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Acercamento ao canto de Maria Antonieta Tatagiba | Ester Abreu Vieira de Oliveira

Foto de Rafael Rodrigues na Unsplash

Resumo: Analisa os poemas de Maria Antonieta Tatagiba, principalmente na obra Frauta Agreste, destacando o caráter intertextual e os aspectos do neosimbolismo e do Parnasianismo, observados no soneto “O Riso” do parnasiano Raimundo Correia.

 

Palavras-chave: Literatura. Poesia. Maria Antonieta Tatagiba

 

Abstract: Analyses the poems of Maria Antonieta Tatagiba, mainly in the work Frauta Agreste, highlighting the intertextual character and the aspects of neosymbolism and Parnassianism, observed in the sonnet “O Riso” by the Parnassian Raimundo Correia.

 

Keywords: Literature. Poetry. Maria Antonieta Tatagiba 

 

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A escritora Maria Antonieta Tatagiba, filha de Maria Rita de Castro e de Artur Antunes Siqueira, nasceu em 17 de setembro, na Fazenda União, São Pedro Itabapoana ES, em 1895, e faleceu em 13 de março de 1928, nessa mesma cidade.

 

Foi colaboradora de jornais e revistas capixabas, professora e diretora de escola e dedicou-se intensamente à produção literária. Com a publicação de Frauta agreste, em 1927, ela se tornou a “Primeira Poeta Capixaba”.

 

Frente a uma realidade palpável, experimenta-se, ao ler os poemas de Antonieta, que eles têm uma meditação muito íntima. Em sua poética, ela interpreta a vida espiritual e moral de um Ser que se afirma na palavra.

 

Antonieta percebia o papel de submissão das mulheres. Em entrevista à revista Vida Capixaba, em 1925, ela aborda a sua visão sobre as percepções tradicionais para as mulheres:

 

A mulher é um manancial de nossa felicidade, é uma criatura quase divina, que não deve viver a não ser no ambiente puro da família, é um anjo, é uma deusa, é o sol de nossa vida. Tudo isso seria muito belo, agradaria à fantasia, entusiasmaria as almas sentimentais, mas não melhoraria a situação da mulher na sociedade [..].

 

Deixem que as mulheres lutem e trabalhem, nem todas se casam, nem todas possuem um lar, nem todas se acham ao abrigo das necessidades, a essas que provem a subsistência com o labor das próprias mãos, o nosso carinho e o nosso respeito, porque enobrecem, exaltam as virtudes e elevam a dignidade.

 

A importância literária de Maria Antonieta vem sendo destacada após a sua morte no caminho da imortalidade. Além de patrona da Cadeira 02 da Academia Feminina Espírito-santense de Letras é, ainda, da Cadeira 32, da Academia Espírito-santense de Letras. Também, seu nome consta, por decreto municipal, no nome de uma rua no bairro de Jucutuquara, Vitória, ES, e no do Clube Recreativo de Leitura do Grupo Escolar “Padre Anchieta”. Sua fama foi acrescida com decreto Estadual que considera o dia 13 de março, o Dia Estadual da Poetisa Capixaba, por ser o dia em que faleceu Maria Antonieta Tatagiba.

 

Os poemas de Antonieta são uma aula de formas poéticas. Em Frauta Agreste pode-se sentir o amor da autora pela natureza de seu rincão natalino e ecos de poetas brasileiros, famosos da primeira metade do século XIX, entre eles Vicente de Carvalho, citado na epígrafe do poema “Falando ao sol”. No soneto “O riso” nota-se o reflexo de tristeza e desilusão do poema “Mau Secreto”, de Raimundo Correia e, também na forma do soneto decassílabo, muito utilizado entre os poetas parnasianos. Os respectivos sonetos trazem a temática da hipocrisia, da falsidade, do fingir das aparências. Mas se pode verificar na obra de Maria Antonieta, ecos de outros escritores parnasianos: João Ribeiro, Francisca Júlia da Silva, Alberto Ribeiro, Fagundes Varela e, principalmente do parnasiano, com influência modernista, o chamado o Príncipe dos Poetas, Olavo Bilac.

