
DEBAIXO DOS ESCOMBROS
A poesia é a respiração intensa. É a capacidade de sustermos a respiração quando mergulhamos em águas densas. Só se respira livremente e sentimo-nos salvos no fim do poema. É assim comigo. Escrevo um poema como se entrasse num espaço reduzido e moldado pelo meu próprio pensamento. Não há margens por onde possa escapar. A escrita de poesia exige-me que mergulhe debaixo dos escombros emocionais e retire somente aquilo que irá representar o mundo que me propus interpretar. É como se tivesse de me alimentar com a minha própria fome. Eu nunca digo: vou escrever um poema. Como um suicida não revela: hoje é um bom dia para me suicidar. É-se convocado. O poema já existe, da mesma forma que o fim do suicida lhe está destinado. O acto poético consiste em procurar e descobrir o poema que já existe. Mas até para isso é preciso coragem.
O TEMPO
1.
Ainda defendo que o tempo não existe fora do domínio da vida e da permanência. Imagina uma caixa vazia e fechada. Que tempo poderá existir no seu interior se nada se identifica como coisa viva? Acreditas mesmo que o tempo entrou dentro da caixa para medir somente o vazio?
Agora faz a experiência: coloca uma flor ou um animal no fundo da caixa e aguarda os seus efeitos. Talvez ignores, mas o tempo também faz parte desse processo de isolamento que acabas de realizar. Assim temos o tempo como meio de acontecimento e transformação ligado aos seres vivos e às coisas.
2.
Se nada existe, que tempo poderá ocorrer sobre coisa nenhuma? Imagina ainda a caixa vazia e sem vida. Sabes agora que o tempo não se detém onde não existe forma de referenciar a sua passagem. Se não estamos num lugar, o tempo nesse lugar não existe. O tempo identifica-se na acção. Se o interior da caixa representa um não acontecimento, o tempo permanece apenas no seu exterior. Tens como prova o envelhecimento e a degradação que o tempo imprimiu à caixa ao longo da tua vida. Tempo é uma forma de dizermos modificação. Não há modificação se não houver elementos transitórios que se sujeitem à autoridade do tempo.
3.
Como quando alguém pensa sobre a sua vida passada: naquele tempo eu… Para essas pessoas o tempo é a memória da sua própria existência; e não é tanto o tempo que recordam, impreciso e ilusório, mas os acontecimentos marcantes que as acompanharam pela vida e as moldaram numa perspectiva de renovação. Esse tempo recordado pelas pessoas é um sinal do já vivido em confrontação com a actualidade das suas vidas.
Todo o ser é o transporte do tempo que sente viver.
4.
Tens a imagem imóvel de um muro de pedras em ruínas. Tudo o que possas pensar sobre o muro, desde a sua construção até ao aspecto degradado em que o muro se apresenta aos olhos de quem passa, já a ocupação do tempo pensou antecipadamente a sua destruição. O projecto muro já trazia definido pelo tempo a sua duração limitada. Sendo assim, o tempo é um provocador de efemeridades. Não existe em acto contínuo se alguma coisa ou alguém já não existe. Tens ainda a caixa na qual o tempo se recusa entrar por nada haver no seu interior que seja consumível. Então podes pensar: o tempo é a presença de todas as coisas humanas e materiais e não faz sentido identificá-lo onde nada existe.
5.
O tempo é um lugar de consciência. Para uma caixa vazia, o tempo é o objecto da nossa própria consciência. A exposição da caixa serve para analisarmos o modo como o tempo age em conformidade com aquilo que lhe apresentamos. A caixa vazia ou qualquer outro objecto colocado sob a observação dos teus próprios interesses é uma encenação do tempo. As manipulações que fazemos das coisas e da nossa própria vida é que nos dão a profundidade do tempo como uma ideia realizável.
O NADA
1.
O nada que se ocupa de nós é já um sinal que se realiza num determinado espaço da nossa consciência. Posso evocar a solidão, porque tem aqui o seu lugar: o nada solitário que nos vigia o pensamento. Mas se há pensamento sobre o irrealizável, que força sentimos para continuarmos a pensar sobre o nada? Com as palavras o cenário é o mesmo: se elas existem como instrumento de linguagem, porquê a dificuldade do sentido no acto de escrever ou falar? Será o nada que nos ocupa uma impossibilidade de pensarmo-nos utilizando as palavras como representação?
