
quebravam a mudez das ruas,
profanando o decreto daquele silêncio.
indiferentes, cantavam em uníssono —
um cântico que ocupava o lugar dos homens.
expandiam-se,
no lugar onde o mundo recuava.
à medida que o silêncio crescia, multiplicavam-se.
E era ver uma mancha negra em movimento,
avançando pelas ruas,
imparável,
passo a passo,
milímetro a milímetro
Vinham das profundezas,
subindo ao coração das cidades.
O som das minúsculas patas percorria as ruas,
um ruído fino, contínuo,
fazia vibrar o chão
insuportável,
era o som daquelas noites,
alguns levavam as mãos aos ouvidos,
tentando conter o que entrava.
o som feria por dentro,
atravessava o corpo,
até tocar um ponto onde já não havia defesa.
alguns enlouqueciam.
outros fechavam-se em casa.
algodão nos ouvidos.
portas vedadas.
e, quando nada mais resultava, fingiam.
não ver.
não ouvir.
falavam alto entre si,
como se aquilo não existisse.
o fingimento sustentava-se —
até parecer real.
mas a realidade regressava todas as noites,
numa lenta procissão negra.
tomavam a cidade,
como se sempre lhes tivesse pertencido.
espalhavam-se,
sem origem precisa,
por todo o lado, ao mesmo tempo.
nas ruas onde não caminhava ninguém, caminhavam eles.
ocupavam passeios, calçadas, avenidas e becos.
subiam paredes,
agarravam-se aos candeeiros,
escurecendo a luz.
por vezes,
cobriam portas e janelas,
e ali ficavam,
imóveis,
como uma segunda pele sobre a cidade.
ao fim de um tempo,
moviam-se.
cantavam.
alguns começavam a imitar —
pausas, hesitações,
como se tivessem observado demasiado tempo o que restava dos homens.
havia neles intenção,
já não era claro
quem observava quem —
Pela fresta da janela, Valadar espreitava os bichos.
Mantinha-se ali, preso ao que via —
e ainda assim recuava,
havia uma atração que não anulava o repúdio.
Fazia tempo que não se aventurava além da porta.
À noite, a cidade era deles,
De dia, o calor tornava a vida impraticável.
O sol tornara-se um excesso,
Nas ruas, o ar espessava-se, pesava contra o corpo.
Por vezes, um vapor quente levantava-se do chão,
ganhando formas imprecisas,
como restos de um mundo, já em mutação para outra coisa.
Dentro das casas, construíam-se divisões fechadas,
pequenas câmaras frias — mas o calor acabava por entrar,
derretendo esse esforço.
A casa mantinha-o dentro.
refúgio, prisão,
condenação
2091.
In Panegia, Daniela Braga Azevedo
(1944 caracteres, sem espaços)
https://danielabragaazevedo.substack.com/p/panegia-15f?r=599s48&utm
Daniela Braga Azevedo escreve prosa poética, numa linguagem literária simbólica, reflexiva e mitopoética, explorando a condição humana através da transformação simbólica do mundo. A sua escrita caracteriza-se por um ritmo fragmentado e cadenciado, próximo do verso livre, pela associação simbólica de imagens e por uma estrutura conceptual em detrimento da linearidade narrativa.










