
em última análise, a uma sem-razão inscrita não direi no próprio real, mas pelo menos no modo como nós, humanos, captamos, sentimos ou interpretamos o dito real, no seu mistério incognoscível.
Tudo isto são reflexões também elas um tanto quânticas ou aleatórias que me ocorrem a propósito desta estranha, mas sedutora Fábrica de Criar Pessoas, constituída por um vasto conjunto de textos cuja disparidade aponta em inúmeras direções, mas em que a velocidade me parece ser uma noção decisiva: falo da velocidade dos próprios textos, claro, mas também da infinita velocidade das coisas – tudo isso que a escrita de Miguel Leonardo procura captar.
Tarefa difícil? Claro que sim (…)
Fernando Pinto Amaral
Cantaram corvos
Imagina-te, como o animal que realmente és, o ilustre e deslumbrante ignorante, que, por consequência, és também um terror, o ilustre e importante racional. Um corvo, claro. Essa consequência vem das palavras de outros, aquelas palavrinhas que vão de boca em boca e sujam a pobre sociedade. Sem qualidade humana, essas pessoas andam por aí, espalhadas por qualquer lugar, numeradas pelas palavras da má-língua. Palavras bonitas, canções de amor, palavrinhas feias e, pesadelos que nos fazem acordar durante a noite. A importância da vida é continuar, depois não importa. Afinal, todos vamos morrer, e qualquer dia será o nosso dia. “Lalalalalala…” Pois é, pois, é. Já ensinaram isso às criancinhas? Era muito importante que não soubessem, porque os corvos são algo magnífico, esvoaçando, cantando e tentando comunicar que estão infelizes, sem comida, empoleirados nas árvores. Eles odeiam a luz do sol; por isso, descansam durante o dia ou esvoaçam com dores de cabeça. Coitadinhos. Um corvo, na grandiosidade da sua inocência, come carne — carne que pode até ser humana. Decidem os corvos, e eles simplesmente ainda não nos comem vivos.
Miguel Leonardo ed. Gato Bravo (2026) in “A Fábrica de Criar Pessoas”.
Querias um título para o teu mundo?
O mundo é dos poetas que o amam,
Não dos animais.
Esses poetas animais,
Também pertence.
Também é deles,
Afinal.
E na minha hipocrisia,
Gosto mais dos irracionais.
Também pertence,
Também é deles.
final.
E um mundo sem animais?
É um mundo de animais.
Os animais que comem outros animais.
Os animais que matam outros animais.
Serão irracionais e racionais.
Também pertence,
Também é deles.
Afinal.
É o mundo em si mesmo a conduzir,
A lei animal e, a lei humana, animal.
Miguel Leonardo ed. Gato Bravo (2026) in “A Fábrica de Criar Pessoas”.
A música que se ouvia não era a morte
Ora se vamos morrer, deixem lá de dizer que não nascemos vivos. Como assim se fala que quem pouco tem, também sofreu, e sofre. É por aqui que nos encontramos. Um agora abraço, amanhã logo não está. E para isso é preciso viver vivendo como quem quer ser vivo. Ora se vamos morrer, onde deixámos as lágrimas e todos os copos vazios? Talvez ali ao fundo perto dos alegres. Queríamos nascer com eles. Nascendo assim eufóricos, alguns apáticos, outros às gargalhadas. Ora se vamos morrer, contem-me outra história. Porque essa é a maior verdade que não nasceu para estar a contar os números, fosse eu um mentiroso, prefiro saber que vamos realmente morrer, mas em morte súbita e subitamente contentes. Ora vamos morrer, deixo-vos o contentamento que não me irei conter.
Tal como me descontem dizer que vamos morrer.
Miguel Leonardo ed. Gato Bravo (2026) in “A Fábrica de Criar Pessoas”.
Miguel Leonardo (n. 1996), Portugal. É escritor, poeta, músico, ator, argumentista e realizador. No mundo da literatura escreveu «A Voz de Lisboa com Paris» (Gato Bravo, 2023, janeiro) e «Pena Humana» (Poética Grupo Editorial, 2023, dezembro), com ilustrações de Luís Silveirinha. Escreveu e produziu alguns trabalhos no mundo cinematográfico entre 2022 e 2024, tal como para revistas e jornais em Portugal e no estrangeiro.










