Cultura

Olhos – Demétrio Panarotto | João Nilson Alencar

Foto de Marija Zaric na Unsplash

No prefácio ao seu primeiro livro, Borboletas e Abacates (2000, Universitária Grifos, Chapecó), livro de caráter “experimental”, em que Demétrio se propõe a dialogar com a tradição guache ocidental,  Tom Zé nos adverte, melhor, nos “abre os “olhos””, para o fato de que esse moço  está “quebrando o pedregal” e usa, para tanto, “lâmina e marreta”. Pedra, olhos, lâmina e marreta. Retomada do passado, refazenda do “estados de coisas”, como diz o também transgressivo e cantor/compositor de “Todos os olhos” (1973). 

 

. A retomada não é gratuita, portanto, por parte do Demétrio. Não só porque vai se debruçar sobre a obra desse “marginal” em sua dissertação de mestrado  com “Não se morre mais, cambada ( o tom de Tom Zé)” (2005), como também porque vai aos poucos afinando sua poética, digamos assim.

 

. Pois bem, essa afinação chegou a um título mínimo (ou seria minimalista?): “Olhos”, o que indica não que o poeta se tornou minimalista na escrita. Ao contrário: luta para domar o pensamento e a pulsão (certamente imagética) do jorro (gozoso e frustrante) das palavras.

 

. Escolhe o significante “olhos”, forçando o leitor a adentrar no livro que se propõe como um dos elementos sinestésicos (a vista tátil), da capa  de inspiração cubista,  avivando sua imaginação.

 

. Para mim, “olhos” acaba funcionando mais como metonímia antes de mais nada. É a parte de um todo estilhaçado (e para sempre irreconstituível) com a qual nos deparamos. A estrutura dialoga aqui também com a estratégia modernista da “Kodak” – cenas do dia a dia que o eu-lírico perspicaz não perde de vista…, abusando dos versos curtos e brancos. A profusão de imagens é gigantesca, atualizando a estratégia do enjambement, o que dá movimento ao texto e, simultaneamente, faz o olho do leitor montar o jogo semântico das quebras e dos encadeamentos… , lembrando o movimento de decupagem das imagens.

 

. Agora, o leitor que não se engane: há desencontros e deslocamentos constantes, partindo, muito comumente (e diria principalmente na primeira parte do livro) de ditos e expressões populares envolvendo o dispositivo “olhos”: “dois olhos, vai tomar no olho, olhos pichados, olhos turvos, olhos furados, olhos fritos, olhos cataratas, deixei meus olhos caírem”…(p.20,21….). Já  em “tirei o fuzil da tomada (p.18) “quebrei a corrente elétrica com os dentes” o desconcerto, no sentido do deslocamento contemporâneo, é evidente (p.17). Assim, essa primeira parte funciona como plataforma do livro, configurando-se numa espécie de manifesto, ou ainda, lembrando o famoso poema de T.S. Eliot, “A canção de amor de J.Alfred Prufrock”.

 

. Mas o grande jogo talvez esteja nessa sugestão, presente já na capa, de se abrir e de se fechar… os olhos, todos os olhos. Abre-se para o mundo, fecha-se dele; abre-se para se encontrar (diz um dos poemas), fecha-se para se perder (ou vice-versa). Afinal, como ele encerra o livro : “não sabe a partir de que olho do corpo/impera o desejo” (p.87).

 

. A escritura no fundo (do olho) é também um percurso da memória : um grito, traço que se cria ao percorrer os labirintos das lembranças, mas também desenho que se faz no caos. Há um ditado mineiro que diz: “vou olhar para dentro”. Eu desconhecia. O sentido? “Vou tirar uma soneca, vou dormir”. Esse olho que vê (se vê?) na escuridão é também o olho que quer ver (outro mundo?), quer encontrar o desejo e deixar o desejo ser, mas também é o olho que o freia…. Olhar para dentro parece bonito, não?

