
Uma das características do poeta Mario Quintana é sua imersão no ambiente a partir de um centro urbano. O poeta, isolado em sua morada, olha pela janela e sente-se parte da natureza. Um processo poético que nunca o abandonou de todo, mesmo em sua fase mais modernista/surrealista, a entrega total do seu ser poético ao que o cerca, tanto as pequenas ruas de arrabalde – parece ser este o ponto privilegiado de onde observa o mundo –, quanto a natureza que vê através de sua janela. Duas características psicológicas sobressaem-se neste olhar: o isolamento, e a imersão. O isolamento é a situação do poeta, que parece deslocado e sozinho diante do mundo e da sociedade; a imersão é a entrega total do seu espírito ao que o cerca. Essa é a maneira que consegue, através da arte, de entregar-se totalmente ao mundo, de sentir-se parte dele. Não é uma imersão que o despersonalize, pois o poeta não se dilui no todo, mas a circunstância é que adquire a personalidade do poeta. Com sua arte poética introjeta o mundo, humaniza-o e o devolve em magistral lirismo. Vale apena lermos o soneto n° 1 do seu primeiro livro, A rua dos cataventos1, (1940), p. 19:
Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!… E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!
Não sei que paisagem doidivanas
Mistura os tons…acerta… desacerta…
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas…
Jogos de luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço…
Pra que pensar? Também sou da paisagem…
Vago, solúvel no ar, fico sonhando…
E me transmuto…iriso-me… estremeço…
Nos leves dedos que me vão pintando!
O escrever diante da janela aberta já nos coloca no ponto de vista do poeta. Não está em meio à natureza, num bosque ou jardim. Mas olha o mundo desde um mirante afastado, que o separa e o isola. Mesmo que o sentimento, sua vontade, seja o pertencimento. O Eu poético começa a trabalhar para envolver o escritor no ambiente: “Minha caneta é cor das venezianas: / Verde!”. O seu objeto de trabalho, por onde fluem os versos depois de passarem por sua “mão avaramente adunca”, do soneto XVII, p. 35, adquire a cor das árvores vistas através da janela aberta. A caneta, sendo verde, participa da natureza e propicia o rito da imersão no todo. Ele não está mais Só (lembro do seu poeta admirado, Antônio Nobre, (1867-1900); ver o soneto XI em sua homenagem, p. 29 –, faz parte de um ser maior que faz girar com o movimento de sua caneta, transformada agora num pincel de aquarela.
Falando sobre o isolamento do poeta e sobre a admiração que tinha de Antônio Nobre, diz a professora Tânia Franco Carvalhal, na apresentação do livro de sonetos de Quintana: “O isolamento expresso na caracterização mascarada se coaduna com o que manifesta no soneto XI, no qual homenageia o poeta português Antônio Nobre, uma de suas grandes afinidades poéticas. Ali ele é ‘o triste, O Doido, O Pobrezinho’, um menino de infância triste, que aprendeu, como diz, ‘a sofrer devagarinho’. Explica-se, então, como a representação obtida nos primeiros sonetos corresponde a uma concepção romântica, à do poeta que sofre, que se situa à margem da sociedade.” (pp.10-11).
No primeiro soneto, porém, não encontramos só o sentimento de exclusão, mas também a sublimação que o leva a sentir-se parte de tudo – não mais separado, à margem, mas incluído através da dissolução do eu na paisagem.
O poeta feito pintor escolhe as tintas do seu quadro: “Jogos de luz dançando na folhagem! / Do que eu ia escrever até me esqueço… / Pra que pensar? Também sou da paisagem…” (p.19). Como afirma a professora Tânia Franco Carvalhal: “Simultaneamente esse poeta é pintor: para escrever usa uma caneta verde com o que colore o que vê, integrando tudo à paisagem, inclusive ele mesmo.” (p.11).
O poeta com sua caneta e o pintor com seu pincel estruturam – cada qual à sua maneira, porém com muitos pontos de contato –, a obra que consuma criador e criatura numa mesma apoteose: a capacidade do artista de sair do seu eu particular para mergulhar numa realidade maior, a natureza, a sociedade, o mundo. Só assim o poeta não está mais sozinho.
No último terceto do soneto evidencia-se a dupla sensação alcançada pelo poeta, ao mesmo tempo a de imersão que dilui, e a da concretização de si mesmo que o sedimenta através da paleta do pintor: “Vago, solúvel no ar, fico sonhando… / E me transmuto… Iriso-me… estremeço… / Nos leves dedos que me vão pintando!”.
Transmuta-se o ser isolado, “solúvel”, num outro ente, participante, mesmo que a custa de ser pintado por outro artista, um demiurgo que se confunde consigo mesmo. São de quem os dedos que o vão pintando? Criador e criatura são, enfim, uma unidade.
No soneto III, p. 21, essa entrega ao momento de total imersão na paisagem também existe, só que o poeta põe limites, como se dissesse ao “Senhor” citado no segundo verso do primeiro terceto: “Quase que eu saio voando céu em fora! / Evitemos, Senhor, esse prodígio… / As famílias o que haviam de dizer?” O poeta apesar de procurar a ligação com o mundo através da diluição de si mesmo, não deixa o processo ser completo, pois resguarda seu pudor e intimidade, sua individuação; no segundo terceto: “Nenhum milagre é permitido agora… / E lá se iria o resto de prestígio / Que no meu bairro eu inda possa ter!… O poeta não se entrega totalmente, pois sabe que na verdade o autor é ele mesmo, o próprio demiurgo.
