Cultura

Luís Serguilha na Biblioteca Camilo Castelo Branco: Estética do Laharsismo: uma estilização uma excripta: Edição Húmus, 2026 | José Miguel Braga

SALVADOR DALÍ I DOMÈNECH

Não poderia começar sem deixar primeiro uma palavra de afecto e muita consideração ao editor Rui Magalhães, um homem que sabe de livros e de palavras e que reinventa quotidianamente a construção destas casas milagrosas, habitações sígnicas que andam a visitar a humanidade nos delírios da escrita e que depois adormecem na ordem sintática, respirando em potência no silêncio das estantes. Bem pode o nosso editor considerar-se “mais feliz um momento”, porque a ele se deve um certo modo quase antigo de inventar a alegria, contribuindo para cuidar este nosso mundo ao dedicar-lhe belas obras, lembrando nomes que poderiam ficar esquecidos e reunindo como em simpósio milagroso artes, ciências, história e silêncios. Bem-haja!

 

“A palavra ‘excripta’ é um neologismo filosófico e literário que resulta da fusão e jogo etimológico de termos latinos e gregos. Ela surge muito ligada ao ambiente da Desconstrução (especialmente através de pensadores influenciados por Derrida, como Jean-Luc Nancy). A sua origem e formação explicam-se através de três componentes principais: O prefixo latino ex- significa ‘para fora’, ‘exterior’ ou ‘afastamento’. Indica um movimento de rutura, saída ou exclusão. A Raiz de Scripta (Escrita) vem do latim scripta (plural de scriptum), derivado do verbo scribere (‘escrever’) e representa o registo, a inscrição, o texto e a fixação de signos. No Jogo com a Palavra Cripta (oculto), há um cruzamento visual e fonético propositado com a palavra que vem do grego kryptós e significa ‘escondido, oculto, secreto’. Quando autores contemporâneos e poetas (como Jean-Luc Nancy no seu conceito de exscription ou o poeta português Luís Serguilha no seu livro recente Uma Estilização Uma Excripta) utilizam este termo, estão a operar um duplo movimento: Escrever ‘para fora’: O sentido do texto não se fecha numa verdade interior (não fica guardado numa ‘cripta’). Ele é projetado para fora, escapa, expõe-se ao mundo e ao Outro. Desencriptar: Um movimento de abrir o que estava oculto ou soterrado na linguagem, mostrando que o sentido está sempre fora de si mesmo, em permanente deslocação. Em suma, ‘excripta’ é a escrita que recusa fechar-se sobre si mesma; é o texto que se expõe radicalmente ao seu próprio exterior.” – colagem e adaptação realizadas a partir de pesquisa no Google.

 

     Ao tomar em mãos a apresentação deste livro, tenho bem noção da responsabilidade que me incumbe, mas também das dificuldades e limitações.

 

     A responsabilidade resulta do objecto deste encontro a que agora se dá início. Reunir em assembleia sob pretexto de apresentar um livro supõe que os participantes têm direito a ser surpreendidos e animados. A surpresa resulta, por seu lado, da invenção da situação inédita e esta funda-se numa alteração de circunstâncias emocionais, energéticas e culturais. A animação é a marca da vivência positiva e por isso memória do momento.

 

     As dificuldades são muitas. As de sempre e as que resultam da natureza do livro que se apresenta e do direito que todo o autor tem a ser invocado com rigor, respeito, profundidade e sem falsas adulações, que mais se prestam a exercícios de hipocrisia sobre o palanque decrépito onde se insinua o vendedor de banha da cobra.

 

     As limitações referem-se à natureza da comunicação, a qual não dispõe, à partida, de nenhum sistema regulador do êxito destinado a convencer, a vencer e a esgotar a dimensão da matéria comunicável. Referem-se ainda à condição do apresentador, ao qual compete, talvez, abrir uma porta ou tocar de leve a matéria, embora sabendo das suas dificuldades e da sua condição de leitor: aquele que vive assombrado pela dúvida, tocado pela dimensão do problema, suspenso pela raridade da matéria.

