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Comentário sobre o livro Filosofia para a vida: quando pensar é o melhor remédio, de Glauber Ataíde | Lucyane De Moraes

Foto: Glauber de Ataíde

“Comentário sobre o livro Filosofia para a vida: quando pensar é o melhor remédio, de Glauber Ataíde”.Foi publicado pela Editora Vozes o livro Filosofia para a vida: quando pensar é o melhor remédio. O opúsculo de Glauber Ataíde apresenta a filosofia não como um saber abstrato e distante, mas como um exercício do pensamento capaz de iluminar tanto dilemas herdados da tradição quanto demandas urgentes do presente. Alheio à linearidade narrativa, o livro tece considerações que remetem às escolhas humanas e às consequências que delas decorrem, movimento esse que amplia suas possibilidades interpretativas.

 

Devido a seus méritos literários, a obra vem conquistando o público leitor, haja vista a sua permanência por duas semanas entre os títulos mais vendidos da revista Veja, na categoria de não ficção. Essa ampla adesão atesta não apenas a relevância de sua temática, mas aponta para sua habilidade em dialogar com as inquietudes dos dias de hoje.

 

Além de escritor, Glauber Ataíde é um professor que transforma a reflexão em diálogo, conduzindo a filosofia com clareza e compartilhando insights com centenas de ouvintes por meio de um influente podcast filosófico no Brasil. Para ele, ao estimular o enfrentamento dos limites humanos, a filosofia não visa suprimir os abismos da existência, mas trazê-los à luz, oferecendo ao indivíduo a chance de se relacionar com a vastidão de sua própria existência.

 

Não por coincidência, o livro percorre diversas correntes da história da filosofia, articulando reflexão da realidade e limites do conhecimento, frente aos ditames da natureza humana. Ao mesmo tempo, aborda fundamentos da moral, da política e da lógica, evidenciando como essas dimensões moldam a compreensão de estar no mundo. Ao convocar a experiência do leitor e desafiá-lo a questionar certezas, as indagações propostas atuam como espelhos do pensamento. Assim, a leitura assume um caráter evocativo, conduzida por uma escrita que demonstra domínio estilístico, perceptível na forma como os temas são articulados.

 

Já nos agradecimentos, Glauber convida o leitor a uma travessia amparada na sabedoria estóica de Marco Aurélio. Desde esse limiar, o texto induz à introspecção e à escuta interior, sugerindo que a filosofia nasce das inquietações da experiência concreta, nas quais a dúvida, o conflito e a incompletude impulsionam o pensamento. Ao recuperar a noção clássica de cuidado de si (ou da alma), seu livro incentiva o leitor a perscrutar a fragilidade da existência, enquanto se envolve em diálogos com Sócrates, Epicuro, Sêneca, Montaigne, Nietzsche, entre outros, explorando questões como amizade, desejo, finitude e sentido da vida. Nesse contexto, seu discurso questiona a tendência de aceitar fatos considerados imutáveis, caracterizando a filosofia como um exercício de problematização da realidade, atento às vicissitudes inerentes à própria condição humana.

 

Sob essa ótica, a filosofia deixa de ser um saber apartado da vida concreta para afirmar-se como prática capaz de intervir na realidade e ressignificar a experiência: um remédio incômodo que desafia visões consolidadas, redefinindo modos de agir, sentir e enfrentar adversidades. Convém salientar que a noção de «remédio» ultrapassa a estrita farmacologia do corpo, estendendo-se às fissuras psíquicas, simbólicas e existenciais. Nessa perspectiva ampliada, o «remédio» deixa de ser mera substância para converter-se em uma modalidade de cuidado, que opera simultaneamente na prevenção e na intervenção, afirmando-se como medida protetiva e reparadora.

 

Em termos conceituais, vale ressaltar alguns aspectos importantes para a análise do livro: historicamente, diversos autores conceberam o «remédio» como metáfora poderosa, capaz de oferecer respostas provisórias frente a dilemas morais e sociais, na busca de restaurar a medida perdida e reconciliar a harmonia da alma e da razão, antevendo, nesse contexto, que toda cura envolve riscos intrínsecos à própria perturbação que se pretende corrigir. Nesse caso, a noção de cura envolve reflexão crítica sobre limites e responsabilidades da existência.