O domínio da narrativa fica evidente nos dois tercetos do soneto IV, p. 22: “Por que viver assim num outro plano? / Entremos no bulício quotidiano… / O ritmo da vida nos convida. // Vem! Vamos cair na multidão! / Não é poesia socialista… Não, / Meu pobre anjo… É simplesmente… a Vida!”.
Da janela aberta da ruazinha de arrabalde finalmente o poeta sente-se integrado à multidão, sendo a parte e o todo, indivíduo e sociedade. O que fica bem evidente no famoso e controverso soneto V, p. 23; por ser um dos mais importantes do livro, vamos lê-lo em sua íntegra:
Eu nada entendo da questão social.
Eu faço parte dela, simplesmente…
E sei apenas do meu próprio mal,
Que não é bem o mal de toda a gente,
Nem é deste planeta… Por sinal
Que o mundo lhe é indiferente!
E o meu Anjo da Guarda, ele somente,
É quem lê os meus versos afinal…
E enquanto o mundo em torno se esbarronda,
Vivo regendo estranhas contradanças
No meu vago país da Trebizonda…
Entre os Loucos, os Mortos, e as Crianças,
É lá que eu canto, numa eterna ronda,
Nossos comuns desejos e esperanças!…
Tido como um soneto de evasão explícita, de negação ao mundo em sua integralidade, há nos dois primeiros versos do primeiro quarteto uma contradição. Primeiro afirma que não “entende da questão social”, mostrando indiferença, mas no verso seguinte diz que “faz parte dela, simplesmente…”; significando que não está fora do mundo como muitos interpretam, mas imerso nele. O segundo verso nega, ou complementa o primeiro? Opto pela complementação de sentido; o poeta não está excluído do mundo, mas de certo grupo social a que não lhe interessa pertencer. No segundo terceto mostra toda a empatia com os desvalidos, “Entre os Loucos, os Mortos e as Crianças… / É lá que eu canto, numa eterna ronda, / Nossos comuns desejos e esperanças!…”
Podemos interpretar o soneto não como negação à sociedade, mas como entrega de amor aos menos favorecidos. Fique bem claro, não quero dizer que o poeta tivesse total consciência disso, ou que tal afirmação o tornasse militante de causas políticas e sociais – todos sabemos que Mario Quintana não fazia parte de nenhum partido ou movimento político; o que transparece no texto de forma menos implícita, mas não menos importante, é o amor do poeta pelos postos à margem da sociedade, seu afeto pelos abandonados, os desesperançados, “Os Loucos, as Crianças”, aqueles que não têm nenhuma ingerência no caminho do grande mundo – feito à revelia deles e dos poetas.
Mario Quintana abre a janela do seu quarto, na ruazinha de arrabalde, na velha cidade que não existe mais. Rememora seu tempo de infância, os brinquedos perdidos, os amigos mortos, mas é também através dessa janela que o poeta descortina o mundo e mergulha nele. É sua forma de – como se diz hoje –, interagir com os outros. O resultado dessa imersão na natureza e na “multidão” é uma grande poesia sentimental, lírica, original. Mesmo que sua poesia modernista e surrealista tenha ido para outros caminhos, as raízes românticas e simbolistas dos seus primeiros livros não podem ser negadas por serem evidentes; não se deveria, no entanto, contestar a vertente humanista dessa grande poesia que continua a encantar ainda hoje os seus leitores.
Notas
- QUINTANA, Mario, A rua dos cataventos; Editora Globo S.A., São Paulo, 1994.
José Eduardo Degrazia
José Eduardo Degrazia nasceu em Porto Alegre em 1951. Médico oftalmologista, atualmente aposentado. Publicou 40 livros de contos, poesia, romance, teatro e infantojuvenil. Tradutor de espanhol e do italiano, publicou 14 livros, entre eles, sete de Pablo Neruda. Colabora em jornais e revistas com crônicas e ensaios. Principais Prêmios Recebidos: prêmio Biênio da Colonização e Imigração, com Lavra Permanente, 1974; prêmio de teatro do SNT com a peça A casa dos impossíveis, 1975; finalista do Prêmio de contos Nestlé de Literatura, de 1996, com “O atleta recordista”; finalista do Prêmio Açorianos com Os Leões Selvagens de Tanganica, 2003; prêmio O Sul de Melhor Tradução com livro de Pablo Neruda, 2006; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de Escritores com o romance O Reino de Macambira; prêmio e Livro do Ano da Associação Gaúcha de escritores com os minicontos de Deus Não Protege os Certinhos, 2021; prêmio Mihai Eminescu da Academia Internacional da Romênia para obra em Prosa, 2012; prêmio Internacional de Poesia de Trieste, 2013; prêmio de Poesia da União dos Escritores da Moldávia, 2015; prêmio de Tradução da Associação de Editores da Romênia, 2016; prêmio Karamanov da Macedônia do Norte, 2022.