 

     Conheci Luís Serguilha num livro já antigo e justamente numa das salas desta biblioteca Camilo Castelo Branco da cidade de Vila Nova de Famalicão. Faz tempo. Muitos anos, “nem eu sei já quantos”, para lembrar um verso de António Nobre. Nesse tempo éramos mais jovens e em Braga eu dedicava-me com os meus amigos às artes do corpo do actor. Teatro, por vezes, animação também e ainda aconteciam outras formas e propostas, recitais, leituras dramatizadas e outras intervenções mais difíceis de nomear. Um dia o Luís Serguilha convidou-nos para apresentarmos um livro seu. Eh, pá, isto é poesia, o que vamos fazer? Nós éramos rebeldes e irrequietos e lidávamos mal com o espírito dos acomodados e daqueles que convivem bem com o auto-comprazimento burguês, como refere Karl Kraus num dos seus aforismos.

 

     Reunimos em volta do texto, “feitos de um coração”, diria Fernão Lopes e então lemos, continuámos a ler, repetíamos leituras e deixávamos que o corpo ouvisse e tocasse e se deixasse absorver e que uma espécie de sagração dos elementos nos devolvesse uma luz em trânsito e sobretudo um conjunto de sentidos e movimentos que pareciam nascidos do ar e das profundezas e que regressavam depois ao corpo, sob a forma de cântico e dança.

 

     A apresentação que fizemos, lembro-me bem, parecia um ritual tribal, mas também um cântico de louvor à imensidão e um regresso à escuridão do húmus, por entre raízes e tubérculos, frutos caídos e pequenas larvas que se combinam com a terra e com as aves na permanente invenção da vida, do vívido e do vivido. Ficou-nos desse dia a memória da alegria e a experiência do corpo reinventado do actor no corpus poético.

 

     Continuei a conhecer Luís Serguilha ao longo de algumas das edições das “Raias”. O evento que foi sucedendo ano após ano, deixando marcas e excripções como espaço de mediação e de encontro, de debate e de alguma reinvenção dos processos de animação e de divulgação da cultura viva. O estudo da palavra “raias”, assim mesmo no plural, vai além da linha que une ou que separa. As fronteiras são múltiplas e como tal ocasião para a multidão das intercessões e dos registos.

 

     Fui tendo notícia também da sua viagem americana. Falamos sobretudo do Brasil, evidentemente. Os livros foram nascendo e crescendo, mas também os estudos, reflexões e criações que a sua obra suscitava. Perguntamo-nos hoje, mais uma vez, de que obra se trata. Poema ou poema filosófico? Filosofia ou preocupação estética? Reflexão ou divagação sobre os limites do género e a aproximação às ciências?

 

     Ao lermos Serguilha somos tocados pela dúvida, mas também pelo assombro e pela perplexidade. Antes de mais, a dimensão. A reunião das obras do escritor dá-nos uma ideia do complexo criativo – imaginativo que foi sendo construído ao longo dos anos. Por outro lado, a complexidade. Trata-se de uma reunião-convulsão de matéria que se desdobra em sentidos e que se funda em saberes e modos de expressão diferenciados. Num terceiro aspecto podemos e devemos referir a estranheza, esse mundo que parece mostrar-se e ocultar-se ao mesmo tempo e que se insinua cantando e seduzindo, com seu ímpeto destrutivo e renovador. Lembramos Blanchot e antes dele Nietzsche. Permitam-me que cite o poeta-filósofo em “A vontade de poder”, porque nas suas palavras, como se fosse a encarnação de Heráclito, encontramos alguns dos sentidos da obra do poeta que temos connosco:

 

     “Acaso sabeis vós o que para mim é o mundo? Quereis mesmo que vo-lo mostre no meu espelho? Esse mundo é:

     – um monstro de força, sem começo nem fim;

     – uma soma fixa de força, dura como bronze, que não aumenta nem diminui, que não sofre desgaste mas sim transformação, e cuja totalidade mantém uma grandeza invariável, uma economia onde não há nem dispêndio nem perdas, como também não há acréscimos ou receitas;

     – prisioneiro do nada, que o limita, sem nada de flutuante, sem desgaste, sem nada infinitamente extremo, mas sim como força definida num espaço definido, e não num espaço em que a vida esteja incluída;

     – uma força entretanto presente, sendo uno e múltiplo como um fogo de forças e de ondas de força, que se acumulam num ponto quando diminuem noutro;

     – um mar de forças tempestuosas e em perpétuo fluxo, eternamente pronto para mudar, eternamente pronto para refluir, com gigantescos períodos de regular retorno; com fluxo e refluxo nas formas, indo das mais simples às mais complexas, das mais calmas e mais frias às mais ardentes e mais violentas – as mais contraditórias – para reverter, em seguida, da multiplicidade à simplicidade, do jogo de contrastes à necessidade de harmonia, afirmando ainda o seu ser nesta regularidade de ciclos e de anos e glorificando-se na santidade de que deve regressar eternamente, como um devir que não conhece nem saciedade nem desgosto, nem lassidão”. 