 

. A pergunta que fica no ar, portanto, é também perceber o que ficou fora… Do lado de fora… O que não se falou… Ou, se se disse, também ficou nas entrelinhas… E há muitas entrelinhas nesse livro!!

 

. No livro, há um movimento “demetriano” interessante: o “deslize”, o roçar das palavras, num jogo quase erótico (como diria Cristian Mertz sobre nossa experiência quando entramos numa sala de cinema….), potência que faz o leitor buscar e perder o tempo todo (movimento do piscar os olhos do próprio eu-lírico, como mencionei há pouco): onde os olhos são também tela:

 

“olhos pichados

Muro velho murro

Camada de spray sobre

Camada de spray sobe

Camada de spray

Desço” (p.18)

 

. Estamos em pleno território transgressivo/vanguardista: Buñuel/Dali/Lorca….

 

. Aí temos: A busca de si – de um “eu” perdido –p.19 e a queda do olho/e  a sua perda (é diferente perder a visão do que nunca tê-la tido, verdade?)

 

. A máquina do desejo é refreada por essa ausência.  O desejo busca o universo (onipresença e onipotência), mas é aí quando/onde o olho falha: só se encontra na roçada, no “tum tum”,  das palavras: onomatopeias, aliterações, assonâncias funcionando como trombetas do apocalipse.

 

A expiação da culpa do desejo reaparece: de ver o que se deseja; de desejar libertar o querer(se) – trata-se de um gozo que se culpa – numa tensão que provoca explosão.

 

 

Diz um dos poemas: 

“perder a visão é diferente

 de ter os olhos arrancados

fui eu mesmo que os arranquei” (p.23)

 

É fortíssima a ideia de que os olhos não suportam o que veem, da violência que se apresenta. Lembremos “as retinas fatigadas” de Drummond ou ainda a persistente discussão de uma realidade inquietante como em Aminadab1, de Maurice Blanchot.

  

Então, reencontramos o teor ácido da poética de Demétrio, expondo a temática social através de um esfacelamento do corpo (Vejam os livros outros dele: Navalha, Sem Ensaio,  Lotação….. Ares Condicionados….). A vida nua, para lembrar Agamben, sempre presente: o ser é sem sombra… e a exposição dos seus buracos, uma necessidade sem mistificações e óculos escuros. Entramos na “realidade da fome”, para citar um dos casos do livro e as figuras enigmáticas, sobremaneira as de rapina: o corvo, o abutre, o urubu.. Afinal, Tudo é um corpo “para se carregar, um corpo ora defunto, ora…. “deixar as coisas acabarem” (27), aquilo que aparece no “próximo improviso”, ou seja, de novo a ideia presente em seu livro Sem ensaio, com o que, poderia afirmar, escrever é também caminhar no escuro…..

 

. O livro apresenta essas 4 seções: 

Suspensões 

Molduras

Suspensões

Espelhos

 

. Há ainda uma parte final, com algumas specolographias de Helena Barbagelata, a partir de alguns poemas.

 

. Vejamos um pouco mais:

 

. A linha crítica segue, com a denúncia da naturalização do estado das coisas.  Como em “na mira te sinto Santiago” (p.45):

 

o olho estado máquina

sem pudor, mira o olho vida

 

o disparo cega o corpo range

mas não policia a alma(…)

 

ao lado de olhos coração alijados e

enlutados, a esperança em riste

 

o olho morto ainda mais vida, agora

é quem mira o olho máquina

 

te miro, assim, com dores

pois não te quero mira. 

 

. Há em muitos poemas, com essa quebra sintática e o recurso do encavalgamento a sensação de vertigem, crucial para se alcançar a percepção dessa ideia de queda/falha, tão forte em Navalha. Lembremos “A valsa” de Fagundes Varela – dissílabos que, somados ao enjambement , ditam o movimento, o ritmo da própria dança.

  

. Aqui, o eu-lírico é realista, sonhador e desencantado ao mesmo tempo. Menos dândi e mais “cobrador” (à la Rubem Fonseca), e o movimento ele encontra também nas cenas das ruas, no cotidiano.

