Cultura

As variáveis mobilizadas pela memória de Valeska de Aguirre | Letícia Ferro

Foto de Thomas Kinto na Unsplash

Não se pode negar que a memória é mote de disparo capital para a poesia. Se quem a retrata recorre, entre aspas, à inspirada escuta de Mnemosine, em Atos de repetição, de Valeska de Aguirre, o passado, que ora se apresenta, atende ao chamado das lembranças em fragmentos encontradas “nas brechas que as tampas deixam/ para respirar ar novo”. Assim, “a transparência opaca” (do) agora paira e dá a ver o curso percorrido um tanto “sinuoso” além de muito “sonoro” – capaz de demover “embates leais” pospostos ao registro do que foi, mas com embalo e abalo outros, tornando-o, desde logo, original. Condição que se flagra na rasura da realidade da poeta e a recobre com o manto da “diferença” – não da “reiteração” – tanto mais improvisadamente subjetiva quanto mais liricamente imaginada. Os dois últimos termos aspados são da fala do compositor Silvio Ferraz que Aguirre escolheu para transmutá-los em primeira epígrafe e fazerem as vezes de palavras-chaves – ou mesmo de palavras-valises – do que se pode (a)guardar de seus Atos. Neles, a “imprecisão” estira-se na frequência “dos pés andando em relevo” e, zás, atinge, ecoando coloração nem preta nem branca, mas acinzentada; o passado carreia e se reinventa na bruma vertiginosa do presente, defrontando-se com um intermitente jogo entre os diferentes tempos – cujo “fim e início” não passam de “pontuações inexistentes” – e referências diversas a soçobrarem – para falar como Paul Ricœur (2007, p.25) – no “[…] curto-circuito entre memória e imaginação […]”.  (Afinal, ainda citando o filósofo francês, quando estamos diante de “[…] duas afecções […] ligadas por contiguidade”, como é o caso da memória e da imaginação, é preciso admitir que “[…] evocar uma […] é evocar a outra […]” (RICŒUR, 2007, p. 25), invariavelmente.)

 

De Ferraz, Valeska, então, goza a remissão aos princípios construtivos da improvisação em compasso com o calor da hora, da reescritura, da interrupção seguida de reconstrução da composição, a resultar em um novo desenho musical. Em um novo “ato”, conforme o próprio vocabulário da poeta. Assim, se, para ela, “mínimos movimentos” tornam “[…] frenética/ [a] primeira descoberta […]”, os versos, escritos cada qual numa visada fenomenológica do locus, assinalam que o assombro irá, de novo, visitá-la, num eterno looping. “A partir de então/ outros pormenores” – como dispara Aguirre – “cada vez maiores poupam-me/ a repetição me interesso pelos espaços/ pouca elocução/ não há intervalo exceto/ para a transpiração um gesto/ exausto de fome a /partir de então/ retorno”.

 

Com efeito, alçada à segunda epígrafe do livro, a fala em verso de Eunice de Souza segue reverberando, entre irônica e consonante, ao confessar: “Assim é. Embora eu o preferisse/ de outro jeito.” Isso porque o modus operandi da poeta e prosadora anglófona indiana compreende – conforme já assinalado por Luis Quintais (2018) – “[…] a experiência como o lugar de onde parte a poesia”, ocupando-se não da palavra em si, mas do “[…] que está no seu limite”, qual a “corda” de Valeska. Em miúdos: o que Eunice propõe como linha de força, e Aguirre encampa como sua, reside na consciência de que a linguagem se torna gasta – em decorrência de seu uso –, e deve, essencialmente, nos “transportar para dimensões quase insuspeitas da experiência” (QUINTAIS, 2018) que tanto concorrem no passar do tempo. É isso que permite “palavras sujas” entrevejam, por exemplo, que: “[o] céu da boca sangra. / O pulôver sangra água”, ou, ainda, inquirir: “Qual o número do quarto/ do homem então morando/ em alguma ladeira de um bairro/ com ladeiras e ruas tortas o número/ da porta então aberta por mão/ de mulher então aberta a porta/ nada se viu ruína de sonho/ passando janelas joelhos/ subindo a ladeira de então/ a chegada ao quarto/ número substitui um nome”.

