
ao Ricardo Vaz
do Café Calcinha
Entra, empurra a porta
com o que ainda te ergue
Com licença, clube, café
Calcinha — Quinta-
-feira carregada de sacos
a descer a rua, com
ingredientes para uma sopa,
ingredientes para um rascunho
desesperado de poema,
despenhado de presença
entre tarefas, entre as escolas
das crianças. Entra, Com
licença, que o cartaz anuncia
hoje o Clube dos Poetas
Vivos. Empurra a porta com o anseio
de ainda matar a sede, de ser
iluminada pelas esferas de luz
quente dos antigos candeeiros,
de te veres rodeada pela mais fina
madeira esculpida, restaurada.
Entra,
senta-te por uns dez, quinze
minutos. Pede um chá de menta
e uma fatia de bolo de limão
com sementes de papoila. Pede
perdão pela irreverente veemência
ou pela falta dela. Ajeita-te
a esse metro quadrado de cadeira
de madeira e tampo de mármore, meio
de lado. Elogia o delicado trabalho
do restauro, a suavidade rosada
das paredes, mas não te denuncies
com o olhar, não deixes a tua figura
de estilo ser entendida, a metáfora
dos poetas mortos pintados
de fresco a fazerem-se de vivos.
Poetas, Clube, com
licença. Pede para ler
do teu caderno a abarrotar
de inícios, mas não tremas
o garfo, não embargues a voz,
oculta a descomunal cratera
que os dias te escavam
por dentro, finge esse eco
ser somente vapor de chá,
disfarça com o uso adequado
do protocolo dos Poetas
estabelecido. Oculta as mangas,
as olheiras, as manchas
já não cheiram a sangue,
a sinusite, a fraldas, a leite
materno, só estão esfoladas
de tanto esfregar
com o sabão clarim.
Não pertences
aqui, mulher mais morta
que viva, já perdeste a conta
das vezes que subiste e desceste
as ruas, as montanhas, as ondas,
que entraste e saíste de cafés,
de cidades, de continentes,
já perdeste a conta das vezes
que morreste afogada ou em chamas,
que mesmo morta-viva continuaste
a desempenhar as tarefas,
a percorrer os mapas. Mas fica,
por dez minutos que seja,
a fazer parte do luxo do tilintar
vivo das chávenas, ó Poetisa-
-Mulher-Morta-Viva, dou-te dez
minutos, quinze, que seja.
Sofia Correia cresceu na Margem Sul, estudou Arquitetura e Urbanismo em Lisboa e na Columbia University, em Nova Iorque, onde viveu durante dez anos e onde começou a estudar narrativa com os The Writers Studio, poesia com Cynthia Cruz e, posteriormente, forma poética com The Loft Literary Center. Desde 2013 vive no Barrocal Algarvio, a terra dos seus pais e avós, com o seu marido e filhos. É empreendedora criativa da sua marca artesanal Oficina Poeta Azul e da loja Colectivo 28 em Loulé. Tem publicado poemas em várias revistas locais e da Andaluzia. Em julho de 2025 lançou o seu primeiro livro, O Labirinto das Duas Árvores, com a Editora Urutau.