 

. Não raro, há uma exploração voraz dos elementos imagéticos, como uma precipitação, uma queda, uma surpresa.(“pelas ruas”p.48 e “o curso” p.52).

 

Mas encontramos também em “olho inabitável, “ah, sim” (p.53).

 

. Logo se vê que não se trata apenas do que se lê, mas como se lê, para lembrar o título de Daniel Link. Como se lê e de como tratar esses corpos abandonados, “marginais”. “Caixa de fósforo” (p.54) – todo universo do ser lixo, do debate do reciclável, prensado e visado por urubus….  “os mesmos que sobrevoavam o poema no final do ano que nem bem sei/ se já findou ou segue espetando o corpo carne podre vodu viva.” (p.54). Então, a equação (mais uma) vai se formando: linguagem viva, deslizante, mas apelo forte ao  elemento prosaico – a fala, a conversa: “não te abales” … diz o início de “ainda há vida na ambulância” (p.55) com a vertente metalinguística fortíssima em praticamente todo o livro.  Portanto, o corpo que percorremos, tocamos, vemos, sentimos é também o corpo do livro, o corpo do poema…  Assim, “morrer” é perder a fala, deixar de ser narrador neste poema da “ambulância”.

 

. A complexidade se faz evidente: dentro da temática do “ver e não ser visto”, “ver e não entender(?)”, “saber-se olhado (visto) e não compreendido”, performa-se uma identidade : ver é também da ordem do fantasma (veja-se o ponto de vista da criança em um de seus poemas (“Joãozinho”, p.57-8).

 

. Interessante também é o jogo que você faz entre a voz ativa e passiva em “no amor é assim…”: a sonoridade, mas também os permanentes deslocamentos, onde o substantivo ocupa o lugar do verbo, como em “cu” e “medo” – atiçando os múltiplos sentidos. (p.61) E aquele traço do humor que faz toda a diferença: “a gente ama/e é amado/ às vezes amido”(p.62).

 

. Há a questão dos planos (1º e 2º ) em “Pequeno capítulo” – numa lógica meio surrealista (p.64). Em “poço” p.65/6, os corpos mortos, as cabeças cortadas insinuam um Jesus entre eles x o Progresso (na figura do capataz). Lembremos o título de contos de “A oração do carrasco” do Itamar Vieira Jr…

 

. O leitor vai encontrar também a velhinha com cara de frágil e ingênua… mas será desmascarada em “quitutes” (p67/9). E vale a composição, porque é uma cena cinematográfica, não à toa!! (creio que vc. vai poder falar a respeito). Ou ainda sobre o duplo (eu)  em “Senhorita K” .

 

. Sempre afinado, “Poema” é praticamente um haikai, lembrando o estilo modernista… a mistura e a irreverência. Ou seja, o livro nos traz poemas bem curtos, mesclados com poemas longos…

 

. Na linha dos temas, ou das estratégias, o tom erótico é muito presente – e você poderia comentar um cadinho…  ou um cadão! Caso de “uma tuba” – incluindo aí o provocativo “masturbar a urbe/com os urubus” p.76.

 

 Uma delícia o: “somos todos criminosos/ quando os corpos se/tocam se/esbarram se/ anistiam se/convém” ..

 

. Já mencionei a questão do elemento cenográfico nos poemas, junto com observações (quase) aleatórias, mas que compõem a paisagem, ex. “a cabeça uma cachopa…” p.79. Ou ainda em “arremesso de saudades”. E a borboleta reaparece, nesse poema, como letra desvalida em “bobo letra” p.81.

 

. Valeria comentar ainda o negrito das primeiras palavras dos poemas, funcionando ao mesmo tempo como índice (ou não) e como índice remissivo. Assim, memória, metalinguagem se entrelaçam , como vimos. “o tempo” – estranhos e entranhados…. ; “deu um grito”  (p.84).