 

O Parnasianismo é um movimento literário surgido no final do século XIX de influência francesa, com tradição clássica. Os poetas procuravam valorizar a paisagem nacional e o sentimentalismo, utilizar um vocabulário culto, os sonetos, bem como as rimas raras.

 

O escritor e critico literário Francisco Aurelio Ribeiro aponta a poesia de Maria Antonieta Tatagiba como pouco representativa do nascente modernismo e considera sua arte poética como bucólica, panteísta, neo-simbolista.

 

O Simbolismo também é um movimento surgido na França. Os poetas dessa escola procuravam resgatar os símbolos. Por meio da palavra buscavam obter uma conexão entre os mundos opostos: o espiritual e o material. Para alcançar esse objetivo se apoiavam em sinestesias, vocabulários etéreo, antíteses e paradoxos, usos de pausas, aliterações e musicalidades rítmicas. Essas características se encontram nas composições dos principais representantes no Brasil dessa Escola: Cruz e Souza e Alphonsus Guimarães.

 

No soneto “O riso” de Antonieta é aceitável apontar algumas das características da forma simbolista nos dois quartetos iniciais, por exemplo, na antítese; dor/prazer; aliterações: “vida, olvidar, vinho”; pausas, nas reticências, e no ritmo. Com esses dados ele poderia ser classificado como simbolista: “Bendito seja o riso que aos negrores/ Da vida, ao infeliz faz olvidar,/ Como o vinho, adormece as nossas dores,/ De quem sofre é conforto singular.// Disfarça o sentimento sob flores…/Padeces? Trazes na alma algum pesar?/Ri que o riso adormece as nossas dores/ E nele um lenitivo hás de encontrar […]

 

Se se apoia, em FrautaAgreste, nas duas estrofes iniciais do poema “À beira da mata”, pode-se detectar a musicalidade do poema, reticências, figuras de linguagem como sinestesia: “relva fina/doce”, “sol tépido/louro”:

 

Que suave frescor

Nesta relva tão fina… e quanto é doce

A sombra desta rama… e estas amoras

Nos galhos ainda em flor…

 E este céu qual se fosse

De tão azul, pintado há poucas horas… Somente o guizo de ouro

        Dos insetos, tinindo de alegria

         Na orla fresca do bosque se desata…           

         O sol tépido e louro

          Furando a ramaria,

         Cobre o chão de arabescos cor de prata” (Grifos nossos)

 

E em “igreja campesina”. Com esses dados revelam-se sentidos de simplicidade e cristianismo, com três qualidades opostas: “branca, singela, pequenina”. O poema está pleno de musicalidade. Há nele um sentido de mistério, solidão, velada tristeza, rigor formal, presença de reticências e exclamações. Por essas ressonâncias, pode-se aproximá-lo aos poemas dos escritores da Escola Simbolista, ou da poética dos seus dois representantes do Brasil: Alphonsus Guimarães e Cruz e Souza. Eis o poema:

 

         Pequena a Igreja, sem ornatos vãos, 

        Mas como esta pobreza se combina    

        À suave humildade dos cristãos!

         E assim branca, singela e pequenina 

        Ressumbra a mais suave poesia:

        Uma tristeza mística, divina,

         Cuja doçura as almas alivia…

         A Dor mais viva e atroz logo adormece 

         Ante este olhar tão santo de Maria… 

        Nesta paz que convida à cisma e à prece 

        Como a gente se sente bem – tão bem, 

        Que a própria vida o coração esquece… 

        As harmonias do órgão que retém 

      Nosso ouvido, nos fica a acalentar…

        E este aroma de incenso e de cecém 

        Que nos fala do céu, nos faz sonhar…

         Belos lírios de alvura imaculad

         E boninas do campo aos pés do altar… (p. 82)

 

Seguimos com a ideia de que o presente é dirigido pelo passado e esse é alterado pelo presente. Eliot declarou que toda obra nova está inserida em uma ordem simultânea com as precedentes. Há no novo um desejo de ultrapassar o cenário antigo. E são os antigos que formam os modernos. São os poetas mortos que afirmam a sua imortalidade na obra nova. Aqui se pode apoiar em Kristeva de que todo texto é uma leitura de outros textos e de que nenhum de nós será capaz de pensar uma única ideia. O único e primeiro criador é Deus, os demais são desvios do precursor e, claro, desviar só não basta é preciso acrescentar algo que este não pensou.