 

Iniciar com uma simples pergunta, isentando-se de dar uma resposta, faz, na verdade, com que daquela se insurjam muitas outras desta, considerando o andamento de uma narrativa pouca nítida, similar ao universo onírico ou exercício de memória, que os versos de Valeska tão, enigmaticamente, aludem. O ritmo açodado, refletido na colocação contínua de palavra após palavra sem pontuação, descerra qualquer saída ou resolução, já que o segredo do quarto conhecido apenas pelo número 36 revela o mood poético, como memória que falha, e que também (per)dura, nos solavancos dos instantes, e à espera de algum sentido. “A ordem é uma falha/ minha memória é feita de papéis/ espalhados como pistas” e muito dela – expressa / expressão do “CADERNO DE ESCRITOS” – intercambia as nuanças do cotidiano com sua revisão e criação em versos. “Fiz separações/ uma parte reservei/ para o livro./ Faz três meses/ somente um poema foi escrito/ poema médio que foi descartado.”

 

Na poética de Aguirre, a escrita hesita e afina forma e conteúdo nos enclaves temporal e subjetivo, incensando o que é (ou que, talvez, nem o seja) de outrem, numa dicção de âmbito privado: “Trabalhar para não fragmentar/ foi o que disse Louise Bourgeois/ mas poderia ter sido minha mãe.// Não há memória do tempo/ apenas fragmentos/ de sensações/ gestos palavras avulsas/ de meu pai minha mãe minhas irmãs/ no corredor a pergunta/ cadê o batom? na mesa,/ não sabe fritar um ovo?/ minha mãe minha mãe / sabia muitas coisas/ trabalhar para não fragmentar/ herdei o fragmento escondido/ varizes coaguladoras/ agora já duas vezes repartida/ a cicatriz é uma só/ e permanente.” O registro de seguidas, porém, aleatórias lembranças perfila o fluxo do poema, cujo jogo de referências que se enfileiram – de célebres às familiares – dá o tom inexato e insubmisso a todo tipo de ordem, sendo a da memória só mais uma entre as muitas existentes e de igual relevância.

 

Seus atos narram uma trajetória breve, porém, aguda, mas não menos crítica e transgressora, e, por isso mesmo, balizada pela rarefação de fronteiras que demandam toda sorte de desdobramento / fragmentação: da linguagem, a justapor situações divergentes, a vozes que ecoam entre presentes e influentes, chegando ao que, não raro, se atribui como papel da mulher. Nesse particular, cumpre a posição de destaque que a poeta dá a Louise Bourgeois – em cuja obra, criação e vida se misturam e transigem com questões caras e comuns ao universo feminino. Para ela, a arte não deve pender para a autorreflexão, mas para o sentimento irrequieto e aturdido que habita cada um; nele, a (sobre)vivência do passado promove o efeito catártico, libertando de quaisquer amarras, traumas, imposições. Assim, na medida em que Aguirre ratifica sua ascendência estética em Bourgeois, ela se dispõe a infringir não apenas as divisas existentes entre vida e arte, mas os “atos de repetição” praticados, imperativamente, pelas mulheres ao longo do tempo.

 

REFERÊNCIAS

 

AGUIRRE, Valeska de. Atos de repetição. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006.

 

QUINTAIS, Luís. O mais importante é o resplendor _ notas sobre Eunice de Souza. Disponível em:<https://luisquintaisweb.wordpress.com/2018/07/02/o-mais-importante-e-o-resplendor_-notas-sobre-eunice-de-souza/>. Acesso em: 25 jun. 2025.

 

RICŒUR, Paul. Memória e Imaginação. In: _____. A memória, a história, o esquecimento. Trad. de Alain François [et. al.]. Campinas: Editora da Unicamp, 2007. p. 25-70.

Fotografia de Letícia Ferro

 Letícia Ferro é doutora em Estudos Literários (UFG). E-mail: let_ras@hotmail.com.

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