 

“Entre guarda e se/desfazer se/desfaz da maioria e uma/que outra coisinha guarda no/bolso furado/arquivo passageiro/que claro a/gente não sabe/ou faz de conta/um conto/canto do/olho que/seleciona sem/nos avisar o/lugar do/mundo ao/qual devolverá os/empréstimos um a/um.” (p.85). Só aqui podemos fazer uma discussão da linhagem do “canto do olho” como o elemento oblíquo presente em muitos trabalhos artísticos, instaurando uma modernidade “atravessada”, “enviesada”, partindo de Machado de Assis, no caso brasileiro…

 

. Quero ainda chamar a atenção para a questão da mistura  ou o desejo de romper com as estruturas-padrão: como em “evidente que era sangue”   – porque está finalizando o livro , resumindo-o de certa forma e antecipando as specolographias: fundamental aqui o tema de que não se consegue dizer algo, as palavras faltam, as letras ficam soltas, o rosto se desfigura junto a verbos, lágrimas e sorrisos. Estamos em pleno território em que limites são borrados o tempo todo: a prosa invade, inunda o verso e vice-versa…..  Portanto, as “specolographias” de Helena Barbagelata também retomam esse corpo borrado, em que nem o duplo dá conta das palavras, mas, sim, há um corpo que busca outros contatos, ali onde o olho segue, está, obnubilado.

 

. Portanto, livro que retoma a discussão dos limites e possibilidades do olhar (lembremos Visão do Paraíso) e tantos significantes que propõem o debate ampliado dessa metonímina do “olho”. Porque a “mirada” fulmina, erotiza, convida, repreende… e , por fim, não dá conta do que se vê muitas vezes (a presença da questão da cegueira e da visão do profeta, já que neste  não se trata do fechado , nem do aberto, mas a ausência (a terceira via/vista) que instaura uma poética não só do futuro, como da própria fabulação.

Ilha, 14.6.25

 

Nota

1 – O que esqueci então de ver? Perguntou Thomas.” (p.84); “A transformação modificou o aspecto do cômodo para aqueles que nunca tinham percebido sua verdadeira natureza, estes continuaram a nada ver. Mas e os outros? O que veem? O que há mudado para eles? Eles abrem os olhos e tudo está como antes. Como lhe explicar isso?” (p.84).

 

Referências:

BLANCHOT, Maurice. Aminadab. Florianópolis : Cultura e Barbárie, 2025.

 

ELIOT, T. S. “A canção de amor de J.Alfred Prufrock” in Poesia. Rio de Janeiro : Nova Fronteira, 1981, pp. 57-69.

 

JÚNIOR, Itamar Vieira. A oração do carrasco. Itabuna : Mondrongo, 2017.

 

PANAROTTO, Demétrio. Borboletas e abacates. Grifos : Chapecó, 2000.

 

__________. Sem ensaio. Portugal : Kotter Editorial, 2022.

 

__________. Olhos. Curitiba : Kotter Editorial, 2024.

 

ZÉ, Tom. “Todos os olhos” in Todos os olhos (LP). Warner Music Brasil, 1973.

fotografia de João Nilson Alencar.

João Nilson Alencar: : professor de Língua Portuguesa e Literatura Brasileira, recém-aposentado, do CA/UFSC.

Especialista em Literatura Brasileira (Especialização-UEM, Mestrado-UFSC), Doutorado em Teoria Literária (UFSC-UBA) e Pós-doutorado em Estudos Literários (UFMG).

 

Possui diversos ensaios publicados sobre cultura e literatura contemporâneas, especialmente acerca da obra de Murilo Rubião, destacando-se a análise dos arquivos desse escritor, publicados em parte pela revista Muitas Vozes (v.4; N.2, 2015): Arquivo – máquina de (des)montar.

Participante do NEPALP/UFSC (Núcleo de Estudos e Pesquisa em Alfabetização e Ensino de Língua Portuguesa).

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