
Há muitos anos que penso muito sobre a cor na arquitectura e há pelo menos dois que coloco travões na escrita deste texto. Talvez tivesse ainda alguma esperança em poder dispensar estas palavras; por acreditar que, aos poucos, os lugares que habito se iam voltar a encher de alma e cor. Como esta esperança tem vindo a esmorecer, sento-me agora para partilhar estes pensamentos (ironicamente a preto sobre branco).
Para encerrar o que quero dizer teria de estender-me em vários capítulos, pelo que tentarei com o mínimo de palavras possível soltar a ponta do início de um diálogo. Não falo da simplificação da forma e consequente uso do branco enquanto exercício consciente e ponderado, quer na actualidade quer nos exercícios da arquitectura moderna, época esta em que, aliás, a cor tinha um papel cirúrgico e objectivo, muito explorada por exemplo no movimento neerlandês De Stijl. Esse seria outro capítulo que a extensão desta reflexão não alcança. Importa também salientar que o referencial destas observações assenta num contexto europeu, mais especificamente ocidental, onde a rápida transformação dos edifícios surge como resposta a um incentivo socioeconómico decorrente dessa conjuntura.
Em cidades em constante mudança, seja por resposta à voracidade do turismo, por alterações aos modelos de escritório (e das habitações) com a introdução do trabalho remoto, seja pela febre de modernização e experimentação de novos materiais, estamos a assistir e ao mesmo tempo a ser palco de intervenções que naturalmente seguem a lógica da globalização e da partilha de influências em tempo real. Se estas transformações se tornaram óbvias e impossíveis de ignorar, também óbvias se tornaram a adopção de novos materiais (decisão essa que não possui necessariamente um carácter pejorativo) e a neutralização cromática dos espaços. A problemática instaura-se quando estas transformações espelham questões mais profundas.
Tempo, dinheiro, consumismo, digitalização. O dicionário da lógica capitalista não se esgota neste assunto. A “verdade do material” implica sempre tempo: o tempo da aprendizagem do mestre que executa, o tempo da execução. Este tempo requer dinheiro e, no ritmo acelerado do projecto e obra nos dias que correm, muitos sacrifícios têm de ser feitos. Fica a questão: será a retirada da cor na arquitecura uma parte desse sacrifício? Será também mais fácil a recusa da cor nos espaços em constante mutação, pois simplifica a tomada de decisão?
Neste receio de assumir a duração da forma e da cor no tempo, perde-se uma oportunidade para conferir carácter ao espaço. No medo do compromisso está também a desresponsabilização, pois se não me comprometo, não pode cair sobre mim a culpa de possíveis falhas. É assim na arquitectura como também o é na relação social, e se é verdade que estão interligadas, é possível deduzir a extensão das consequências destas decisões.
Narges Mohammadi, a activista iraniana que ganhou o Prémio Nobel da Paz em 2023, descreve no seu livro White Torture a crueldade do tipo de tortura que dá o título ao livro. A ausência de estímulo como tortura, como desintegração do Eu; deixar de saber ser e estar e o sofrimento que daí advém. Não obstante a dureza destes episódios ser inimaginável, e cujo sofrimento esta comparação não pretende desprezar, porque nos impomos então a esta tortura nas nossas casas? Porque é que a contemporaneidade fetichiza um ambiente hospitalar e que parece procurar a assepsia? A sanitização dos espaços habitáveis. Arrisco começar por desmoronar o baralho com uma carta mais óbvia: se não me comprometo com uma arquitectura com carácter, cor e decoração, fica o vazio por encher. E como se enche um vazio daqueles que não ocupam espaço, um vazio pouco premeditado, um vazio-vazio? Consumindo. Consumindo objectos que não duram mais de um par de anos e que serão prontamente substituídos. Esta rapidez e avidez na substituição e mudança só é permitida num espaço onde a forma e a materialidade deixaram de ser elementos protagonistas, e a cor se vai buscar aos objectos pouco duráveis e facilmente revezados, sendo os écrans uma das respostas mais óbvias.
Estamos provavelmente num ponto de charneira com a democratização da tecnologia. A patologia de uma sociedade – e individualidade – em queda livre: o estímulo não é pornográfico? Então não satisfaz. Fora da rapidez e do exagero da constante troca do objecto utilitário, desvela-se um aborrecimento descomunal, pois após a dessensibilização só o descomedimento permite sentir. A reflexão vale para o viajante que, na impaciência para chegar ao destino, não vive a viagem; para o amante que, com pressa de sentir, despreza o toque leve; para muitas outras experiências, e também para a arquitectura e a ocupação dos lugares. O simples facto de não haver o tempo disponível necessário quer para o projecto de arquitectura quer para a obra, e de os materiais duradouros e as técnicas tradicionais serem mais dispendiosos, são ao mesmo tempo causas e sintomas desta problemática da relação com o espaço.
É verdade que a cor na sua intensidade máxima e uso exagerado pode também ter o efeito oposto: nas grandes metrópoles, a intensidade e velocidade do estímulo pode bem roubar-nos a atenção, o foco e a serenidade. O esvaziamento chega através do exagero quer na ausência da cor quer da irresponsabilidade no seu uso. Mas se o cansaço do excesso abala, a despersonalização da ausência apaga e desenergiza.
Quando era mais nova costumava frequentar com a minha família um restaurante em Lisboa cuja iluminação era quase na totalidade feita por velas acesas. Há cerca de dez anos, numa data comemorativa, reservámos mesa para jantar e tenho ainda presente a desilusão que senti ao chegar. Escusado será dizer que a iluminação foi substituída por lâmpadas e o encanto dos palpites que as sombras nos davam extinguiu-se com o apagar da luz das velas. As cores do espaço e dos muitos posters pendurados nas paredes perderam também o movimento e o diálogo por este sugerido. Junichiro Tanizaki partilha esta exacta sensação com mestria no seu ensaio O Elogio da Sombra. Tanizaki explora algumas diferenças viscerais entre o Ocidente e o Oriente a partir da análise do uso da luz e das sombras, manifestando o seu apreço pela experiência que surge da manipulação da sombra e das tonalidades de cor na relação com os materiais envolventes.
Claro que podemos pensar apenas numa fase, numa moda que irá passar e que a personalidade dos lugares voltará, mas as alterações na arquitectura ao nível da materialidade não se compadecem com o espírito saudosista. Uma vez destruído, destruído está. Não quero com isto fazer uma apologia cega ao passado nem negar ou contrariar o conforto de muitas comodidades a que temos acesso, mas apenas sugerir uma pausa nos momentos decisivos para nos inteirarmos do que realmente precisamos e dos impactos a médio e longo prazo. Vale para o uso da cor e não só.
É neste equilíbrio que talvez possamos reequilibrar a nossa relação com o espaço. Não obstante ser necessário haver cedências e adaptarmo-nos às condições do meio, principalmente económicas, que não se coloquem de lado as questões que nos podem lentamente libertar: do que precisamos, mesmo, para o nosso conforto e bem-estar?
Museu M+, Hong Kong, projectado de acordo com os prinícipios do Design Universal. Fotografia de Filipa Paes de Faria.
Nascida em Lisboa, Filipa Paes de Faria vive num exercício contínuo de aglutinação entre diferentes áreas – arquitectura, programação, pintura. Estudou na Faculdade de Arquitectura, passando pelo Politécnico de Turim no ano final do mestrado e, mais tarde, pelo Ar.Co Lisboa.
Facilmente entusiasmada por pequenos detalhes e com um fascínio especial pela observação de plantas e animais. Encontra-se geralmente algures entre a distracção crónica ou o foco excessivo.















