se com devorações do impossível e de potências expansivas ( amorosas nestes fotogramas): o que nos impulsiona a fazer escolhas são as forças intensivas que se atritam interminavelmente, cingindo matérias mutantes onde as designações se esburacam na imprevisibilidade. Nós amamos, fugimos, nos desviamos, esquecemos, imergimos nas reminiscências e até odiamos em intervalos breves, intermitentes e irrefreáveis. Paula dá espessura ao poema-romance através do fascínio da hesitação, das topologias esquivas, da escolha, dos rasgos do vazio, decifrando-se continuamente através de DESEJOS a devolverem-se a si-mesmos, acontecendo na diferenciação de uma existência que exige subtilezas criativas, atravessando corpo e espírito para aceitar o desconhecido e o equívoco da vida como mudança problemática e continuidade vigorosa, é uma fonte energética de afectos com cortes e composições já implicadas na própria transmutação e assim, se revitaliza dentro de uma dança diferencial pela estilização anómala do real e fora de qualquer complacência porque dilui o poder, metas, partidas e atravessa o corpo espiritualmente, não aprisiona, não toma, é voragem respiratória, liberta, afirma activamente, dói sem acusação, lacera o racionalismo, é parto abíssico, é brotadura de silêncios, é insurgência, cria seus trilhos, move, faz existir, varia expansivamente, é força do intransferível, é um acto a gerar o sensível e a atravessar o deserto, uma zona acósmica, é o impossível a embater na borda de si-próprio, desborda-se, retorna sobre si, ultrapassa-se por meio de um processo impulsor do arrasto, actualizando-se no real ao fissurar-se, é começo de si na capacidade errante de se indeterminar, é encontro delirante antes de desejar. Quando lemos o poema-romance de Paula Vaz, entramos únicos e insubstituíveis, respirando boca a boca e concomitantemente segurámos uma mão do náufrago, absorvendo sobretudo o que não está escrito e o que nos escapa, mudando o respiro como nos disse Filomena Molder através de Walter Benjamin e de Paul Celan. Paula Vaz traduz a dispersão do contraído na origem incerta do trauma e do insuportável ao construir palavras e a exercitar o caos de si-em-si com forças vibráteis dos signos amorosos, irradiando paradoxalmente envolvidos por sensações a rasgar limites e a furar pela duração do tempo irrespondível, conectando-se ao delírio( tudo vibra e excede e se prolonga insonoramente: aqui, o real se torna mais acentrado). Despontam zonas de passagem com vários planos cinematográficos a chamar o impossível( restos, raspas, parapeitos, colchetes, outridades, inscrições, eros, corda bamba, ar rarefeito, carmim, insurgência, transposição, deslumbre, sublime, mãos vazias…). Paula Vaz assimila o entredizer das deformações ritmizadas pela intensificação do sensível que atravessa as questões instáveis e múltiplas do corpo-espírito sempre a andarilhar pelo mosaico da invenção. Personagens penetram no inóspito e no subversivo com um corpo vivo, histérico, um corpo apinhado de atitudes e posturas incontroláveis e de acasos amorosamente cruéis a estremecer o microperceptivo do excesso que faz pervagar paixões pelo finito para reencontrar e recompor assombradamente as suas incomensurabilidades religadas por vezes ao movimento caótico dos sentidos. Paula Vaz desdobra e esculpe em signos amorosos o recomeço de uma voz estilizada pela loucura que se difere pelas movências de corpos percorridos por rasgos de visões já com espelhamentos de várias grandezas de tempo. Dentro dos lapsos dos personagens, ecos batem nos limites de uma voz, ressonâncias da dilaceração modificam o espaço, e as lacunas encarnam a voz que vem da materialidade corpórea onde germinam esboços de vidas a espessar uma possível saída através de forças sensíveis imanentes das contradições, dos paradoxos e da texturas de um cântico em despedida que é já reencontro da diferença que se repete impulsionada por uma crueldade musical. Paula arranca do obscuro uma visibilidade rítmica, uma divergência emancipadora, cria tremendas envolvências com aglomerados devaneantes como tentativas de cura, é criação no acaso, é um recomeço solitário, é uma fala oscilante, oblíqua, é uma imagem da distância a incitar o encontro, sempre o encontro com atractores do indecidível e do inacabado, sim, o amor é um acidente que nunca se esclarece, é um imprevisto irrefreável, o amor como uma “ visão sem rosto”, uma voltagem de vidências a multiplicar intervalos, a extrair o exagero da vida e a espelhar uma desmesura, um risco. Paula Vaz com suas personagens em coexistência expressiva inventa novas geografias existenciais entre o intensivo, o colapso e a bifurcação com o outro que se entrelaça sempre ao infinito. Há algo desabaladamente silencioso e beckettiano nos personagens que disjuntam olhos que veem e vozes tensionais que tentam expressar o intraduzível; o perceber e o captado entram em roçadura, fracturando-se com as forças do tempo e do pensamento. Há sempre coisas por entender no poema-romance de Paula Vaz. Como nos disse Cioran: “no momento em que pensamos ter compreendido tudo dá-nos ar de assassinos”. O conhecimento arruína os desvios do amor, quando mais conhecemos os sigilos de quem amamos, sentimos que têm muito a ver connosco, e seremos contaminados pela exaustão. O fascínio está no conflito mais interior, nas antinomias, nas derrotas, no único e no irremediável que nos discernem junto à escuta da enervação do sublime e dos entretempos de quem tenta esponjar a primeira pedra atirada para um coração em esgotamento.
Luís Serguilha, poeta, ensaísta
Nota biográfica: Luís Serguilha é poeta e ensaísta, com várias obras publicadas.
Paula Vaz é poeta, romancista e psicanalista. Vive em Belo Horizonte, Minas Gerais.












