
RESSURGIMENTO DOS BÚZIOS
Os búzios ressurgem
como se fossem gotas de missangas
escorrendo entre dedos
melódicos das águas baptismais
no coração da Nossa Senhora do Cabo
como se fossem coroas
de estrelas-do-mar
enfeitando os cabelos da Kianda
Pinceis de raios do luar
lambendo a noite com brilhos
de algas da minha nostalgia
Os búzios ressurgem
como bainhas das águas
se desmanchando no cenário
de peixes-agulhas
cosendo com linhas de espumas
os tecidos das ondas do mar
estampadas de alforrecas
na ilha de Luanda
como se fossem fábulas de anjos
bebendo o naufrágio
do último vinho tinto do horizonte
PERDER A TELEGRAFIA DOS PEIXES
Quando navios fantasmas
arrancam as vísceras do mar
embarcações artesanais
morrem encalhadas
vendo o mar de costas viradas
num surto de espantos
Pescadores locais perdem
a rede telegráfica dos peixes
dilatando a cartografia da fome
O mar sem vísceras
anuncia cultos
aos estômagos vazios
como ave de mau agoiro
Uma florestas de nuvens
agarra a chuva
de lágrimas teimosas
Quando navios clandestinos
arrastam as vísceras do mar
desfalecem os sorrisos do amanhã
AS SÍLABAS DA FOME
Entre flores de orvalhos
caídas no rosto sujo do menino
escorrem em letras garrafais
as sílabas da fome
As sílabas da fome
escrevem-se ao relento
sob a cega indiferença
dos donos do mundo
manifestam-se
como um norte sem luz
como as mãos angustiadas
de uma vida despojada
buscando um fiapo de sorriso
como um estômago sem amanhã
As sílabas da fome soletram-se
com métricas clamorosas
de um prato vazio
num mundo apagado
onde a obscuridade se inunda
na selvática podridão
dos donos do mundo
VOO SUAVE DAS CEGONHAS
No ápice da insensatez
estrelas envergonhadas
forram-se nos lençóis d’água
onde peixes cheios de insónia
procuram compreender os homens
As vagas destapam cabazes
de mensagens comoventes
quando dobradiças do vento
rangem lágrimas vazando
manchas de óleo
sobre o mar plástico
ressonando na areia suja da praia
Baleias pedem asilo
no silêncio das águas magoadas
Nossas vozes severamente engavetadas
nos armários do esquecimento
sonham um mundo com coração
Quando os voos suaves das cegonhas
ainda deveriam orientar nossos sentidos.
Bendinho Freitas Miguel Eduardo nasceu a 25 de Maio de 1971, em Luanda. Jurista, licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto UAN e Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Recursos Humanos pela Católica-Lisbon School of Business and Economics e Universidade Católica de Angola.
Foi Professor, tendo leccionado História em escolas secundárias de Luanda e Língua Portuguesa no Centro Pré-Universitário da mesma cidade. É funcionário público, quadro do Ministério da Energia e Águas, onde exerce o cargo de Director de Recursos Humanos.
É membro da União dos Escritores Angolanos (UEA). Publicou os livros “A Pitoresca Etnia das Palavras”, poesia, edição da UEA 2016 e “Silentes Vozes d’Árvores”, poesia, edição da Mayamba Editora 2019.
Para além de trabalhar a poesia, dedica-se, paralelamente à produção da prosa, com colaborações ocasionais nos jornais angolanos, onde publica crónicas, contos, ensaios e artigos de opiniões.










