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Poemas | Caio V. Selva

Poemas Caio V. Selva

perda da poesia

 

eu perdi a poesia

eu acho 

 

não sei onde ela está 

fugiu de dentro de mim

deixou meu coração oco 

jogou-se da última janela do oitavo andar das minhas ideias 

ela fugiu e não sei se vai voltar 

 

enquanto não volta

escrevo versinhos sem rima 

sem ritmo

mesmo que com muito desejo 

mesmo que com muita aversão 

 

era meu vício

minha cachaça

meu livro do Drummond 

 

talvez ela volte 

quando perceber que já não faz falta 

como os amores reiludidos

como a sanidade daquele meu amigo que fala de amor comigo no píer sem medo de ser careta

 

carentes todos somos

de amor

de poesia 

e do brilho das estrelas 

que uniram continentes e levantaram mitos

 

acho que está ali

entre aqueles chinelos 

e aqueles amores perdidos

Rosa em Pessoa

 

Dona Rosa, Dona Rosa/ De que roseira é que vem/ Que não tem senão espinhos/ Para quem só lhe quer bem?

 

navegar 

é preciso

mesmo que tão perigoso 

como viver

 

aprender-a-navegar 

é o que é

o navegar, mesmo

 

viver é um estado

de deriva constante

 

tudo acontece

nada é preciso

 

são dois atos urgentes

 

redescobrir marés

e refazer amores —

um céu espelhado

no abismo do mar

 

tirei o dia pra cuidar da vida

como se fosse uma criança

ou um bicho

que a qualquer momento pode fugir

 

mesmo que às vezes

deixe-a simplesmente me atropelar

 

                                         (outras facetas)

 

imóvel

sem pedir que pise devagar

meu coração

 

são frágeis os momentos

 

a imponência da imensidão

 

a realidade de encontrar o nada

 

num piscar de olhos

na contemplação do movimento das folhas entregues à brisa

foge

espontânea

tão de repente quanto surge —

a vida

 

(a observação constante

é a criação em si

do espaço)

 

por que não chega 

aquele verso 

que tanto tempo 

vem custando 

mesmo sem nem saber

porque custa tanto?

 

gasta verbos 

saliva e tinta

infinitos de contemplação

e não chega

 

às vezes

bota a gente comovido como o diabo

 

às vezes

bobos

como adolescentes chapados

rindo à toa

 

e quase chega

“Poemas_1”: fotografia de Caio V. Selva.

Caio V. Selva é poeta, professor, performer, yogi e tradutor. Ensina português e inglês, revisa, traduz e edita livros e textos. Co-fundador e co-organizador da revista de arte Anturragem. Organizou, juntamente com outros artistas de Florianopólis, o Núcleo d’Explosão da Palavra — grupo de leitura e de performances a partir das Galáxias, de Haroldo de Campos. Seu livro de poemas, amor te morde, ilustrado por Thomás Borges da Silva, está em processo de finalização. Sua tradução do livro do chileno Rodrigo Naranjo, Cor de saúva, já está no prelo da editora Papaterra.

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