
Somos água e músculos de pó e vento
Vidas que andam depressa
E devagar enxames de abelhas
Loucas porque já não sabem
O que é o mel o que são os favos
Onde mora a rainha.
A ciência das abelhas que nos parecia
Salvar é a ciência que nos
Há de perder. Eternidade
Ilusão. Para que colmeia
Vamos? O mundo já não é
O mundo – veludo
Abrasivo agora. Mentira
Que nos dá como salvação
Torres vertiginosas falésias
De mármore do outro lado
E os ladrões de estrelas que
Cantam cantam cantam
Sereias fantasmas dizem-nos
Florescereis só com o suor
De Deus e mordendo a felicidade
De hoje. Dão-nos novas drogas
Para nos acalmarmos da nossa
Ferocidade de outrora.
Nem cobardes somos
Deixamos de saber o que é
A cobardia ou a coragem
Os raios já não rasgam os véus
Somos prisioneiros contentes
Da infalível razão acenam-nos
Com a ilusão de que deixamos
De ser cadáveres e declamam-nos
Salmos salmos salmos
Garantem-nos que teremos séculos
Nas nossas mãos que o passado
E o futuro se encontram
Hoje que já não há
Nem dia nem noite nem sol
Nem lua estamos sentados
Em nuvens de roupa ungida
Organizada em números
Elementares sereis como serpentes
Dizem-nos os deuses e nós
Não nos asfixiamos de terror
– Anda criança anda pelas mãos
Dos teus anjos terríveis. Não é
Necessária a espada. Todos os lugares
São o Paraíso e a Terra
O leite e o mel prometidos.
Senhor da inteligência és um
Cancro incrustado no nosso
Sangue bebemos-te e sabes
A hidromel e não sentimos
Que és um cancro no nosso sangue
Recitamos-te como meninos de coro
Entre as flores convencidos
De que não é a terra
Mas o céu e tu o Senhor
Que vela a nossa solidão.
Mas em volta em círculos
Estreitando-se na sua ascensão
Está o Crucificado entre Moisés
E Elias todos feitos luz
Como corações preferidos
E nós apenas um osso
Flutuando no infinito Nada
Uma música uma dança
Porque os ossos dançam
Como os tambores no vácuo
Os ossos vão ao encontro
Das estrelas dançando
Aos saltos aos pinotes às
Gargalhadas de azul
Os ossos de onde outrora brotaram
A razão e um botão de rosa
E as lágrimas com que amamos
Nós músculos de pó e vento.
HENRIQUE DÓRIA
É advogado e colaborou no Diário de Lisboa Juvenil e nas revista Vértice e Foro das Letras. Tem quatro livros de poesia e três de prosa publicados. É diretor da revista online incomunidade.com, e da radiotransforma.










