
Prólogo
André Breton era um faccioso e controverso oportunista. O teórico e líder do Surrealismo se locupletou burlando conceitos estéticos, renegando os princípios por ele enunciados como fundamentos do Surrealismo, qual fez com a obra de Frida Kahlo, rotulando-a de surrealista. Ora, isto constitui falsidade ideológica na História da Arte, porque qualquer olhar sobre a produção pictórica desta artista constata que ela foi um gênio da Pintura Expressionista.
Em 1938, esteve no México e conheceu a pintora mexicana. Após ver seus quadros, ele definiu a obra da autora de “A Coluna Partida”, como “Uma fita em torno de uma bomba”, usando esta extravagante imagem poética para definir uma criação artística tão profunda e visceral, como se o contraste lúdico, presentificado na fita, neste caso, servisse para demarcar o campo dramático, tenso, que a imagem da bomba metaforiza. Ora, desde a Grécia Antiga, a tragédia e a comédia nunca caminharam juntas. Todavia, esta definição é inconsequente como o próprio Surrealismo, um estilo artístico que não mantém nenhuma relação com a realidade concreta, porque é doado pelo onírico e não buscado pelo pensamento estético reflexivo, ou por uma luta de contrários gerada a partir do próprio fazer artístico, tornando o Surrealismo uma água mental vertida pela inconsistência do elemento onírico, daí sua fragilidade estética, isto é, filosófica. Portanto, trata-se de uma definição oca e destituída de objetividade, por omitir a dor implacável e o intenso sofrimento da mártir e musa das Artes Visuais na América Latina, que constituem os fundamentos sensíveis de sua invenção artística ímpar e original.
Ainda no México, ele conseguiu seduzir a artista com promessas, no intuito de que ela fosse expor em Paris, onde ele lhe impôs o rótulo de surrealista e a incluiu no seu grupo de artistas deste estilo, o que Kahlo jamais aceitou, conforme suas próprias palavras: “Pensaram que eu era surrealista, mas nunca fui. Nunca pintei sonhos, só pintei a minha realidade”.
Esta declaração autoral que, teoricamente, comprova a autenticidade expressionista de sua obra é demolidora, porque lança por terra a farsa engendrada por Breton sobre a autora mexicana e a arte que ela criou. Ora, o Surrealismo não procede de nenhuma realidade concreta.
Manifesto
A História das Artes Visuais do século XX carece de uma revisão urgente, porque permanece contaminada pelo vírus da falsidade ideológica, gerado pela falta de escrúpulos de André Breton, ao impor como surrealista a icônica autora Frida Kahlo, cuja obra contraria radicalmente tal imposição, significante da prepotência machista sobre a mulher.
Os livros de arte não podem mais circular carregando a manipulação bretoniana em suas páginas, publicando-a aos quatro cantos como se fora verdadeira, porque é falsa. Frida Kahlo foi uma artista expressionista e nada poderá mudar esta situação.
Interessado em uma projeção internacional do Surrealismo, ao se prostituir com a mentira, o poeta e impostor francês mergulhou a História da Arte do século XX e a França em um lago de infâmia, porque estas miseráveis ocorrências tiveram lugar em Paris, que era, até então, o centro gerador e difusor da Arte Mundial.
Cabe, então, à França, manifestar-se sobre o seu envolvimento nesta farsa, porque, não o fazendo, terá que assumir o ônus da cumplicidade e do aviltamento internacional, por também se locupletar com a pretensa manipulação.
A nação francesa não deve participar deste crime de falsidade ideológica, que é grave porque incide no sistema educacional, disseminando confusão no espírito de muitos envolvidos com o fenômeno estético, de participantes do mesmo e das novas gerações, que precisam de caminhos seguros para seguir.
Epílogo
Da ilha de São Luís, que se encontra encravada ao sul do Atlântico Sul, no norte do Brasil, clamo contra esta mentira internacional. Pode ser que meu clamor ainda soe baixo, mas dia virá em que soará alto, porque alto é o tom próprio da verdade. Da verdade estética e histórica que, aqui, ganha voz altiva.
Convoco os artistas, historiadores, críticos, curadores, professores, estudiosos, estudantes, galeristas, colecionadores e participantes da Arte, para participarem dessa movida espiritual em busca da justiça estética.
Venham! Ainda há tempo de cortar o mal, mesmo que não seja pela raiz.
Couto Corrêa Filho
Ilha de São Luís
Setembro de 2026

fotografia de Couto Corrêa Filho. Autora da fotografia: Mirla Santos Ferreira – Museu HistóricoeArtísticodoMaranhão,MA.
Couto Corrêa Filho é poeta, ensaísta, crítico de artes visuais e ator de cinema. Doutor em Filosofia, é autor, entre outros, de Por Espanha, livro de poemas vencedor do quase centenário Prêmio Literário Cidade do Recife.









