Cultura

O lambe-botas | Silvia Quinteiro

Foto de Yap na Unsplash

Nasceu igual a tantas outras crianças, sem sinal que o distinguisse das demais.

 

Porém, ainda muito cedo, instalou-se-lhe no rosto uma particularidade difícil de ignorar. As bochechas foram-se tornando cada vez mais volumosas, tensas e brilhantes, como se a pele estivesse permanentemente à beira de ceder. Os lábios, empurrados para a frente por uma pressão invisível, cerravam-se num esforço contínuo.

 

Até que, um dia, a carne excedeu a boca e o segredo oculto revelou-se por inteiro.

 

Desfigurado e estranho, Crispim tornou-se alvo de troça na cidade. Responder estava fora de questão, pois ao mais pequeno relaxamento do maxilar, a língua desprendia-se da boca e caía, pendurada e desobediente, arrancando à rua uma risota cruel.

 

As alcunhas multiplicavam-se: Camaleão, Língua de Vaca, Papa-Moscas… E a língua continuava a crescer, ao ponto de se arrastar pelo chão, lambendo tudo o que encontrava.

 

Seguindo a máxima da avó, que lhe repetia que “quando Deus fecha uma porta abre uma janela”, fez sua missão extrair proveito do duvidoso atributo que lhe fora  concedido.

 

E daí até abraçar o promissor ofício de lambe-botas foi um saltinho. Aprimorou a arte. O essencial, percebeu, era gravitar, tanto quanto possível, em redor das botas certas. Pendesse a indomesticada língua para a esquerda ou para a direita, acabaria sempre por acertar em couro suficientemente poderoso para merecer uma boa engraxadela.

 

E assim, à custa do avantajado órgão, foi caindo em graças suficientes para terminar os estudos e ir erguendo, com esforço e alguma astúcia, uma carreira. Tivesse o talento a dimensão da língua, teria chegado longe. Mas o génio não acompanhava a matéria.

 

Percebendo que, junto dos circuitos de grande projeção, não conseguia evidenciar-se, Crispim abandonou o calçado urbano e mudou-se para a aldeia. Ali, onde a escolha não abunda e o mundo cabe entre a mercearia e o largo da igreja, foi-se habituando a outras botas, de menor brilho, é verdade, mas mais acessíveis.

 

Onde quer que chegue, não lhe escapa uma. É, finalmente, uma figura de referência.

 

Lisonjeados pelo interesse da citadina personalidade, os proprietários das botas retribuem o seu talento com convites para piqueniques à sombra de uma laranjeira, presenças no bailarico da terra, lugar cativo nas festas de aniversário da neta do presidente da junta e em júris dos mais importantes acontecimentos da terra: do concurso da melhor bifana da feira,  à eleição da mais bela ovelha, passando, claro está, pela atribuição do troféu para a begónia mais viçosa da freguesia. Ali nada se faz sem ele.

 

Crispim, esse, vai ficando com a boca cada vez mais cheia, porque isto de arrastar a língua por onde calha tende a trazer uns sapos agarrados.

fotografia de Silvia Quinteiro.

Silvia Quinteiro: Professora Coordenadora na Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve. Investigadora integrada do CIAC da Universidade do Algarve, onde coordena o grupo Lit&Tour. Colabora com redes e projetos internacionais, como a Rede Entremeio da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o projeto LITESCAPE.PT – Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental e o projeto RuTIC das Universidades de Valência e Barcelona. Cocoordenou a criação da Rota Literária no Algarve e foi membro das equipas que elaboraram a Rota Literária Saramago no Algarve e a RuTIC; Coautora do livro Turismo Literário – Construção e Exploração de Roteiros (PACTOR).

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