
Um cérebro a sonhar é o mesmo que pensa
Coelho Pacheco
Podemos afirmar que Fernando Pessoa atingiu, no Brasil, ampla popularidade entre os leitores, juntamente com Camões, Eça de Queirós, José Saramago – são os autores portugueses que mais estimamos e lemos. Isso não é pouco, partindo de um escritor que publicou só um livro em vida, Mensagem, e que ficou em segundo lugar num concurso literário, perdendo para um livro de um padre franciscano que não tinha a menor qualidade. Morreu cedo, aos 47 anos, deixando um grande acervo de poemas, obras dramáticas e poemas em prosa, que os pesquisadores foram trazendo à luz num trabalho meticuloso e difícil.
Nasceu Fernando Pessoa em Lisboa, no ano de 1888 e na mesma cidade veio a falecer em 1935. Perdeu o pai muito cedo, com cinco anos, bem como irmãos, o padrasto, tios e a mãe. Viajou com a família e padrasto para a África do Sul onde teve formação em inglês e na literatura inglesa e norte-americana. De volta a Portugal, inicia a faculdade de letras que não termina. Começa sua trajetória literária como ensaísta e polemista, participando de revistas como a Águia. Torna-se um dos líderes da revista Orpheu, nos movimentos modernistas de Portugal, junto com Almada Negreiros, Mário de Sá Carneiro, e outros. A partir de 1914, desdobra-se em heterônimos, criando uma grande quantidade de textos, de alta qualidade estética, e diferenciada em temas e formas.
A crítica Maria Eliete Galhoz, que estudou e escreveu muito sobre o autor e sua obra, diz que Fernando Pessoa tinha monotonia temática e variabilidade formal. O que, segundo penso, não é totalmente verdadeiro. Há na produção do poeta muitos temas tratados, e a forma é variada, indo do parnasianismo ao simbolismo, e suas variantes modernistas. É um poeta polifônico no estilo e dramático no pensamento.
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Os heterônimos fazem de Fernando Pessoa um autor que encontrou uma saída muito inteligente para a questão das múltiplas formas literárias a que se dedicava. Até hoje ainda perdura em certa crítica e leitores, a necessidade de ver a unidade da obra como a qualidade maior de um escritor. Não era assim Fernando Pessoa. Um autor brasileiro que muito se aproxima dele é Mário de Andrade, o nosso grande escritor modernista. De Mário é o famoso poema Sou trezentos: “Sou trezentos, sou trezentos-e-cinquenta” que mostra que poderia muito bem ter encontrado guarida em heterônimos, se assim o quisesse.
Os principais heterônimos de Fernando Pessoa são: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Vicente Guedes-Bernardo Soares, António Mora, Coelho Pacheco e outros.
Diz Herberto Helder muito bem, que os heterônimos são personagens de um romance que Fernando Pessoa não escreveu. E o autor, em carta a João Gaspar Simões diz ser um poeta dramático. As duas fórmulas são acertadas. Fernando Pessoa desenvolve a vida de seus heterônimos, desde o nascimento até à morte, com suas profissões e hábitos, e seus estilos inconfundíveis. Como dramaturgo, usa a despersonalização dos personagens para ocultar o narrador. Há também teorias psicanalíticas que procuram explicar o desdobramento e multiplicidade do autor por obra de conflitos de personalidade não resolvidos.
A forma encontrada por Fernando Pessoa de dividir-se em heterônimos foi muito eficiente do ponto de vista de deixar para o futuro assunto para ser debatido pelos críticos e leitores. Ocorre-me um outro exemplo eficaz de matéria literária deixada com muitos caminhos a serem discutidos e avaliados, em Machado de Assis, principalmente no seu Dom Casmurro, até hoje alvo de controvérsias sobre a infidelidade de Capitu.
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Características de Fernando Pessoa: o uso de paradoxos, antinomias, ilogicidades, inversões de sentido, hipérbatos, cinestesias, comparação entre ideias contraditórias, igualdade entre o sentir e o pensar, racionalismo, anticlericalismo, visionarismo, exacerbação da personalidade poética, sebastianismo, paganismo, misticismo, estoicismo, esoterismo.
Podemos ver que com tantas variáveis de estilo, pensamento e forma, não podemos enquadrá-lo como monótono.
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A importância na obra de Fernando Pessoa da visão crítica de Edgar Alan Poe (A filosofia da Composição), a visão cósmica e a forma em verso livre de Walt Whitman.
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Alberto Caeiro: Influência de Cesário Verde, racionalismo, antimetafísico, antirreligião, anticatolicismo, sensações.
Ricardo Reis: entre estoico e eleata, resignação, sentir e pensar, carpe diem, a importância das coisas mínimas, o prazer do momento, vida mutável, paganismo.
Álvaro de Campos; negativismo, insensibilidade, irrealização pessoal, desesperança, angústia, o ser sempre adiado, inveja, cansaço, modernista, versos principalmente longos, livres. Poemas Lisboa Revisitada, Tabacaria, Aniversário.
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Vemos, assim, que Fernando Pessoa cresce na medida de sua leitura e das descobertas dos textos guardados no baú. Poeta que escreveu para o futuro e conseguiu chegar lá. Estamos embarcados na sua poesia atravessando o espaço e o tempo.
José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951. Médico oftalmologista, atualmente aposentado. Publicou 40 livros de contos, poesia, romance, teatro e infantojuvenil. Tradutor de espanhol e do italiano, publicou 14 livros, entre eles, sete de Pablo Neruda. Colabora em jornais e revistas com crônicas e ensaios. Principais Prêmios Recebidos: prêmio Biênio da Colonização e Imigração, com Lavra Permanente, 1974; prêmio de teatro do SNT com a peça A casa dos impossíveis, 1975; finalista do Prêmio de contos Nestlé de Literatura, de 1996, com “O atleta recordista”; finalista do Prêmio Açorianos com Os Leões Selvagens de Tanganica, 2003; prêmio O Sul de Melhor Tradução com livro de Pablo Neruda, 2006; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores com o romance O Reino de Macambira; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de escritores com os minicontos de Deus Não Protege os Certinhos, 2021; prêmio Mihai Eminescu da Academia Internacional da Romênia para obra em Prosa, 2012; prêmio Internacional de Poesia de Trieste, 2013; prêmio de Poesia da União dos Escritores da Moldávia, 2015; prêmio de Tradução da Associação de Editores da Romênia, 2016; prêmio Karamanov da Macedônia do Norte, 2022.










