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Cinematografia lusitana | Demétrio Panarotto

Foto de Chris Barbalis na Unsplash

“Cinematografia lusitana_1”: Autor da foto: Demétrio Panarotto.

miradas

 

Tu a flor de Lis- 

boa entoa

num cortejo

ou na cor do 

Tejo que no 

contra da lua

nua espelha 

se esguelha no 

outro flanco que 

desanco com o

olho alarde e tu

à toa arde 

ecoa nas ruas

leve salga-

da alma-

da vida 

doce

te quero 

carne

corpo

crua

 

*

café

 

depois ela chora

se não tomar café

 

a língua perde o amargor

irreversível e concomitante

 

o deserto dela descabe

do deserto mudo do mundo

 

os olhos arenosos

avermelhados ventam

 

a ventana da alma

range precipícios nas frestas

 

a vida se mente e sangria

a titubear no simplório

 

tudo descarna e ameaça

num floreio sem pensamento

 

até o frescor corpo lento 

e sedento

da próxima taça

 

*

 

cinema de rua

 

da camisaria confiança

no Porto

à moda tripa

ao bucolismo da ribeira

o cobreado das casas

descansa no dourado do sol, no rio

passeando

como uma embarcação

que conduz o reflexo da história

que não se cansa de murmurejar

até o encontro 

desconfiado e entusiasta

com o mar.

 

*

cinemateca

 

a sinfonia da tela

é ideal

para os dedos da mão

que se avolumam

entre um par de coxas 

sentado ao lado

em uma sala escura

de um cinema de rua

 

há uma repetição insalubre dos planos

das cenas dos quadros das texturas das viscosidades

 

o gemido do corpo

como se projetado na tela 

estala no silvo do trem

ao chegar na estação

 

as gaivotas 

na cena longa

do final do filme

destoam do gozo

 

momento em que as rosas

descansam no cinema

 

*

 

contrastes

 

o sol é a peste

pra pele que se 

esconde embaixo

de um sombreiro

     um guarda-chuva

     um toldo

 

uma mão protege a outra

e as duas levam a taça de vinho à boca

 

a dama de vermelho sai

                                                                 [repetição fonética e visual]

de um boteco improvisado

na parede pichada do cais

 

e os corpos

sob a luz da primavera

dançam com as palavras

que movimentam as ancas

cada uma a seu modo

– lady in red… diz ele…

– is dancing with herself, responde ela…

rodopiando o corpo

no sorriso sombreado 

de um flerte

que se dissolve

no final de uma tarde 

em que o tom prata

se delícia no rio. 

 

*

flores e cimento

 

as flores

mesmo desajeitadas

seguiam brutalizando

a leveza do empedrado 

da cidade

 

na brecha do asfalto

uma vermelha

 

no intervalo do muro e da calçada

uma amarela

 

no mal talhado da lajota

uma laranja

 

entre o ferro e a madeira

uma violeta

 

no coração dos pedregulhos

uma azul

 

uma branca

cor de rosa 

lilás…

 

assim

mesmo que rengas

mal cuidadas

ensimesmadas

suspiros no absurdo

infringiam num outro ângulo

a foto que grafava 

em meus olhos

 

*

o calvário no trem sem luz (Estação do oriente)

 

vazia

uma das covas dos olhos

a outra

esbranquiçada e sem luz

 

em suas mãos uma vara

uma latinha e uma chave

 

é o metal que anuncia 

a sua chegada

se equilibrando

nos corredores do trem

 

é tão vistoso e

na ética do agora

invisível

 

percorre um corredor jovem

de sorrisos jovens

que se comportam como estátuas

 

pede ajuda pra comer

mas a fome permanece intacta após a procissão

 

quando coloca o pé para fora do vagão

na parada sem chão

é, precisamente

12:01

01 de maio

dia do trabalho

 

a porta, atrás dele

se fecha                                                                

                                                                            (já estava fechada)

embora não separe

 

a mirada

turva do pensamento

sem ter mais motivos para contestá-la

aguardará 

diante do precipício 

a passagem

da próxima ilusão.

 

*

um mês

 

dos trinta e poucos dias

entre Lisboa e Almada

entre Pessoa e Negreiros

bem mais de dez horas

se passaram sobre o Tejo

entre portos e cais

cais e nós

 

[Trafaria Brandão Sodré Barreiro Seixal Caçilhas Belém…]

 

sentia no excesso de um transe

                                                            unte

                                um transa 

                                                         tlântico

a melancolia a irrigar meus pés

charcos onde o manicômio 

era deus em cápsulas

 

a vontade de gritar parecia

contida nos pulsares 

de uma nostalgia

que não me pertencia

mas que experimentava

como um doce a base de ovos e um café

sorvidos em uma padaria

a adocicar e a amargar

as manias portuguesas

de outrora.

 

*

a lua

 

há mais aviões

sob o céu de Lisboa

do que estrelas

 

ao canto

a lua

excitada

se equilibra

chora e grita

 

*

um verso de abril pra maio

 

o pôr do sol de 

                            Lisboa

naquele fado 

                           primaveril

parecia uma rapariga

                          a dançar

vestida de rosa e 

                             anil

 

*        

Pessoa                                                                                                

                                                        

lia

             o

                    fel

de Ofélia

            o

                   fel

lia

 

*      

Curtas 1

 

é óbvio

que os óbitos

de óbidos

dispensam ornitorrincos

 

*

 

Curtas 2

 

da coroa 

roa o nó

da proa

 

*

 

curtas 3

 

era e sempre

sarà mago

 

fotografia de Demétrio Panarotto

 

Demétrio Panarotto (1969 – ) nasceu em Chapecó SC. É um músico, compositor, pesquisador, professor e literato brasileiro. Paralelamente a uma carreira musical com a Banda Repolho e projetos alternativos, louvados pela sua originalidade e irreverência, desenvolve atividades como acadêmico, palestrante e escritor. Publicou vários livros de poesia e prosa que lhe valeram o reconhecimento como um dos nomes de destaque da nova literatura do estado de Santa Catarina.

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