Cultura

Os ladrões de frases | Hermínio Prates

Foto: Arquivo CB/D.A Press

O homem, sabem todos, é um bicho político, na fiel observância do filósofo Aristóteles (384-322 a C), e em cada esquina da vida trama rasteiras nas crenças alheias para levar vantagem em tudo. Certo? Concorde ou não com a incorreta frase do canhoto “filósofo” Gerson (1941-), o amigo leitor há de dar vazão ao intelecto e repetir uma fala antiga que se pretendeu ser do esperto Tancredo Neves (1910-1985) – se vivo fosse, agora estaria sorvendo mais de um centenário de benesses – que mais uma vez se fez dono de frase de terceiro para posar como erudito na arte do vazio palavrório. Repetiu o mineirinho que “a política é a arte do possível”, insinuando com isso que “é conversando que a gente se entende”. Ou, sem qualquer pudor, que “é dando que se recebe”, como se São Francisco (- 1226) fosse o patrono das velhacarias. O político prussiano Otto Von Bismarck (1815-1898) já dissera que “a política é a doutrina do possível” e da fala dele se apropriou algum escrevinhador de aluguel.

 

E como não sou de resguardar histórico de outrem, revelo que ouvi o dito Tancredo, em eufórico discurso quando na sinecura da governança mineira, dizer que “Minas tem um coração de ouro em um peito de ferro!” O populacho aplaudiu, certamente porque o discurso foi feito para os escolhidos comensais que festejavam os 150 anos de sangria do ouro mineiro sob a chibata dos ingleses que sugaram os veios auríferos de Nova Lima. Mas a frase gritada nos estertores da peroração me transportou para as páginas do livro “As veias abertas da América Latina”, onde Eduardo Galeano (1940-2015) historiou o secular assalto das riquezas minerais dessa América ao Sul do Equador. Está aí a origem? Não, a assertiva é do engenheiro francês Claude-Henri Gorceix (1842-1919), que implantou em 1876 a Escola de Minas de Ouro Preto, a pedido de Dom Pedro II (1825-1891). E a primeira edição do livro é de 1971. Será que Eduardo Galeano usou aspas ao usar a frase? Pode ser, mas como não encontrei o livro entre meus muitos, não pude confirmar. Creio que sim, porque essa gente comunista sempre respeita autorias alheias.

 

Se o Tancredo velho de artimanhas deu fiança às impossibilidades dos conchavos, bom aprendiz foi seu dileto neto, o esperto Aécio (1960 -), que desde menino observou o avô pelas frestas do poder e também se arrisca a cometer frases de efeito no chafurdo da política rasteira. Ao comentar o livre trafegar nessa ou naquela vereda que possa garantir uma eterna poltrona na mesa dos bem sucedidos, o mineirinho, que também aprecia a brisa marinha e a permissividade do viver carioca, proferiu que “às vezes, em política, as coisas são até o que parecem ser”. E posou de sapiente nas páginas da revista Veja, na edição 2151, do 43º ano de jornalismo suspeito.

 

Será que o fazer político é um mero repetir de frases? Assim pergunto porque, nos idos dos anos sessenta, pontificou em Minas um calvo de triste adesão aos militares golpistas, o inglório José de Magalhães Pinto (1909-1996), que teria dito (ou repetido?) que “política é como as nuvens; você olha agora, vê uma coisa e daqui a pouco tudo já mudou” Será mesmo? Ou tudo não passa de um somatório da práxis “o que é que eu ganho com isso?”, similar do “primeiro eu, depois que se danem todos!”

