Cultura

Nem Deus quis ficar | Daniela Braga Azevedo

Nem Deus quis ficar_1

não tinham vivido sem tempo.

tinham vivido dentro de uma forma de o medir.

habituaram-se a ela

até parecer natural,

e o hábito
enraizou.

quando a medida cedeu,

não foi só vazio.

foi dor.

 

o hábito podia deslocar o natural.

e deslocou.

havia quem permanecesse horas
sentado à beira da cama,
sem conseguir perceber
se o dia já tinha começado
ou terminado.

outros caminhavam pelas ruas
até o corpo ceder,
como se procurassem no cansaço
uma nova forma
de medir a passagem do tempo.

pela primeira vez,
escutavam o corpo
antes dos relógios…

não sabiam
se aquilo era regressar
ou perder-se ainda mais.

 

 

O hábito das coisas prende o humano,

 armadilha hábil

     como teia tecida pelas patas do aracnídeo.

Podia-se morrer pela inação fora dos diâmetros das teias em que se vivia,   

         teias criadas por nós,

                      pelos outros

e às vezes,

 tão somente pelas circunstâncias.

 

Em 2090, parte da consciência governada pelo relógio estava morta.

As pessoas podiam circular fora da teia

            mas já não sabiam como andar além do hábito.

 

tudo o que Valadar sabia
era que o fim da era do relógio
tinha aniquilado uma ordem

e nenhuma outra havia surgido.

permaneciam nesse intervalo.

 o mundo tinha perdido o tempo e deixado de saber o que fazer com o depois.

 

Valadar avançava pela rua da liberdade.

quando,

 um corpo atravessou-lhe o caminho.

 

 

Um homem de aspeto mendicante passava por Valadar quando lhe deu um forte empurrão.
De olhos esbugalhados, espreitou o jornal de Valadar e vociferou:
— mataram o tempo, mataram o tempo… Mataram-no!
— ei, homem, cautela, que assim me empurra até ao chão!

O homem olhou Valadar, surpreendido com a serenidade da sua voz, e acalmou-se.
— mil perdões, amigo… mas estas notícias agitam muito o meu pobre coração de velho. A verdade é que o tempo matou as nossas vidas.

— eu entendo, velho homem. Sem tempo, já não sabemos viver como antes.

— mas olhe que andam a dizer umas coisas…
— que coisas, meu velho?

Valadar levantou o olhar.
— dizem que há uma pessoa… que nos salvará desta maleita, da morte do nosso tempo.
O velho, de olhos salientes nas órbitas fundas, retesou o rosto descarnado e ergueu a ponta de um dedo em direção ao céu.

— uma pessoa?! Que pessoa?

— Monsieur Drakiundo… aquele ali, que mora na torre!
— Monsieur Drakiundo?!
— sim, meu amigo, esse mesmo. Descende daquele famoso médico, o Dr. Luís Cebola, que trabalhou no primeiro hospital psiquiátrico em Portugal.

 


— interessante! Então e esse descendente, o Monsieur Drakiundo, também é médico?
— sim… e não. Quer dizer, agora é conde. Está a ver aquela fila de pessoas no banco alimentar, bem no fundo da rua da Liberdade?
— sim, estou a ver. É precisamente para lá que vou.

— pois bem, quem criou esse banco foi o Monsieur Drakiundo da torre.
— hum… e que mais fez ele por estas pessoas?

 

— ui, muito mais, amigo! Está a ver essa sua perna que manca e a minha… que cambaleia? — sim, isso acontece desde que o termómetro estacionou nos sessenta graus. Muitas pessoas cambaleiam desde essa altura. O calor mexeu com o corpo.

— precisamente, caro amigo! São “as doenças do tempo”, como dizem, mas olhe que Monsieur Drakiundo está a retirar-nos sangue com umas agulhas, lá mesmo na tenda do banco alimentar.

O mendicante aproximou-se de Valadar e sussurrou-lhe:
– Dizem que anda a fazer um antídoto para isto. Por isso é que eu digo que ele também deve ser médico.
O mendigo abanava a cabeça continuamente, num gesto de aprovação e entusiasmo quase infantil.

— retirar sangue com agulhas? isso parece… invasivo. além de não se saber se esse tal conde é médico. Ter na árvore genealógica um famoso psiquiatra não chega para fazer o que anda a fazer.

Valadar divide a boca entre zombaria e preocupação.

— estou-lhe a dizer, amigo, isto é a mais pura das verdades! o conde é amigo do povo. dizem que até já há gente que se ofereceu ao Monsieur… para experiências. testes do antídoto e coisas assim.

 

— testes? que loucura! e sabe-se se esses testes correram bem?

— isso saber… ninguém sabe. mas ele é o único que ajuda o povo, desde que os presidentes das cidades se piraram com toda esta catástrofe mundial.

— sim, isso eu sei. muitos abandonaram os cargos… e ninguém os tomou.

— vê? estou a falar verdade!

— sangue em troca de alimento?

Ainda que os argumentos parecessem válidos, Valadar continuava a considerar aquelas transações, no mínimo, sinistras.

Em tempos assim.

e, quando tudo cedia,

talvez fosse cedo

para saber

o que devia ser recusado.

 

— o que realmente interessa agora é que Monsieur Drakiundo é o nosso protetor! e ai de quem diga mal dele. andam más línguas por aí. ingratos de um cão!

— e o que dizem as más línguas?

Valadar levantou o sobrolho.

— andam uns por aí a dizer que ele retira o sangue de todos para criar uma nova raça humana. gente capaz de viver nestas temperaturas, acima dos 60 graus.

— então e o velho amigo acredita nisso?

— eu cá, não! são baboseiras de gente com saudades do ecrã televisivo, e logo eu, que já tive a honra de conhecer o próprio, em carne. digníssima pessoa. de uma educação, de uma nobreza sem igual, a bem da verdade, se diga, pois.

mas digo-lhe mais: mesmo a ser verdade, muito honestamente, eu acharia louvável.           Arremata, enfaticamente.

– Monsieur Drakiundo está acima dos homens. é um deus entre deuses. podia, se assim o entendesse, dar-se o direito de criar, ora pois, se não podia.

e convenhamos, falemos verdade, não temos outro igual — nem Deus quis ficar por aqui…

                                                                       4432 caracteres sem espaços

 in Panegia, Daniela Braga Azevedo

otografia de Daniela Braga Azevedo.

Daniela Braga Azevedo escreve prosa poética, numa linguagem literária simbólica, reflexiva e mitopoética, explorando a condição humana através da transformação simbólica do mundo. A sua escrita caracteriza-se por um ritmo fragmentado e cadenciado, próximo do verso livre, pela associação simbólica de imagens e por uma estrutura conceptual em detrimento da linearidade narrativa.

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