(Nietzsche in A Vontade de Poder, Vol. III – Princípios de uma nova valoração. Trad. De Isabel Henninger Ferreira. Porto: Rés-Editora, pp. 312-313).

 

     Por outro lado, o ritmo e a repetição, a sensação também de um poema contínuo e de uma extensão que se vai enrolando em novelo, lugar ainda por onde o texto se perde e amplifica nas suas teias de luz e nos seus abismos e aproximações à eternidade e às profundas expirações, como se a pele do mundo se preparasse para voar.

 

     O leitor poderá ainda interrogar-se sobre o sentido do que está a ler, mas os textos de Luís Serguilha vêm à tona numa zona selvagem do entendimento. Aqui as palavras são forças ou gumes e são também aparições de animais exóticos em demanda do paraíso ou em fuga do submundo. Eis também o lugar onde o logocentrismo encontra uma terra escalavrada, o lugar onde as harmonias se dissolvem e uma chuva ácida vem perturbar os sistemas lógicos e os órgãos habituados às vivências unívocas e às evidências paralelas.

 

     É frequente escutar nos textos de Luís Serguilha o ruído esmorecido da máquina do mundo, sistemas de roldanas que se atropelam, madeira podre que prepara o desastre e o vínculo com o inumano. O trabalho de Luís Serguilha busca, como em Artaud, a viagem redentora, o lugar único da revelação, a passagem ao outro lado, o palco da história onde renasce a verdadeira vida e o poder desfalece.

 

     Vejamos agora o sentido da palavra Lahar e daí o conceito de Laharsismo.

 

     “Origem do termo: Inspirado no lahar (fluxo ou avalancha de lama de origem vulcânica), simbolizando um movimento literário e criativo visceral, fluido e transformador.

 

     Não-lógica dos sentidos: Propõe um experimentalismo semântico que manipula as palavras para além do seu significado [contemplado] estritamente [no] dicionário.

 

     Tempo crônico: Afasta-se da cronologia linear tradicional, explorando camadas de memória, imagens visuais e a intensidade do acontecimento (como a guerra ou o trauma).

 

     Recepção acadêmica: É objeto de estudos, ensaios e teses em diversas universidades ibero-americanas e revistas de literatura.

 

     Obras associadas: Publicada em múltiplos volumes de poesia pelas Edições Húmus, incluindo títulos como Estética do Laharsismo / Uma estilização Uma Excripta” .

(colagem e adaptação realizadas a partir de pesquisa no Google).

 

     Na obra de Serguilha o texto perde-se das suas intimidades e vacuidades históricas, das concatenações e coordenações, do umbigo-reflexo do existente e do biográfico, perde-se, enfim, desse texto que pode ser estudado e revelado de acordo com as leis da gramática, da narratologia ou da poética. A excripta é resultado da explosão, do fluxo que atravessa os ares e se alimenta dos gases num processo de expansão e transformação irredutível, incapaz de ser absorvido pela máquina disciplinar da análise e do método.

 

     Algumas passagens – frases, palavras-força, enunciações, excripções em risco de perdição-  que fui sublinhando ao longo da leitura das primeiras 100 páginas:

Leio “o sorriso do anjo pérfido e ardiloso” p. 7.

 

Um “bisturi silencioso e desumanizador através de uma abcissa caótica a embater nas radículas do vazio” p. 30.

 

“Uma EXCRIPTA (…) evanesce, relampeja na falência dicionárica” p. 37.

 

“Por vezes, o Caos torna-se composição simultaneamente cancerígena e germinativa” p. 38.

 

“rasgar leis da termodinâmica do vazio” p. 40.

 

“Um coração clástico leva seu fluido hidrotermal, para pequenos orifícios da loucura” p. 47.

 

“esperas terríficas pelos silêncios do desdizer” p. 50.