2.
Um problema de negação: a escrita nega o que o pensamento escreve. O nada que nos surge como escrita é um acto provisório. Neste caso, pensar o que se não deseja como escrita é alojar o tempo no nada que resultou do nosso pensamento. Escreve-se sempre sob o condicionalismo de duas versões: o nada que se agarra como uma pele ao pensamento experimental; e o pensamento que se liberta da experiência do nada para se transformar em escrita ideal. O nada múltiplo que se sente como escrita é uma opressão do pensamento que se recusa a interiorizar um sentido para as palavras. Será o próprio pensamento quando escrevemos um conflito da “palavra” que se não deixa escrever? Às vezes escreve-se como se entrássemos num elevador, pressionássemos o botão que indica o nada psicológico e não sentíssemos em que direcção estamos a ser transportados – se para baixo; se para cima –, prova absoluta de que o nosso pensamento também se perde na orientação do que está a ser estruturado.
A CADEIRA
1.
A linguagem dos objectos. A memória que existe neles. Gosto especialmente de escrever o objecto cadeira. Representar a imagem desse objecto num espaço amplo, vazio de qualquer outro sentido que não seja o pensamento objecto da cadeira. O pensamento já nos traz a forma que a palavra evoca. Escrever cadeira numa sala vazia é uma encenação do pensamento que traduz a imagem que se liberta da palavra. A escrita é uma oficina de imagens que se ligam entre elas. Escrevo cadeira e penso em objecto mesa. Não é uma obrigação. Não é uma condição rigorosa imposta pela palavra cadeira. Há cadeiras que não pertencem a nenhuma mesa. Esta cadeira que escrevo não existe debaixo de nenhuma mesa. Não penso em conjunto, mas de forma isolada, mínima.
2.
As palavras são desenhos que formam objectos. Isto é verdade para o caso da cadeira, como é verdade se a palavra fosse mesa. No pensamento que temos dos objectos, todos os desenhos são perfeitos. A perfeição é a forma nítida da imagem que o pensamento desenha na palavra escrita. Nunca se escreve cadeira na sua forma real, objectiva, isto é, ninguém escreve espaldar, assento, pés, quando simplesmente se refere a cadeira. Cadeira é já uma palavra sentada, ou a indicação disso mesmo. Como mesa é uma palavra rodeada por pessoas. Uma palavra no centro de alguma coisa. No campo das emoções as palavras não indicam objectos. Sobre este assunto é tudo mais invisual.
Sentimentos: palavras escondidas na consciência das imagens que se querem transmitir. Cada um sente os seus objectos emocionais. Mas é ainda verdade: a imagem cadeira pode estar inserida no sentimento medo. Por algum motivo particular da sua própria vida, alguém sente medo e a imagem cadeira surge sem que a palavra correspondente a esse objecto fosse evocada. Isto é um trabalho de encenação emocional.
3.
Temos alguém sentado numa cadeira. Está a ser interrogado. É agredido. A imagem cadeira é a memória de uma agressão. A palavra cadeira não pertence ao objecto confortável para o qual foi concretizada. O sentimento medo incorporou a funcionalidade do objecto cadeira. Neste caso, a cadeira é uma sensação. O pensamento cadeira tem um corpo sentado sujeito à tortura e não ao conforto. A palavra física da cadeira deu lugar ao sentimento de inquietude que esse objecto representa na consciência. Logo, a cadeira é um objecto de experiência e não apenas uma peça de utilidade humana, corporal.
Fernando Esteves Pinto nasceu em Cascais. Vive em Faro.
Publicou, entre outros, Na Escrita e no Rosto (poesia) – Prémio Inasset Revelação de Poesia do Centro Nacional de Cultura; Conversas Terminais (romance) – Bolsa de Criação Literária pelo Ministério da Cultura; Brutal (romance); O Carteiro de Fernando Pessoa (romance); A Caverna de Deus (romance) – Prémio Literário Cidade de Almada; Humanidade (poesia); Arte Humana (poesia); Coreografias da Linguagem (poesia); Fuga Intempestiva (poesia); Um Estudo do Humano (poesia); Um Homem Parado na Esquina do Mundo (romance) – Prémio Literário Alves Redol; A Força Única – Escrever (crónicas).