     

Aliás, sobre essa safadeza de se apropriar das falas dos outros, sempre confiando na falta de memória de quem ouve ou lê, cito um quiproquó (quid pro quo, para quem ainda se lembra das aulas de latim) surgido entre tantos escrevinhadores de aluguel que abasteceram Tancredo Neves com frases de efeito que deram brilho aos discursos no seu longo caminhar político. A briga foi feia, despertada e alimentada por partidários dessa ou daquela ala dos beneficiários do poder e envolveu o jornalista Mauro Santayanna (1932 -) e o escritor Waldomiro Freitas Autran Dourado (1926-2012). Quem seria o pai de determinada frase incrustada em um discurso do Tancredo?  A pendenga se foi esse, se foi aquele rendeu acusações e desmentidos nos jornais, mas ninguém se preocupou em conferir o DNA do que foi dito, mesmo com a desconfiança de que a paternidade poderia ter raízes em William Shakespeare (1564-1616) ou até mesmo nos filósofos gregos.

 

Outro quiproquó de lesa autoria foi denunciado por Cláudio Bojunga (1939-2022), autor do livro “JK – O Artista do Impossível”, primeira edição publicada em 2001. Ele menciona o desmentido que indiretamente faz à interpretação do mesmo Autran Dourado, um dos colaboradores diretos de Juscelino Kubitschek (1902-1976) sobre o discurso em que Juscelino usou a frase antológica, “Deus poupou-me o sentimento do medo”. Autran atribui-se a frase; Bojunga credita-a a Augusto Frederico Schmidt (1906-1965). Foi assim: quando o mineirinho se anunciou candidato à presidência, houve o veto militar. JK foi orientado a reagir, o que fez em uma entrevista ao Correio da Manhã. Juscelino falou ao jornal, mas pediu um tempo para consultar o pessoal de Minas. Só de madrugada o editor Álvaro de Barros Lins (1912-1970) recebeu autorização para publicar a entrevista. E teria incluído a frase como se fosse do candidato. Ao tomar conhecimento do que considerou uma provocação, o governador Benedito Valadares Ribeiro (1892-1973) explodiu: “Esse telegrafista quer bancar o Tiradentes com o pescoço dos outros.”

 

Moço, a frase é tão boa que vingou, está inscrita em pedra lá em Brasília. E os três “autores” se deram bem no governo JK: Augusto Frederico Schimidt se tornou conselheiro palaciano e beneficiário de alguns negocinhos, Álvaro Lins foi nomeado para a embaixada em Portugal e Autran Dourado chefiou a área de comunicação presidencial. Quando estava acuado pelo mar da corrupção, Fernando Afonso Collor de Mello (1949 -) se apropriou da frase, mas o efeito foi contrário. A quem pertence a bravata? A nenhum deles, pois quem conferir na Bíblia vai ler na epístola de Paulo a Timóteo que “Deus não nos deu o espírito do medo”. Isso entre os anos 64 e 67 depois de Cristo, pois se o dito é bom, a data é imprecisa.

 

“Navegar é preciso, viver não é preciso”, é epígrafe que foi usada por Fernando Antônio Nogueira Pessoa (1888-1935) em sua obra poética para ressaltar a necessária precisão nas jornadas oceânicas, oposta às incertezas do viver; mas sabem os bem informados que o criativo português se “inspirou” no lema da Liga Hanseática (que na Idade Média reunia, militar e comercialmente, 150 cidades europeias) para falar de um assunto que hoje diz respeito aos nórdicos, aos portugueses, a todos. Inclusive aos que se encantam diante da multifacetada lírica do menestrel lusitano e que ficam inebriados com o canto das sereias.  

 

A frase é cria do vate lusitano? Que nada, segundo o historiador Lúcio Méstrio Plutarco (46-120 dC), ela foi dita pelo general e cônsul romano Cneu  Pompeu Magno (106-48 aC), no remotíssimo ano 70 antes de Cristo. O militar disse, mas quem escreveu deve ter sido o pensante Plutarco.

“Os ladrões de frases_1”: fotografia de Hermínio Prates

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros. Autor dos livros Família Miranda – Vidas e Histórias ( ensaio historiográfico), A Amante de Drummond (contos), Mulheres e predadores (romance) e A noite do tatu (crônicas).

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