 

“Uma EXCRIPTA extrai fósseis verbais do inconsciente” p. 56.

 

“uma língua é forçada a esguichar fascículos” p.57.

 

“arquitectar fotogramas gongóricos” p. 57.

 

“dissecando o ventre hidráulico do tempo para extrair o fôlego tentacular das palavras até atingir uma prestidigitação acósmica” p. 58.

 

“o azougue da sismicidade a brotar das bastardias do pensamento” p. 61,

 

“Uma língua-LAHAR despoja-se da carne e do mineral para tornar-se pura ignição!” p. 66.

 

“vestígios de esculturas transparentes” p. 67.

 

“A animalidade floral é a respiração que faz as ruínas tremerem, olhando-nos de dentro” p. 68.

 

“Um POEMA-LAHAR torna-se um estetoscópio, um vedor de uma eternidade súbita sobre uma ferida aberta a ecoar a regurgitação da carne-viva. Escuta-se a passagem jazzística da voz e o intervalo cruel de um sopro da língua a esculpir-se monstruosamente para não morrer, respirando destroços das anastomoses. Outras vezes, a mão falha terrivelmente porque procura o sentido no vestígio de uma ossada ou de um manuscrito” p. 69.

 

“Toda a EXCRIPTURA” termina antes de qualquer remate” p. 78.

 

“o ritmo do informe” p. 79.

 

“Aqui-agora: o vazio se torna no movimento do LAHAR” p. 80.

 

“abrir fendas de dores pela língua já com fluxos sistólicos-diastólicos barrocos e com incisões bruscas do aqui-agora!” p. 81.

 

“Há uma dor a escutar o inaudível pela espiral interrogativa da cabeça” p. 85.

 

“o EXCRIPTOR desaparece no inexplorado da EXCRIPTA, deixando para trás apenas o rastro de uma sangradura sígnica” p. 86.

 

“LAHAR (…) devolvendo-se ao vazio para se purificar pelo silêncio dos destroços do POEMA-ANIMAL” p. 88.

 

“Uma EXCRIPTA torna-se mineração profunda (…) arrancando palavras de camadas sedimentares do impensável, onde o tempo se soltou até virar matéria fóssil pela cadeia ventral de gânglios da desumanização” p. 92.

 

“Abaixo do osso, há transmissores sígnicos da animalidade pura, a exigir um esforço iliofágico para fustigar estaleiros do infinito”. p. 94.

 

“Um LAHAR é já a própria atmosfera de uma escavação” p. 94.

 

Além de uma “garganta geológica” (…) Uma fala irrompe como um fragmento de espelho gongórico” p. 94.

 

“Excriptar é um acto de terrorismo ontológico” p. 95.

 

“A vibração da carne implode o espaço” p. 95.

 

“Um eco anterior do húmus” p. 95/96.

 

“uma rede de filamentos fúngicos decompõe a sintaxe em exasperação” p. 99.

 

“Cada terminação nervosa do EXCRIPTOR é esticada como a corda de um instrumento barroco, até romper rés à falência neurológica. O som implode: volta-se para o fundo do crânio e escorrega para o centro gravitacional da estrutura óssea” P. 99.

 

“Porque ver talvez não seja entender” p. 99.

 

“um animal a mover-se desenfreadamente pelas membranas do informe. Um animal busca sua voz, mas encontra sempre um sopro corrosivo a inundar o calcário da gramática com o ácido do silêncio, esperando que a fala se torne um estuário de vazios a carregar ressonâncias dos fémures dos mortos” p. 100”.

 

