Cultura

E ele? (devolutiva – só de texto) | Letícia Ferro

Foto de Megs Harrison na Unsplash

“Não podia confiar nele. Tinha se atrasado um ano para o nosso primeiro encontro. Então, quando ele foi embo-ra, pedi que deixasse um objeto como ‘refém’, para eu ter certeza de que voltaria”.

 

Sophie Calle, em Histórias reais, p. 53; grifo da autora.

“mas e o coração? alguém me pergunta

você consegue ouvir daqui?”

Marília Garcia, em Expedição: nebulosa, p. 80.

Letícia Ferro*

ERA SÓ UMA PASTA, DE MATERIAL ENTRE FOSCO E TRANSPARENTE, que (a)guardava manuscritos e datiloscritos de poemas dele: alguns tornados públicos em antologias; outros, não. Escavá-los foi uma forma programática de lê-lo (“o poeta é um fingidor”?) no presente através do passado. (Uma confidência: a expressão “através de” emprega-se, aqui, com intencionalidade, no lugar de “por meio de”, pois a ideia de instrumento figura insuficiente, sendo que o que foi realizado foi uma leitura de movimento, ou seja, uma leitura “por dentro de”, apesar de os segredos, em sua maioria, terem sido preservados). A relação, com amor, se mede, à sua forma de escrita. Essa, sim, na íntegra, por demais, verdadeira. Não, não era só uma pasta. Adendo: os vocábulos por ele escolhidos, embora não encontrassem o nome de Sophia, no espaço do destinatário, eram apanhados por ela, e para ela. Arrolava tal apropriação ao impiedoso e descompassado sentimento que tinha ‒ tempo. Preferia pensar assim, malgrado, ele, o tempo, também açoitasse os dois. Ela, pouco mais, com um arrependimento súbito; e ele a tentando, com prosa entrecortada, com razão esvaziada. “Até o encontrar para devolver-lhe a pasta” (e todo o restante), pensava Sophia, com estabilidade análoga a de um risco n’água. A matéria da pasta ‒ expedição: nebulosa.

 

O imaginado, em que pe(n)se, jamais esperado, não adveio. Se nem uma coisa nem outra, rememorá-lo descerrando sorriso, entre tímido e desejoso, a convenceria de que é da afetuosidade impossível a sua forma de olhar ‒ para ter de volta a intimidade em forma de objeto ambíguo, com elástico e ponteiras metálicas gastas pelo acumulado dos dias, da falta, da espera. Eram passado. De então para cá, justificativas não muito variáveis em número, e, sim, em demanda. De estirão. Eram passado? Ancorado na interrogação de sinais, ela qual se perguntava, em suspeição, por entre os beijos do ano anterior e os abraços e toques de agora, no instante do “resgate”, a serem retribuídos com a revelação fotográfica de Les Amoureux du banc public, de Édouard Boubat.

 

A identificação afrancesada do prenome do fotógrafo francês com o segundo nome dele era coincidência poética, por entre os desvãos do carinho sentido e, em alguma medida, recíproco ‒ apesar de proibido. (“Medo bobo”?) Devolver-lhe o objeto que os unia de alguma forma era sismógrafo de partida obrigatória. Ele adiava. Ela, também. Até a terceirização do envio por serviço postal, com malogro, cogitou. Ao que ele parecia resistir, ela hesitava, por mais que soubesse que não tardaria considerar natimorto o que dentro do coração havia feito morada. Seguiu, assim, habitando um de seus poemas, como locatária, jamais como proprietária. Ao fim e ao cabo, a devolução da pasta daria à Sophia uma única resposta às inúmeras perguntas suas, não a permitindo estar a reboque de nada, tampouco, de ninguém, por mais terna de ideia que pudesse estar vazada, a verdade é que ele não a deixaria de a depor.

A pasta, apenas ela, foi entregue.

REFERÊNCIAS

CALLE, Sophie. Histórias reais. Trad. de Marília Garcia. Belo Horizonte: Relicário, 2025.

GARCIA, Marília. Expedição: nebulosa. São Paulo: Companhia das Letras, 2023.

 

Fotografia de Letícia Ferro

Letícia Ferro éDoutora em Letras e Linguística (UFG). E-mail para contato: let_ras@hotmail.com.

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