Cultura

Epitáfio | Couto Corrêa Filho

Imagem: https://www.netmundi.org/

“Chamava a terra de mãe,

tinha Complexo de Édipo –

agora está satisfeito

já retornou a seu útero.”

 

Na Teogonia órfica, que remonta ao século VII a.C., existe um discurso em homenagem a Zeus, supremo senhor do universo, segundo a religião politeísta e mitológica dos antigos gregos. Ali, pela primeira vez no Ocidente, a Terra é reverenciada maternalmente através da referência expressa, textual, conforme o referido discurso, que diz: “a Terra é para ele regaço sagrado, mãe de tudo e os ásperos cumes dos montes”.

Esta expressão atravessou vinte e seis séculos, rompendo o tempo e o espaço e ecoando no primeiro verso do epigrama de Rossini Corrêa, quando o poeta canta: “Chamava a terra de mãe”.

Depois, no século VI a.C., na Grécia, já sob o predomínio intelectual da Filosofia, surge o cosmólogo Xenófanes de Colofão, em 540 aproximadamente, considerado como o precursor da Escola de Eleia e autor de uma cosmogênese original, que não admite nem nascimento e nem dissolução universal, afirmando que o universo é sempre o mesmo. Atente-se ao seguinte fragmento no qual Xenófanes é categórico ao sentenciar: “Todas as cousas vem da Terra e na Terra vão terminar (fr. 27). Ora, esta sentença ecoa sobremaneira no quarto e último verso do epigrama rossiniano, que se encerra com o vate cantando: “já retornou a seu útero”.

Fiz essa digressão para que se possa entender o poema em análise como eco poético do Orfismo, assim como da Cosmologia Filosófica do pensador de Colofão.

Impregnado de densidade humana, existencial, como uma flecha atingindo o alvo, o epigrama rossiniano conduz o leitor à reflexão sobre o inevitável e trágico destino humano neste planeta, com o sujeito cantado pelo poeta constituindo-se como metáfora de todos os homens que nutrem amor filial pela Terra.

“Epitáfio”, trata-se de um canto escatológico propiciador de reflexões filosóficas sobre o fim da humanidade e, ao mesmo tempo, instaura-se como um paradigma da linguagem da poesia escrita, indicando como pode ser a mesma na atualidade: uma expressão fenomenológica da síntese entre o pensamento e o sentimento poético.

 

Couto Corrêa Filho

Ilha de São Luís

Páscoa de 2022

 

Fotografia de Rossini Corrêa

“Epitáfio_2”: fotografia de Couto Corrêa Filho, por Zé Reinaldo Martins

Couto Corrêa Filho é poeta, ensaísta, crítico de artes visuais e ator de cinema. Doutor em Filosofia, é autor, entre outros, de Por Espanha, livro de poemas vencedor do quase centenário Prêmio Literário Cidade do Recife.

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