Cultura

No reino de Fundanga VII: Maniliano | Xico Simonini

Jeso Carneiro / https://www.flickr.com/photos/125816678@N05/

Xico Simonini

Exemplo lapidar da Minoria maquiavelenta,

via de regra eleita, exaltada e celebrizada

pela Maioria Fraca de Espírito.

 

     Exceções existem para justificar a regra. Mas, porém, contudo, quiçá, todavia… A regra determina, com as exceções contumazes, que ele é filho do filho do filho de antepassados que, sempre, em tudo e por tudo, levaram vantagem, em tudo.

     A História não mente jamais.

     Nestas Fundangas Varonis, do Fernando de lá; nestas Roças Gerais, do Itabirras daqui ou nestas Sapitucas Viçosas, do Fernando de cá. Pouco importa, se importa… E quem importa?

     Pois, então, o filho do filho do filho daqueles que sempre obtiveram a Riqueza do Poder e a Riqueza da Riqueza mesmo, galga importante posto na Corte Fundanguense e dela faz parte imprescindível.

     Conquista as insígnias do triunfo nas urnas da malandragem ou na sacanagem da força das armas. Pode, então, vestir a túnica branca, calçar as botas vermelhas e usar a coroa de louros do Parlamento.

     E assim, por assim dizer… A partir das urnas, urdidas nos ardis eleitorais, ou na força das armas, armadas, dos golpistas porões, perpetuar-se no Poder e na Riqueza, mediante intrigas palacianas, violação de painéis, subornos, delações, falta de escrúpulo e habilidade invulgar no trato com as pessoas influentes da Corte. Parlamenta, no Parlamento, a imundície de uma Política que deveria ser limpa.

A História do filho do filho do filho, com a sordidez da maioria de seus atos e chinfrins gestos de grandeza, é a História que vem se repetindo ao longo dos séculos.

Transforma-se em Serviçal para atender aos desejos do Tirano de Plantão; faz barganha com o corpo da própria esposa para obter vantagens políticas; fecha os olhos às arbitrariedades do Imperador, entesourando valiosa moeda de troca; entrega os amigos aos açoites do carrasco para ganhar compensação financeira; não hesita em dedurar Companheiros para conservar empregos e posições. Na Corte, tudo é possível: mudam-se as leis de acordo com as conveniências do momento; autoriza-se o massacre dos Súditos sem lhes assegurar o mínimo direito de defesa; permite-se que uma criança morra a cada 24 minutos, por falta de saneamento básico, e que um terço da população seja colocado abaixo da linha da pobreza; entrega-se, por Trinta Moedas de Prata, para a canalha de Reinos d’além- mar e d’além- terra, o Patrimônio, a Honra e a Dignidade do Reino, prodigalizados pela natureza, onde, em se plantando, tudo dá, onde, em se querendo, tudo se constrói. Até grampos telefônicos.

     Assim é o filho do filho do filho, no Reino destas Fundangas Varonis, do Fernando de lá; no Condado destas Roças Gerais, do Itabirras daqui, ou no Burgo destas Sapitucas Viçosas, do Fernando de cá.

     Assim é o filho do filho do filho de antepassados proxenetas que, nas horas do acerto de contas, escafede-se pela porta dos fundos, retornando, mais tarde, esborniosa e milagreiramente, nos braços de Todos os Santos e de Todos os Pecados. Graças a famigeradas e delituosas brechas e fendas legais. Não sem dantes aprontar tantas e tais outras artes e artimanhas contra concubinas, desafetos e oponentes.

     Um Senador do Reino destas Fundangas Varonis. Um político do Reino destas Fundangas Varonis. Um Senador, um político, um indivíduo, nada mais, nada menos. “Aquele que pensa uma coisa, diz outra e faz o contrário.”

     Assim é o filho do filho do filho de antepassados d’outras eras. Um Filho da Mater et Magistra, Senador do Império Romano, semelhante ao Reino de Fundanga, destes tempos do Fernando de lá e d’outros tempos do Nero, chamado Minuto Lauso Maniliano. Personagem magistralmente biografada na obra “O Romano”, do Súdito do Reino da Finlândia Mika Waltari, na qual se inspirou, livremente, este bem traçado textículo.

     Qualquer semelhança com fatos, pessoas ou acontecimentos, dos tempos atuais e geograficamente próximos, no Reino, em Condados e Burgos, não terá sido mera coincidência. Foi proposital. Em sendo assim e assim sendo… Qualquer semelhança entre este Maniliano e os Bruxos, Cartolas, Bate-Paus e Assemelhados que infectam, infestam e infeccionam o Pedaço não terá sido mera coincidência. Foi proposital.

 

Fotografia de Xico Simonini

Francisco Simonini da Silva (Xico Simonini)  nasceu em Viçosa, MG, no dia 18 de novembro de 1941. Em sua cidade natal, em Belo Horizonte (MG), Florestal (MG), Pará de Minas (MG), Divinópolis (MG), Piracicaba (SP), Assis (SP), Primeiro de Maio (PR), Juiz de Fora (MG), Cataguases (MG), Ponte Nova (MG) e, recentemente em Santo Antônio de Pádua (RJ) construiu sua trajetória de professor e administrador do sistema educacional, além de marcante atuação na imprensa e na militância político-partidária. Aposentou-se como professor-adjunto na Universidade Federal de Viçosa (UFV), onde exercia suas funções no Departamento de Educação, do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes. Vem atuando, há mais de cinquenta anos, no sistema educacional público e privado (da educação infantil à pós-graduação), no ensino, pesquisa, extensão e administração. Por iniciativa individual ou coletiva participou da fundação de uma dezena e meia de escolas e cursos em todos os níveis. Sua trajetória é marcada por vigorosa atuação política, partidária e sindical e em campos diversos, como músico, desportista, comentarista esportivo, escritor, poeta, chargista e responsável pela publicação do semanário viçosense “Muzungu”.

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