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Quatro poemas | Bendinho Freitas

Foto de Venti Views na Unsplash

RESSURGIMENTO DOS BÚZIOS

 

Os búzios ressurgem

como se fossem gotas de missangas

escorrendo entre dedos 

melódicos das águas baptismais

no coração da Nossa Senhora do Cabo

 

como se fossem coroas 

de estrelas-do-mar

enfeitando os cabelos da Kianda 

Pinceis de raios do luar

lambendo a noite com brilhos 

de algas da minha nostalgia

 

Os búzios ressurgem 

como bainhas das águas 

se desmanchando no cenário

de peixes-agulhas  

cosendo com linhas de espumas

os tecidos das ondas do mar

estampadas de alforrecas

na ilha de Luanda

 

como se fossem fábulas de anjos 

bebendo o naufrágio 

do último vinho tinto do horizonte

 

PERDER A TELEGRAFIA DOS PEIXES 

 

Quando navios fantasmas

arrancam as vísceras do mar 

embarcações artesanais 

morrem encalhadas 

vendo o mar de costas viradas

num surto de espantos 

 

Pescadores locais perdem 

a rede telegráfica dos peixes 

dilatando a cartografia da fome 

 

O mar sem vísceras 

anuncia cultos 

aos estômagos vazios

como ave de mau agoiro

 

Uma florestas de nuvens 

agarra a chuva 

de lágrimas teimosas

 

Quando navios clandestinos

arrastam as vísceras do mar

desfalecem os sorrisos do amanhã

AS SÍLABAS DA FOME

 

Entre flores de orvalhos

caídas no rosto sujo do menino

escorrem em letras garrafais 

as sílabas da fome

 

As sílabas da fome 

escrevem-se ao relento

sob a cega indiferença

dos donos do mundo

 

manifestam-se 

como um norte sem luz

como as mãos angustiadas 

de uma vida despojada

buscando um fiapo de sorriso

como um estômago sem amanhã

 

As sílabas da fome soletram-se 

com métricas clamorosas 

de um prato vazio 

num mundo apagado

onde a obscuridade se inunda

na selvática podridão

dos donos do mundo

 

VOO SUAVE DAS CEGONHAS

 

No ápice da insensatez

estrelas envergonhadas 

forram-se nos lençóis d’água

onde peixes cheios de insónia

procuram compreender os homens

 

As vagas destapam cabazes 

de mensagens comoventes

quando dobradiças do vento 

rangem lágrimas vazando 

manchas de óleo 

sobre o mar plástico 

ressonando na areia suja da praia

 

Baleias pedem asilo

no silêncio das águas magoadas

 

Nossas vozes severamente engavetadas 

nos armários do esquecimento

sonham um mundo com coração

 

Quando os voos suaves das cegonhas 

ainda deveriam orientar nossos sentidos.

“Quatro poemas’_1”: fotografia de Carlos Pessoa Rosa

Bendinho Freitas Miguel Eduardo nasceu a 25 de Maio de 1971, em Luanda. Jurista, licenciado pela Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto UAN e Pós-Graduado em Gestão Estratégica de Recursos Humanos pela Católica-Lisbon School of Business and Economics e Universidade Católica de Angola.

 

Foi Professor, tendo leccionado História em escolas secundárias de Luanda e Língua Portuguesa no Centro Pré-Universitário da mesma cidade. É funcionário público, quadro do Ministério da Energia e Águas, onde exerce o cargo de Director de Recursos Humanos.

 

É membro da União dos Escritores Angolanos (UEA). Publicou os livros “A Pitoresca Etnia das Palavras”, poesia, edição da UEA 2016 e “Silentes Vozes d’Árvores”, poesia, edição da Mayamba Editora 2019.

  

Para além de trabalhar a poesia, dedica-se, paralelamente à produção da prosa, com colaborações ocasionais nos jornais angolanos, onde publica crónicas, contos, ensaios e artigos de opiniões.

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