
miradas
Tu a flor de Lis-
boa entoa
num cortejo
ou na cor do
Tejo que no
contra da lua
nua espelha
se esguelha no
outro flanco que
desanco com o
olho alarde e tu
à toa arde
ecoa nas ruas
leve salga-
da alma-
da vida
doce
te quero
carne
corpo
crua
*
café
depois ela chora
se não tomar café
a língua perde o amargor
irreversível e concomitante
o deserto dela descabe
do deserto mudo do mundo
os olhos arenosos
avermelhados ventam
a ventana da alma
range precipícios nas frestas
a vida se mente e sangria
a titubear no simplório
tudo descarna e ameaça
num floreio sem pensamento
até o frescor corpo lento
e sedento
da próxima taça
*
cinema de rua
da camisaria confiança
no Porto
à moda tripa
ao bucolismo da ribeira
o cobreado das casas
descansa no dourado do sol, no rio
passeando
como uma embarcação
que conduz o reflexo da história
que não se cansa de murmurejar
até o encontro
desconfiado e entusiasta
com o mar.
*
cinemateca
a sinfonia da tela
é ideal
para os dedos da mão
que se avolumam
entre um par de coxas
sentado ao lado
em uma sala escura
de um cinema de rua
há uma repetição insalubre dos planos
das cenas dos quadros das texturas das viscosidades
o gemido do corpo
como se projetado na tela
estala no silvo do trem
ao chegar na estação
as gaivotas
na cena longa
do final do filme
destoam do gozo
momento em que as rosas
descansam no cinema
*
contrastes
o sol é a peste
pra pele que se
esconde embaixo
de um sombreiro
um guarda-chuva
um toldo
uma mão protege a outra
e as duas levam a taça de vinho à boca
a dama de vermelho sai
[repetição fonética e visual]
de um boteco improvisado
na parede pichada do cais
e os corpos
sob a luz da primavera
dançam com as palavras
que movimentam as ancas
cada uma a seu modo
– lady in red… diz ele…
– is dancing with herself, responde ela…
rodopiando o corpo
no sorriso sombreado
de um flerte
que se dissolve
no final de uma tarde
em que o tom prata
se delícia no rio.
*
flores e cimento
as flores
mesmo desajeitadas
seguiam brutalizando
a leveza do empedrado
da cidade
na brecha do asfalto
uma vermelha
no intervalo do muro e da calçada
uma amarela
no mal talhado da lajota
uma laranja
entre o ferro e a madeira
uma violeta
no coração dos pedregulhos
uma azul
uma branca
cor de rosa
lilás…
assim
mesmo que rengas
mal cuidadas
ensimesmadas
suspiros no absurdo
infringiam num outro ângulo
a foto que grafava
em meus olhos
*
o calvário no trem sem luz (Estação do oriente)
vazia
uma das covas dos olhos
a outra
esbranquiçada e sem luz
em suas mãos uma vara
uma latinha e uma chave
é o metal que anuncia
a sua chegada
se equilibrando
nos corredores do trem
é tão vistoso e
na ética do agora
invisível
percorre um corredor jovem
de sorrisos jovens
que se comportam como estátuas
pede ajuda pra comer
mas a fome permanece intacta após a procissão
quando coloca o pé para fora do vagão
na parada sem chão
é, precisamente
12:01
01 de maio
dia do trabalho
a porta, atrás dele
se fecha
(já estava fechada)
embora não separe
a mirada
turva do pensamento
sem ter mais motivos para contestá-la
aguardará
diante do precipício
a passagem
da próxima ilusão.
*
um mês
dos trinta e poucos dias
entre Lisboa e Almada
entre Pessoa e Negreiros
bem mais de dez horas
se passaram sobre o Tejo
entre portos e cais
cais e nós
[Trafaria Brandão Sodré Barreiro Seixal Caçilhas Belém…]
sentia no excesso de um transe
unte
um transa
tlântico
a melancolia a irrigar meus pés
charcos onde o manicômio
era deus em cápsulas
a vontade de gritar parecia
contida nos pulsares
de uma nostalgia
que não me pertencia
mas que experimentava
como um doce a base de ovos e um café
sorvidos em uma padaria
a adocicar e a amargar
as manias portuguesas
de outrora.
*
a lua
há mais aviões
sob o céu de Lisboa
do que estrelas
ao canto
a lua
excitada
se equilibra
chora e grita
*
um verso de abril pra maio
o pôr do sol de
Lisboa
naquele fado
primaveril
parecia uma rapariga
a dançar
vestida de rosa e
anil
*
Pessoa
lia
o
fel
de Ofélia
o
fel
lia
*
Curtas 1
é óbvio
que os óbitos
de óbidos
dispensam ornitorrincos
*
Curtas 2
da coroa
roa o nó
da proa
*
curtas 3
era e sempre
sarà mago
Demétrio Panarotto (1969 – ) nasceu em Chapecó SC. É um músico, compositor, pesquisador, professor e literato brasileiro. Paralelamente a uma carreira musical com a Banda Repolho e projetos alternativos, louvados pela sua originalidade e irreverência, desenvolve atividades como acadêmico, palestrante e escritor. Publicou vários livros de poesia e prosa que lhe valeram o reconhecimento como um dos nomes de destaque da nova literatura do estado de Santa Catarina.











