Poesia & Conto

Infusão de energia cósmica | José Manuel Simões

Foto de Sven Piper na Unsplash

Fernando Marcelo, que o tinha visto de passagem na quinzena de folga da plataforma de petróleo onde trabalhava na Bacia de Campos, estado do Rio de Janeiro, antes e depois de ter ido a Belo Horizonte, como se sentisse o processo pelo qual o amigo passava, escreveu-lhe: “Pois é meu irmão. Me sentei para escrever algo para o jornal, mas não saiu. Aí saquei que eras tu me atentando aí da plataforma e resolvi colocar alguma coisa no papel, em forma de reflexões momentâneas. Imagino como deve ser duro para você ficar ilhado nessa merda aí. Você, com esse pique todo de estrada – e ainda por cima rodeado de imbecis e paranóicos por todos os lados, salvo algumas exceções – deve estar a passar um mau bocado. 

 

Vai aí um toque metafísico para você se proteger. Todo o dia de manhã, ao se levantar, quando estiver pronto para trabalhar, sente-se por cinco minutos e fecha os olhos. Respire profundamente por três vezes, percebendo a infusão de energia cósmica por todo o seu ser. Feito isso, visualize, sinta e vivencie uma luz dourada em volta do seu corpo, como se fosse uma armadura. Para finalizar, agradece o fato de estar protegido por aquele dia e pode ir trabalhar, que estará garantido. Agora, é preciso força interior, e isso eu sei que você tem. 

 

Tem um lado interessante nesta transação de você embarcar. Te fornece equilíbrio. Se você vivesse 30 dias por mês enlouquecido na estrada, se tornaria um desajustado. Se bem que hoje em dia ser um desajustado é ótimo. Mas falo dum papo de sobrevivência. Desajustado é discriminado e ser discriminado acarreta muitas dificuldades. Se estivesse sempre viajando, seria diferente. Quando a pessoa está viajando, ela está automaticamente e interiormente assumindo as possibilidades da vida. E isso aguça o inconsciente que sempre socorre na hora H. É isso aí. De repente, quando você está mais fodido e achando que não tem mais jeito, pinta a solução sempre surpreendente. É quando você descobre que não é um verme perdido no universo. Já aconteceu isso comigo também. Temos muito a ver um com o outro, cara. Pique. Energia. Sintonia. Vamos ver se a gente consegue fazer uma viagem por aí ainda este ano. Ando precisando de um pouco de asfalto na veia. Conhecer uns brotos, recitar umas poesias. Sacudir o ser. 

 

Em relação à Vera, que sei estar a habitar demais os seus pensamentos, mando aí algumas sugestões para você pensar e, eventualmente, optar: vai fundo, meu irmão, que o que vale é o amor; larga isso, rapaz, vai-te tirar da estrada e você pode capotar; cole com ela. Você não vai esperar que acabe o amor pra curtir alguma coisa com ela, não é?; case não, que você vai acabar assumindo o carma dela; sempre que puder, pense nela e faça zilhões de poesias; esqueça que não dá futuro. 

 

É o mesmo drama pelo qual tenho passado. Esquecer ou não esquecer, eis a aporrinhação. É que a cabeça não acompanha o coração, gerando contradições terríveis. Viva a contradição Viva a zorra Viva o amor e a dor que dele advir Se tiver que doer Que doa com amor Se tiver que morrer Que morra amante. Doravante será assim. Abraços petrolíferos e suficientemente marítimos. P.S. – Espero que nenhum escroto abra a correspondência antes dela chegar a ti. Mas se abrir, espero pelo menos que capte alguma coisa do que escrevi”. 

 

Na quinzena de folga seguinte, DuArte retornou a Minas Gerais, conheceu uma tia do Paulinho Moraes, de Macaé, onde ficou hospedado, recomendando-lhe que fosse a Diamantina comprar diamantes, que tinha lá uma irmã que lhe daria as indicações necessárias. Sugeriu-lhe que fosse com a empregada, a Sónia, com quem fez amor no autocarro, cobertos com um lençol branco que ela tinha na mochila. 

 

Em Diamantina encontraram-se com a dona Elídia, pessoa culta e de extrema simpatia. Numa das paredes da sala pousava um poema de T. S. Elliot que dizia mais ou menos assim e que memorizou na hora: “When the moon rises in the heart of the heaven, and a light breeze touches the mirror face of the lake, that’s a moment pure joy. But few are they who are aware of it”. 

 

Nas minas, encontrou Sebastião, familiar de dona Elídia, que lhe mostrou o garimpo e o polidor de diamantes, com os quais conseguiu um produto de alta qualidade. 

