
todos os dias o mesmo espetáculo de rua. antes apenas curiosidade. seres embebidos em álcool e crack. pagava-se o espetáculo a céu aberto com moedas ou arrotos depreciativos. sempre houve caridosos na noite a atenuar a fome que dormitava aqui e acolá. paga a culpa todos retornavam ao quarto, às orações e adormeciam. fora a noite cantava a chibatada da polícia e corpos carbonizados ardiam em brasa como divertimento de jovens abastados. a chuva limpa tudo e a manhã devolvia a velha rotina da esmola e dos arrotos depreciativos. a concentração de renda e o desemprego passaram ao comum. em cada praça ou quarteirão a exposição de olhos pedintes, famílias inteiras a expor a fome e os ossos. o medo avolumava-se. não havia moedas e xingamentos suficientes. o pânico de ser o morador das praças públicas e das ruas. evitava-se o olhar. as calçadas cada vez com menos espaços para os pedestres. os carros-pipa levando de embrulho corpos indefesos. a cidade atapetada por quase cadáveres cheirando a urina e dividindo o pouco com seus cães de rua. não dá mais como engolir o espetáculo como fruto da preguiça e das drogas. a fome não é um ato artístico e circense. a mulher de sessenta agonizante na calçada sendo atendida pelos profissionais do SAMU é levada à Santa Casa. conheceu bem esses tempos. foi a mais jovem moradora a viver com a família nos lados da Paulista. o pai torneiro mecânico e a mãe bordadeira. foram desalojados. deambulavam durante o dia com os pertences em um carrinho, desses de supermercado. à noite ajeitavam papelões e cobertores em lugares que acreditavam seguros. a menina de 14 anos abandonara o cachorro e a escola. carregava abraçado no peito um travesseiro de fronha de bolinhas e encardido. o pai lavava vidros de carro no cruzamento e a mãe vendia o corpo para quem trocasse o gozo por algum trocado ou comida. os pais observavam a filha dormitar agarrada ao travesseiro. precisava ajudar na sobrevivência dos três. mas tem 14 anos, dizia a mãe. Já é uma mulher, respondia o pai. e a virgindade da filha foi vendida a um negociante de ouro. aos dezoito chorou a morte da mãe por infecção generalizada na enfermaria da Santa Casa. o pai desapareceu. o negociante de ouro, um velho de setenta anos, viúvo e cheirando a naftalina, colocou a jovem no negócio. alugou um quarto em uma pensão no centro. fez dela a ponte com os traficantes e os delinquentes da hora. aos 20, asseada e limpa, aprendeu a vender o corpo em hotéis de luxo. conheceu um italiano, traficante internacional, a quem passou a servir. nunca cedera o direito de seu corpo a único homem. mas foi o modo de sair do país. aos trinta conheceu tantos países quanto foram os abortos. morou na Itália, no Canadá e em Istambul. sempre com o mesmo homem. aos 40 foi presa no aeroporto de Madri com quilos de cocaína. foi presa e esquecida. saiu aos 60 sem um puto no bolso. um velho conhecido bancou o retorno ao Brasil. foi morar na rua onde vendeu o corpo até ficar doente e levada à Santa Casa pelo SAMU onde morreu de infecção generalizada como a mãe. a miséria é cíclica e repetitiva. não carrego ideais para o ato de escrever. nem seria certo uma história engraçada para poucos privilegiados à leitura. isto não ressuscitaria a minha jovem de 14 nem tantos outros que não tiveram direito à vida. não é justo fazer da tristeza uma história alegre. isto seria ser um igual a esse povo que continua a andar pelas ruas olhando a miséria exposta nas calçadas e nas praças como se tudo não passasse de um espetáculo cinematográfico, um caminhar na cidade onde corpos são substituídos por vasos de flores, coloridos, ao modo de Sonhos do Kurosawa… e não me chamem de panfletário!
Carlos Pessoa Rosa, neto de portugueses e escravos, xamã com registro em órgão de classe (seja lá o que significa essa palavra), arrisca na prosa e na poesia, tem algumas publicações fruto de premiações, cujo valor pode ser discutido, como A cor e a textura de uma folha de papel em branco, contos, e Sabenças, novela, ambos publicados na plataforma Amazon, mas por lá também tem outros livros nunca premiados.










