Cultura

Poema XII | Henrique Dória

Foto de Krists Luhaers na Unsplash

Somos água e músculos de pó e vento

Vidas que andam depressa

E devagar enxames de abelhas 

Loucas porque já não sabem 

O que é o mel o que são os favos

Onde mora a rainha.

A ciência das abelhas que nos parecia 

Salvar é a ciência que nos 

Há de perder. Eternidade

Ilusão. Para que colmeia

Vamos? O mundo já não é 

O mundo – veludo 

Abrasivo agora. Mentira 

Que nos dá como salvação

Torres vertiginosas falésias

De mármore do outro lado

E os ladrões de estrelas que

Cantam cantam cantam

Sereias fantasmas dizem-nos

Florescereis só com o suor

De Deus e mordendo a felicidade

De hoje. Dão-nos novas drogas

Para nos acalmarmos da nossa

Ferocidade de outrora. 

Nem cobardes somos

Deixamos de saber o que é

A cobardia ou a coragem

Os raios já não rasgam os véus

Somos prisioneiros contentes

Da infalível razão acenam-nos

Com a ilusão de que deixamos 

De ser cadáveres e declamam-nos

Salmos salmos salmos

Garantem-nos que teremos séculos

Nas nossas mãos que o passado 

E o futuro se  encontram 

Hoje que já não há 

Nem dia nem noite nem sol 

Nem lua estamos sentados

Em nuvens de roupa ungida

Organizada em números

Elementares sereis como serpentes

Dizem-nos os deuses e nós

Não nos asfixiamos de terror

– Anda criança anda pelas mãos 

Dos teus anjos terríveis. Não é 

Necessária a espada. Todos os lugares 

São o Paraíso e a Terra 

O leite e o mel prometidos.

 

Senhor da inteligência és um

Cancro incrustado  no nosso

Sangue bebemos-te e sabes

A hidromel e não sentimos

Que és um cancro no nosso sangue 

Recitamos-te como meninos de coro

Entre as flores convencidos

De que não é a terra

Mas o céu e tu o Senhor

Que vela a nossa solidão.

 

Mas em volta em círculos

Estreitando-se na sua ascensão

Está o Crucificado entre Moisés

E Elias todos feitos luz

Como corações preferidos

E nós apenas um osso 

Flutuando no infinito Nada

Uma música uma dança

Porque os ossos dançam

Como os tambores no vácuo

Os ossos vão ao encontro

Das estrelas dançando

Aos saltos aos pinotes às

Gargalhadas de azul

Os ossos de onde outrora brotaram

A razão e um botão de rosa

E as lágrimas com que amamos

Nós músculos de pó e vento.

 

HENRIQUE DÓRIA

 

Foto: Henrique Dória

É advogado e colaborou no Diário de Lisboa Juvenil e nas revista Vértice e Foro das Letras. Tem quatro livros de poesia e três de prosa publicados. É diretor da revista online incomunidade.com, e da radiotransforma.

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