 

O que faz com que o «remédio» não se limite a um alívio passageiro é o fato de ele se apresentar como alegoria da condição humana, expondo o paradoxo entre ordem e caos, na tentativa de restabelecer níveis inalcançáveis da experiência. De acordo com Platão, o pharmakon, como aparece no mito de Toth, servia como cura da ignorância. Porém, essa cura apresentava um caráter dialético, uma vez que o mesmo recurso, que promete equilibrar o espírito, poderia levar ao enfraquecimento da memória, do exercício interno do pensamento, criando apenas a aparência do saber. Um delicado fio que revela uma ambiguidade intrínseca entre remédio e veneno.

 

Do pensamento filosófico à análise social, o «remédio» manifesta-se de maneiras variadas, integrando conhecimento e sabedoria e apontando caminhos para uma vida em comum mais justa e consciente. O «remédio» que Aristóteles prescreve para a alma inquieta, por exemplo, não é nem a restrição nem a indulgência, mas a ação equilibrada e racional, o caminho do meio (a justa medida entre os excessos), pelo qual se alcança a eudaimonia, essa cura sutil que transforma a vida em plenitude e bem-estar integral.

 

Vale ainda mencionar que, nos tempos de hoje, a filosofia – cujo nome, deriva do grego φίλος (phílos): amigo, amor e σοφία (sophía): sabedoria, significando literalmente «amor à sabedoria» – não deve se ater ao domínio acadêmico formalmente instituído, mas se caracterizar por um mergulho contínuo em questões que tanto põe em xeque o conhecimento quanto desvendam os limites da linguagem, convocando ao cultivo da percepção crítica.

 

No que se refere ao livro, entende-se que seu propósito é expor ideias centrais, apoiadas em exemplos que orientam a análise de questões do cotidiano. Nessa perspectiva, Glauber procura tornar a filosofia acessível, abordando categorias da ética, estética, metafísica e epistemologia. E ao estabelecer um diálogo entre ciência, literatura e arte, seu livro configura-se como um convite à abertura interdisciplinar, propiciando ao leitor explorar conexões entre diferentes áreas do conhecimento, mediante deslocamentos sutilmente perceptíveis.

 

Com linguagem fluida, o autor evidencia que estudar filosofia vai muito além de memorizar teorias, citações ou nomes de pensadores do passado, alheios à contemporaneidade. Metodologicamente, combina investigação histórica e filosófica por meio de uma escrita que, longe de adotar um distanciamento frio, revela empatia pelos pensadores que examina. Organizado em capítulos curtos e repletos de dicas práticas, seu livro adota um tom instrutivo, no qual a filosofia se transforma em uma bússola que orienta a reflexão frente à problemática entre aparência e compreensão da essência.

 

Mediante clareza expositiva, conceitos intrinsecamente contraditórios são articulados de forma econômica, o que confere à obra transparência, mas também uma tensão subjacente entre síntese e profundidade. Embora cumpra seu papel contextualizador, oferecendo ao leitor leigo um percurso pelo pensamento filosófico, nota-se que alguns tópicos mereceriam ser explorados com mais completude, o que poderia alargar a sua relevância. Ainda assim, oferece possibilidades efetivas para aqueles que se aproximam da filosofia pela primeira vez. 

 

Entre ideias e impressões, a obra se destaca por proporcionar uma leitura não apenas agradável, mas cativante, regida por uma narrativa eloquente que, do início ao fim, expressa ideias com eficácia. Para além da acepção de conceitos, o texto entrelaça conselhos e histórias inspiradoras, dando ao leitor iniciante ferramentas para assumir a responsabilidade de pensar sobre a passividade rotineira que assola o mundo em que se vive.

 

Filosofia para a vida: quando pensar é o melhor remédio apresenta-se como um ponto de partida, de onde o eco das ideias se propaga de maneira persuasiva, estimulando investigações futuras, capaz de acender a chama da curiosidade e guiar o leitor comum por labirintos que instigam o pensamento. Prático e envolvente, o livro, repleto de ideias que inspiram reflexão e podem ser aplicadas no dia a dia, vale a pena ser lido e recomendado.

Fotografia de Lucyane de Moraes

Lucyane De Moraes – Natural de Salvador-Bahia, é professora e pesquisadora, com produção acadêmica consistente e colaborações em revistas científicas de prestígio. Participa ativamente do debate filosófico e cultural contemporâneo, com atuação marcada pelo rigor científico e sensibilidade crítica. É também autora do livro Theodor Adorno & Walter Benjamin – Em torno de uma amizade eletiva (Edições 70). @lucyanedemoraes

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