
Poesia de Isabel Gonçalves
Subsequente ensaio de leitura
escrito com o apoio de Perplexity AI
O encantamento da palavra
A poesia
ensina
que a fala
não é só mensagem,
utilitária expressão,
mas também
tem música:
há sons
dentro das palavras,
que cantam
como rouxinóis.
*
Brilhante,
o fascínio
nasce
como o enamoramento:
na subtil presença/ausência
das saudades do futuro,
sem saber porquê.
*
As palavras
têm borboletas,
raízes
em estádios
anteriores
com potencial
de transformação,
e Asas
que voam
entre portais,
deixando sementes
que florescem
noutros locais.
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Se o nosso texto
não dançar
com as palavras,
como vamos exprimir
a natureza
orgânica
do mundo?
*
Desta forma,
A Grande História
de Thomas
Berry
pode nascer,
do cinzento
das pedras
e do verde
das palavras,
mil pássaros
voando,
de todas as cores.
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Historiando
brincando
ao futuro,
onde o dinheiro
é uma coisa
como plasticina
e vai ajudar
o mundo
a fazer mais
sentido.
*
E bolas de sabão
para ensinar
a magia
de todos
darmos
as mãos.
*
Darmos
as mãos
em roda,
e em coro
cantarmos,
dançando,
a própria
Terra.
Depois,
no agora,
vamos descansar
a ver o mar:
o oceano
a dançar,
marulhando
a cantar.
*
Neste descanso
fecundo
mergulhamos
no mar
profundo.
*
Na praia
interior
as ondas
lambem
a areia
em memórias
de astronautas
de regresso,
mirando
o planeta
vogando,
*
De infinito
impregnado,
o silêncio fala:
Francisco
nos chama
à Casa Comum.
A música invisível do mundo
Ensaio de leitura sobre o poema O encantamento da palavra, de Isabel Gonçalves, escrito com o apoio de Perplexity AI.
Há textos que não nascem de uma intenção de explicar, mas de um encantamento. Um encontro com a palavra enquanto matéria viva, onde a linguagem deixa de ser instrumento e se torna experiência. É desse lugar — que poderíamos chamar o encantamento da palavra — que emerge uma forma de pensar que não separa sentir, imaginar e compreender.
A poesia começa onde a linguagem deixa de obedecer. Não à gramática, mas à redução. Quando a fala se liberta da sua função utilitária, deixa de ser apenas veículo de mensagem e torna-se lugar de presença. Nesse espaço, as palavras deixam de ser instrumentos e passam a ser organismos vivos, atravessados por respiração, ritmo e memória.
Há sons dentro das palavras. Não apenas fonemas, mas vibrações subtis que transportam uma inteligência sensível. Quando escutadas com atenção, as palavras deixam de significar apenas — começam a cantar. E nesse canto, algo em nós reconhece uma pertença antiga, quase esquecida.
Talvez seja isso que chamamos fascínio: o encontro com algo que ainda não aconteceu, mas que já nos habita. Não uma memória do passado, mas uma saudade do futuro. Uma intuição de inteireza que se insinua na linguagem antes mesmo de ganhar forma no mundo.
A modernidade ensinou-nos a falar com precisão, mas desaprendeu a escutar com profundidade. Ao transformar a linguagem em ferramenta, empobreceu a nossa relação com o real. O mundo deixou de ser um campo de relações vivas para se tornar um conjunto de objetos manipuláveis. Onde antes havia canto, instalou-se o cálculo. Onde havia presença, surgiu a abstração.
Esta transformação não é apenas cultural — é ontológica. Afeta a forma como existimos. Ao perdermos uma linguagem capaz de dançar, perdemos também a capacidade de reconhecer a natureza orgânica do mundo. E, com isso, fragiliza-se o próprio sentido de pertença.
É por isso que a crise ecológica não pode ser compreendida apenas como um problema técnico ou político. Trata-se, antes, de uma crise de imaginação e de linguagem. Já não sabemos contar a história que nos liga à Terra.
Thomas Berry compreendeu isso ao propor a necessidade de uma “Grande História”: uma narrativa capaz de reintegrar o humano no processo vivo do cosmos. Mas essa história não pode ser apenas explicada — precisa de ser sentida, encarnada, celebrada. Precisa de uma linguagem que não descreva o mundo à distância, mas que participe nele.
Uma linguagem que dança.
Dançar não é aqui metáfora, mas forma de conhecimento. O corpo que dança não observa o mundo — entra em relação com ele. O mesmo acontece com a palavra poética: não representa, envolve. Não separa sujeito e objeto, mas dissolve essa fronteira.
Quando o texto dança com as palavras, abre-se um campo onde razão, sensibilidade e imaginação deixam de competir e começam a cooperar. É nesse espaço que novas formas de habitar o mundo podem emergir.
Imaginar o dinheiro como plasticina — moldável, reconfigurável, ao serviço do sentido — não é ingenuidade, mas visão. Revela que aquilo que tomamos como fixo é, afinal, construção humana. Tal como a linguagem, também as estruturas económicas podem ser recriadas.
O brincar, então, deixa de ser um gesto infantil e torna-se método. Brincar ao futuro é ensaiar possibilidades. É experimentar formas de vida que ainda não existem plenamente, mas que já se anunciam como necessárias.
Dar as mãos, cantar em roda, dançar a Terra — são gestos simples, mas fundadores. Restituem ao humano a experiência direta de comunidade. Relembram que existir não é isolar-se, mas participar numa trama viva de interdependências.
E depois, inevitavelmente, chega o silêncio.
Mas não um silêncio vazio — um silêncio fecundo. Um silêncio impregnado de presença. Um silêncio que não interrompe a linguagem, mas a aprofunda. Como o silêncio do espaço, onde a Terra surge suspensa: inteira, frágil, luminosa.
Há quem, ao contemplá-la de fora, experimente uma transformação irreversível. Como se, por um instante, fosse possível ver com outros olhos — olhos que não separam, mas integram.
É nesse silêncio, expandido pelo infinito, que uma voz pode ser escutada.
Não como som exterior, mas como ressonância interior. Uma voz que não pertence apenas a uma figura, mas a uma consciência que atravessa o humano quando este se reconhece parte da Casa Comum. Uma voz que recorda, sem impor, que habitar a Terra é um gesto ético, sensível e partilhado.
Talvez esse seja o movimento mais profundo que nasce do encantamento da palavra: a passagem de uma linguagem que descreve para uma linguagem que transforma; de uma fala que separa para uma escuta que reconecta.
Escutar a música invisível do mundo é reaprender a habitar.
E talvez, nesse gesto simples e radical, reencontrar o caminho — não para um lugar novo, mas para uma forma mais inteira de estar onde sempre estivemos.
Isabel Gonçalves: Poeta e autora de poesia regeneradora, licenciada em Gestão de Recursos Humanos e Psicologia do Trabalho e pós-graduada em Desenvolvimento Sustentável, coordena o Clube UNESCO Livraria + Kairos.
Escreveu livros como “Economia Circular Integral 5.0”, “Cadernos de Shambala”, “Lado B”, “Kairos: O Coração do Tempo”, “O Tricô da Liberdade” sendo o último, “O Encantamento da Palavra”. Os seus desenhos, abstratos e livres, entrelaçam-se com a sua poesia, entre contemplação, intuição, ética e cuidado com a Terra.










