Cultura

Panegia: II | Daniela Braga Azevedo

Foto de Chirayu Trivedi na Unsplash

quebravam a mudez das ruas,

profanando o decreto daquele silêncio.

indiferentes, cantavam em uníssono —
um cântico que ocupava o lugar dos homens.

expandiam-se,

no lugar onde o mundo recuava.

à medida que o silêncio crescia, multiplicavam-se.

E era ver uma mancha negra em movimento,
avançando pelas ruas,

imparável,

passo a passo,

milímetro a milímetro

Vinham das profundezas,
subindo ao coração das cidades.

O som das minúsculas patas percorria as ruas,
um ruído fino, contínuo,
fazia vibrar o chão

insuportável,

era o som daquelas noites,

alguns levavam as mãos aos ouvidos,
tentando conter o que entrava.

o som feria por dentro,
atravessava o corpo,
até tocar um ponto onde já não havia defesa.

 

alguns enlouqueciam.
outros fechavam-se em casa.

algodão nos ouvidos.
portas vedadas.

e, quando nada mais resultava, fingiam.

não ver.
não ouvir.

falavam alto entre si,
como se aquilo não existisse.

o fingimento sustentava-se —
até parecer real.

 

mas a realidade regressava todas as noites,
numa lenta procissão negra.

tomavam a cidade,
como se sempre lhes tivesse pertencido.

espalhavam-se,
sem origem precisa,
por todo o lado, ao mesmo tempo.

 

nas ruas onde não caminhava ninguém, caminhavam eles.

ocupavam passeios, calçadas, avenidas e becos.

subiam paredes,
agarravam-se aos candeeiros,
escurecendo a luz.

por vezes,

cobriam portas e janelas,
e ali ficavam,

imóveis,

como uma segunda pele sobre a cidade.

 

ao fim de um tempo,

moviam-se.
cantavam.

 

alguns começavam a imitar —
pausas, hesitações,
como se tivessem observado demasiado tempo o que restava dos homens.

havia neles intenção,

já não era claro
quem observava quem —

Pela fresta da janela, Valadar espreitava os bichos.

Mantinha-se ali, preso ao que via —
e ainda assim recuava,

havia uma atração que não anulava o repúdio.

 

Fazia tempo que não se aventurava além da porta.

À noite, a cidade era deles,
De dia, o calor tornava a vida impraticável.

O sol tornara-se um excesso,

Nas ruas, o ar espessava-se, pesava contra o corpo.

Por vezes, um vapor quente levantava-se do chão,
ganhando formas imprecisas,
como restos de um mundo, já em mutação para outra coisa.

Dentro das casas, construíam-se divisões fechadas,
pequenas câmaras frias — mas o calor acabava por entrar,
derretendo esse esforço.

A casa mantinha-o dentro.

refúgio, prisão,
condenação

2091.

 

 

              In Panegia, Daniela Braga Azevedo

                                                                                                                                              (1944 caracteres, sem espaços)

https://danielabragaazevedo.substack.com/p/panegia-15f?r=599s48&utm

fotografia de Daniela Braga Azevedo.

Daniela Braga Azevedo escreve prosa poética, numa linguagem literária simbólica, reflexiva e mitopoética, explorando a condição humana através da transformação simbólica do mundo. A sua escrita caracteriza-se por um ritmo fragmentado e cadenciado, próximo do verso livre, pela associação simbólica de imagens e por uma estrutura conceptual em detrimento da linearidade narrativa.

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