     A leitura do texto de Luís serguilha parece, num primeiro momento, acorrentar-nos num sistema ardiloso. Somos vítimas de um compacto lexical e semântico que pode deixar-nos entontecidos perante a profusão de termos, mas também perante os escombros da especialidade, os quais podem conduzir-nos a mundos muito diversos da significação. A leitura em profundidade deixa-nos cegos e mergulhados numa mundividência que nos remete para o mundo das pedras, mas também para os fenómenos mais complexos do nascimento da energia e do comportamento orgânico. Biologia, geologia, física e matemática produzem saberes e abrem espaços para libertar a linguagem abrindo dimensões de um mundo tradicionalmente proibido aos sistemas muralhados da retórica literária. Não obstante, o leitor pode ver-se em dificuldade perante a desmesura, o insólito, a assombração das combinações e os processos de estranhamento que o léxico associado às ciências produz junto do leitor mais ou menos inocente. Uma reflexão mais aturada do processo de referências e das quantidades de significação e de combinações, raramente nos coloca perante o sortilégio do neologismo. As palavras são entidades vivas e actualizadas, entes operativos e não solidões marmóreas da significação. Aquilo que durante séculos se convencionou como eu poético, uma espécie de entidade supranumerária a caminho do etéreo e da santidade dos sentidos, impante do seu carácter objectivável, capaz de acompanhar as operações lógicas primitivas do bom senso, vê-se agora sujeito a mergulhar na escuridão e a reaparecer sob outra forma ou então desaparece para regressar num espaço diferenciado, quase despido de tradição e de nexo causal.

 

     Não haverá uma causa unívoca e um sentido único e exemplar. Não haverá uma ordem imutável e um processo de ordenação dos elementos que coincida com a ordem mais geral do mundo e a razão absoluta de Deus. O que existe e se manifesta, o que resiste e transpira é a ordem convulsa, a mudança e o transitório. O texto é um lugar de matéria movediça, uma paz lacustre que absorve e devolve os seres líquidos em matéria ígnea. Por isso a criação é coisa suspensa, velocidade e transição, estratégia dinâmica que escapa aos sistemas de controlo e de absorção. Ao poder vimos opor o impoder e à orquestração e unidade sonora e imagética contrapomos o espelho côncavo e informe, o que não pode ser absorvido e totalmente calculado.

 

     Ao longo do texto, Luís Serguilha invoca a EXCRIPTA e invoca também LAHAR, como se este fosse mais do que uma figura, uma entidade animada, um ente em movimento no tecido do texto, constructor de sentidos e disruptor, objecto familiar do processo de nomeação e também dos processos interrogativos e radioactivos. LAHAR é como DADA, um nome para resistir aos tempos depressivos e aos espectros da grande máquina de aniquilação que vem sufragando as almas miseráveis e se prepara para aniquilar mais uma vez a esperança.

 

     Não se trata de pessimismo e também não observamos ao longo destas centenas de página o acumular de indícios de morte ou, ainda que de forma indelével e quase disfarçada, a melancólica confissão da desistência. O terror não deixa de marcar presença em todas as dimensões do real e também ele se senta, como o Inocêncio X reinventado por Francis Bacon na cadeira eléctrica da representação.

 

     Muito fica por dizer, inúmeros tópicos e motivos capazes de desencadear a preocupação ensaística ou a pura emoção lírica – do barroco ao poema infinito e à repetição em favor da redenção perante a massa lêveda dos signos. Em Luís Serguilha, podemos também lembrar as vozes de outros, de Carlos de Oliveira, por exemplo, dissolvendo-se na sua “Casa na Duna” e emergindo como a cal num manto de ruínas a que chamou “Finisterra”.

 

Vila Nova de Famalicão

15 de Outubro de 2026

José Miguel Braga

Fotografia de José Miguel Braga.

José Miguel Braga nasce em Braga em 1957

É licenciado em Ensino de Português-Francês e doutorado em Ciências da Comunicação/ Teoria da Cultura, pela Universidade do Minho. Começou a dar aulas no ensino secundário em 1978, foi Leitor de Português em França e professor Auxiliar convidado da UM. Actor, encenador e dramaturgo no âmbito do trabalho desenvolvido pelo PIF’H (Produções Ilimitadas Fora d’Horas). Tem colaborado regularmente com o Grupo Profissional de teatro Malad’arte. Publicou em edição de autor “Imagens do Rio”, Poesia, 1987, “Arquipélago de Sombras”, Poema, 2004, e “Lição de Desenho no Orfanato” – texto poético construído a partir do original do pintor Alberto Peixoto, 2008. “Adelita”, Edições Húmus, 2021, é o seu primeiro livro de ficção narrativa. Segue-se a publicação na mesma editora de “Bons Desejos” em 2022, “Frank Colmi” em 2023 e “O Caminho de Royat” em 2024. Publicou ainda, na UM Editora, “Entre o Medo e a Luz – 2020: Um Diário”, no ano de 2023. Em 2025, as Edições Húmus publicaram “Vamos fazer uma peça” e “Canto do pássaro vadio”.

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