 

A intertextualidade ocorre em alguns poemas de Antonieta como em “Falando ao sol”, há ecos do “Hino da Bandeira do Brasil “ (p. 35); “A sesta de Nero” (p. 91) ecos de Petronio e Vinicius e “Leda” (2015, p 87) da mitologia grega e em “O riso”, como apontamos, ecos do soneto “O Riso” do parnasiano Raimundo Correia. Mas o sentido imagético e sugestivo que se sente em muitos poemas de Antonieta, a musicalidade dos versos, e palavras raras, descrições do crepúsculo com a presença de luz e sombra, e de uma certa interioridade humana e religiosidade, como por exemplo no poema “Igreja Campesina”, coloca Maria Antonieta Tatagiba, como nossa poeta simbolista encavalgada no Parnasianismo.

 

REFERÊNCIAS

 

FLEURY, Karina de Rezende Tavares. Alma de flor. Maria Antonieta Tatagiba: vida e obra. Vitória: Prefeitura de Vitória, 2007.

 

KRISTEVA, J.Introduçãoàsemanálise.São Paulo, SP: Perspectiva, 2012.

 

TATAGIBA, Maria Antonieta. Frauta agreste. Rio de Janeiro: Leite Ribeiro Freitas Bastos, 1927.

 

TATAGIBA, Maria Antonieta. O riso. In: FLEURY, Karina de Rezende Tavares. Alma de flor. Maria Antonieta Tatagiba: vida e obra. Vitória: Prefeitura de Vitória, 2007. p. 70.

Fotografia de Ester Abreu Vieira de Oliveira.

Ester Abreu Vieira de Oliveira, escritora, pertence à Academia Espírito-santense de Letras, Cadeira 27, (presidente atual 2025 e desde 2019), à Academia Feminina Espírito-santense de Letras, Cadeira 31, (presidente em 5 gestões), à Academia de Letras do Brasil, à Academia de Letras Poetas eTrovadores, e como correspondente a Academia de Letras de Castelo (ES), ao Instituto Histórico, Geográfico do Espírito Santo, à Associação de Professores de Espanhol do Espírito Santo (Membro fundador e presidente em 5 gestões), à Associação Brasileira de Hispanistas, à Asociación Internacional de Hispanistas, à Asociación de Lengua e AITENSO e a setores culturais. 

 

Membro do corpo editorial de revistas, Escreveu livros de ensaios e didáticos, infantil bilíngue (3), de crônica e poesia, traduções e vários artigos em revista, antologias e jornais impressos e on line. Tem trabalhos publicados (impressos, on-line e CDs) em revistas especializadas, jornais e anais de congressos com temas referentes às línguas e literaturas: espanhola e brasileira.

Tese doutoral: “O mito de Don Juan e suas relações com Eros e Tanatos”. Pos doutoral: “Para una lectura del teatro actual: Estudio de PANIC de Alfonso Vallejo”.

 

Participou como representante de instituição em comissões culturais estaduais e municipais Representou as instituições a que pertence em reuniões, congressos, seminários no Estado e em outros da Federação Brasileira e no exterior de forma presencial e online. Fez entrevistas, e algumas se encontram  registradas no Youtube. Recebeu o título de Professora Emérita da Ufes, o de Cidadã Vitoriense, a Comenda Rubem Braga da ALES, a de Kosciuszko Barbosa Leão da AEL, a de Mauricio de Oliveira da PMV, e Avárias homenagens, medalhas e prêmios por atuação como escritora e profissional, seu nome foi designado como título em eventos, e inclusive dá nome ao prédio do Núcleo de Língua da Ufes e o nome do Encontro de Estudos Literários da Academia Maria Antonieta Tatagiba.

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