
Todas as manhãs, ele segue um ritual quase inalterado. Assim que as portas da biblioteca se abrem, entra com a calma de quem conhece cada canto daquele espaço. Dirige-se directamente à secção de literatura comparada, o seu refúgio diário. Ao chegar, passa os olhos pelas estantes e, quase sem hesitar, escolhe um livro escrito por uma mulher.
Depois de escolher o livro, procura um dos sofás junto à janela. O sol matinal invade o ambiente, criando uma atmosfera acolhedora. Abre o livro numa página aleatória e, assim que as folhas se abrem nas suas mãos, fecha os olhos e adormece profundamente. Durante esse tempo, o silêncio da biblioteca envolve-o como um manto protector, e nada mais parece importar.
Duas horas depois, o som suave, mas insistente, do sinal de aviso interrompe o seu descanso. É a notificação de que a biblioteca vai fechar para o almoço. Habituado a esse momento, acorda calmamente. Com um leve traço de sono ainda nos olhos, levanta-se, ajeita a roupa e, com cuidado, devolve o livro ao seu lugar na prateleira. Nunca desorganiza os livros, respeitando aquele espaço como se fosse um santuário. Antes de sair, faz questão de dar uma rápida vista de olhos pela secção de poesia traduzida. É aqui que encontra o que realmente o fascina: a poesia surrealista, um universo de imagens desconexas e sonhos traduzidos em palavras que sempre parecem desafiar a realidade.
Enquanto atravessa os corredores da biblioteca, uma frase surge-lhe à mente: “Não é assim tão alto como dizem.” Para ele, a realidade do seu quotidiano é um labirinto sombrio, desprovido da grandiosidade que muitos se esforçam por edificar. A vida, longe de ser um desafio insuperável, revela-se um desfile de pequenos rituais que o mantém à tona, flutuando entre dias e noites, uma mera sobrevivência disfarçada de rotina. Aquilo que os outros veneram como uma luta digna, ele vê como uma sucessão de gestos automatizados, uma coreografia de submissão que perpetua a sua própria alienação. O que é visto como dificuldade é, para ele, apenas a repetição cega de ciclos, um eco de vidas não vividas, onde a esperança se dissolve na indiferença das horas. Numa sociedade que exalta conquistas, ele sente-se aprisionado num sistema que lhe sonega não só as ambições, mas também a possibilidade de sonhar.
Depois de passar algum tempo na secção de poesia, é hora de deixar a biblioteca. O seu trabalho, ao contrário da maioria, que se dirige a escritórios ou fábricas, consiste em percorrer as ruas da cidade com um carrinho de compras. As suas tarefas são simples, mas vitais para a sua sobrevivência: recolher materiais rejeitados pelos habitantes da cidade, especialmente pelos turistas que, com a sua passagem fugaz, deixam para trás objetos sem valor aparente. Para ele, cada rejeição tem um propósito. Recolhe papelão, garrafas, peças de metal e tudo o que possa ser reutilizado. Mas o que realmente lhe interessa é o papelão.
Esse material tem um destino muito específico: ao cair da noite, quando o cansaço já pesa nos seus ombros, ele prepara a sua cama com o que recolheu durante o dia. O local para dormir é quase sempre o mesmo: a entrada de um banco. Não é um banco qualquer, mas aquele que exibe, em letras luminosas, uma taxa de juro a 3%. Dorme ali, em frente a uma instituição que promete prosperidade aos seus clientes, enquanto se cobre com papelão para se proteger do frio. E assim, todas as noites, adormece novamente, não com a esperança de riqueza, mas com a simples expectativa de sobreviver até ao amanhecer seguinte, quando o ritual da biblioteca recomeçará.
Nota biográfica: Tiago Alves Costa (Vila Nova de Famalicão). É escritor, poeta e docente com obras publicadas na Galiza, Portugal, Brasil e Canadá. Deus ainda usa o Windows 10 é o seu terceiro livro de poemas. Tem a sua obra publicada em várias antologias, incluindo World Anthology Border: Blurred & Political [Universidade de Victoria, Canadá] e Antologia de Poesia Ibero-americana Atual [Exlibric, Espanha]. O seu conto A Porta do Reconhecimento foi premiado na 27.ª edição do Prémio Manuel Murguia de Narrativas Curtas. Além disso, escreve textos e adaptações para teatro, como CUBO (obra finalista dos XXVI Prémios de Teatro María Casares) e a obra Revolution – Título Provisório, uma coprodução de quatro companhias de teatro portuguesas (Asta, Teatrão, Baal17 e D`Orfeu) para celebrar os 50 anos do 25 de Abril. Em 2023, coordenou a antologia de poesia em língua portuguesa A Boca no Ouvido de Alguém – Corpo-Identidade-Língua (Através Editora). É fundador e editor da revista digital de artes, letras e ciência Quiasmo. Tornou-se o primeiro português a ser membro da Associação de Escritores e Escritoras em Língua Galega. É professor associado na BAU, Centro Universitário de Artes y Diseño de Barcelona.