 

Mr. Maurice ficou visivelmente encantado e, para surpresa de Kadafi, disse-lhe que o preço era muito bom. Como tinha cobrado o triplo do valor a que tinha comprado, ficou surpreendido, mas disse-lhe que não iria lá mais, pois era demasiado longe e não aguentava fazer 50 horas de viagem para voltar a Diamantina. Na verdade, tinha receio de ser flagrado na revista a que todos os empregados da plataforma estavam sujeitos antes de apanharem a catamarã ou o helicóptero. 

 

Nessa quinzena, aconteceu mais uma tragédia. Uma das plataformas mais próximas da 69, a PCE-1, conhecida como a Anchova, pegou fogo e ficou a arder por 20 dias consecutivos. Um fumo preto e espesso cobria o céu e até os costumeiros rios de óleo pegaram fogo, provocando, igualmente, uma tragédia ecológica. Ficou visivelmente impressionado, sobretudo ao ver o mar literalmente em fogo, pelo receio de que as chamas se aproximassem e pela plataforma vizinha a definhar gradualmente. Um colega da área da limpeza, o Kalixto, trouxe-lhe um escrito com a sua visão do acontecimento: “A rainha morreu. A maior plataforma da Bacia de Campos está em chamas. Uma grande labareda de fogo ilumina o mar, levantando consigo uma nuvem espessa de fumaça. Os rebocadores jogam água, mas a força do fogo é maior. Os homens vão ficando apavorados. É o medo. Ali, de frente aos nossos olhos, a rainha falece em chamas. Caindo aos poucos. Antes rainha do mar, hoje não mais que cinza, que resto, que fumaça. E tudo isto pelo poder, pela rebeldia, pelo ouro, pelo petróleo, pela ganância, pela grana, pela fama. Cavaram. Abriram um buraco no oceano. Agora segurem seu vómito, seu sopro, seu grito. E tudo é cinza. E aquele império que consagrava a produção, aquela deusa do mar, faleceu; o mar a comeu, a engoliu. A vergonha vem à tona. Vergonha por ser mais um dos colaboradores a destruir, a acabar com o meio ambiente. Vergonha de fazer a própria armadilha, o próprio túmulo. E será que a licença ao menos ensinou alguma coisa? Até quando esta briga vai durar? O homem, o petróleo, o amor à vida. A rainha morreu”.

 

Certa noite acordou com um estranho pressentimento. Em cuecas, subiu até ao primeiro andar e daí até ao heliporto, onde se deparou com o inesperado: do lado oeste da rig floor umas chamas irradiavam do mar, a noite estrelada, o céu como que mais perto da terra, o vento norte a soprar intenso, as chamas a poucos metros.

 

Correu para informar e pedir socorro a Mr. Robert que estava a liderar a plataforma nessa noite. “Não se preocupe; o vento está prestes a mudar de direção. Subiu de novo até bombordo para se certificar de que o que o chefe dizia era verdade e, para seu espanto, o vento já soprava para estibordo.

 

Foi de folga e decidiu voltar a Belo Horizonte, sobretudo para ver Vera, de quem, afinal, não se tinha conseguido desvincular, que o recebeu com um misto de desinteresse e curiosidade. Saíram juntos, beijaram-se copiosamente na Rua do Amendoim enquanto o carro, desengatado, andava de marcha à ré. Vera explicou que a causa era um forte magnetismo. Subiram até Mangabeiras, de onde avistaram a cidade lá ao fundo, envolta num espesso manto de poluição. 

 

Foi dormir sozinho num hotel, aborrecido por mais uma vez ela não o acompanhar. A filha, a Lurdes, sete anos, aguardava-a, afirmou, resoluta, que tinha que voltar para casa. No dia seguinte discutiram. Ela achava que estava “a entrar numa furada”, que ele só se encontrava ali de passagem e que não era certo envolver-se em algo de muito sério. Voltou a ficar confuso; decidiu que tinha que esquecê-la. Definitivamente.

 

José Manuel Simões

 

Fotografia de José Manuel Simões

 

José Manuel Simões é Professor Associado e Coordenador do Departamento de ‘Communication and Media’ da Universidade de São José, Macau-China. Tem um pós-doutoramento em Ciências da Comunicação pela Universidade Católica Portuguesa, doutoramento em ‘Global Studies’ na Universidade de São José e Mestrado em Comunicação e Jornalismo na Universidade de Coimbra. É especialista em assuntos do Brasil, país sobre o qual já publicou três livros, dezenas de artigos académicos e centenas de artigos jornalísticos. 

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