Cultura

O nome | Sílvia Quinteiro

Foto de Caroline Andrade Rocha na Unsplash

Tinha seis anos quando assistiu, pela primeira vez, a uma homenagem ao pai.

 

Dois longos discursos. Uma medalha. Uma sala cheia erguida num aplauso sonoro e interminável. O pai. Um sorriso que enchia a sala. Baixo, magro e gigante ao mesmo tempo. Flores, jornalistas, rádio, câmaras de televisão. Correu a pendurar-se-lhe na mão. As pessoas aproximavam-se dele, felicitavam-no, agradeciam-lhe. Faziam festas na cabeça da menina, que assim partilhava daquele momento de glória.

 

De regresso a casa, perguntou-lhe:

— Como é que se faz para as pessoas gostarem tanto de nós?

 

— Damos o nosso melhor. Gostarem não depende de nós… acontece — respondeu.

 

O brilho daquele dia definiu o seu caminho. Imaginava-se naquele palco. Ensaiou as expressões, os gestos, as palavras humildes e comovidas que diria. Nunca hesitou em dar o seu melhor. Em tudo.

 

Estudou mais do que todos os colegas. Inscreveu-se em cursos, conferências, oficinas, pós-graduações. Trabalhava compulsivamente. Fazia voluntariado. Ia a todos os encontros, lançamentos, estreias, exposições. Nunca recusava um convite, por insignificante que fosse. E sorria. Sorria sempre.

 

Acreditava que um dia o esforço e a simpatia seriam notados.

 

Era competente. Prestável. Mas sentia-se invisível.

 

Lembrava-se de como, quando o pai entrava numa sala, por mais discretamente que o fizesse, as conversas eram de imediato interrompidas para lhe dar atenção. Bastava-lhe entrar. Bastava-lhe ser.

 

Tentou imitá-lo. Procurou demonstrar a mesma inteligência, a mesma perspicácia, o mesmo humor fino e cativante. E descobriu que, se queria realmente despertar o interesse, a solução era evocar o nome dele.

 

As poucas menções públicas ao seu trabalho pareciam menos interessadas na autora do que no facto de ela ser filha do inesquecível Eduardo.

 

Queria ser reconhecida pelo seu nome. Só pelo seu nome. Achou que um dia aconteceria, mas, com o passar dos anos, percebeu que não. Primeiro veio a frustração. Depois a amargura.

 

Os sucessos dos outros transformaram-se em ofensas pessoais. O reconhecimento dos outros, em humilhações. Repetia para si mesma que era mais talentosa, mais merecedora. E, ironia das ironias, era precisamente na grandeza do pai que procurava a confirmação da sua:

— Sou a filha do Eduardo.

 

Envelheceu rodeada de certificados, programas de congressos e recortes de jornal, em que o seu nome aparecia em letras pequenas, empalidecidas pelo do pai.

 

Faleceu numa manhã de fevereiro. No velório apareceu mais gente do que alguma vez enchera uma sala para a ouvir. Por momentos, pareceu que, afinal, alcançara o reconhecimento por que lutara durante toda a vida. Mas à entrada da capela recordava-se o pai. Falava-se da sua obra, do seu talento, do seu carisma, das histórias vividas ao seu lado. Havia quem o citasse, quem recordasse uma palestra brilhante de há quarenta anos, quem mostrasse fotografias antigas.

 

Uma mulher deteve-se diante do cartão colocado ao lado do livro de condolências. Leu o nome e franziu a testa.

 

— Ana Maria? Então ela não se chamava Eduarda?

 

Uma amiga da família esclareceu:

— Não. Ana Maria era o nome dela. Eduarda, porque era filha do Eduardo. A nossa Dadinha.

 

E voltou imediatamente à conversa anterior. Recordaram-no, repetiram as suas histórias. Lamentaram que tivesse partido tão cedo.

 

— Foi grande homem. Faz cá muita falta.

fotografia de Silvia Quinteiro.

Sílvia Quinteiro: Professora Coordenadora na Escola Superior de Gestão, Hotelaria e Turismo da Universidade do Algarve. Investigadora integrada do CIAC da Universidade do Algarve, onde coordena o grupo Lit&Tour. Colabora com redes e projetos internacionais, como a Rede Entremeio da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o projeto LITESCAPE.PT – Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental e o projeto RuTIC das Universidades de Valência e Barcelona. Cocoordenou a criação da Rota Literária no Algarve e foi membro das equipas que elaboraram a Rota Literária Saramago no Algarve e a RuTIC; Coautora do livro Turismo Literário – Construção e Exploração de Roteiros (PACTOR).

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