A “Nomenklatura” ou “casta dirigente” da União Soviética – palavra que deriva do latim “lista de nomes” – incluía os altos cargos burocráticos: funcionários de alto nível, cargos técnicos e dirigentes do Partido Comunista.
O historiador Michael Voslensky descreve esse processo de tendência ao controle, por parte de uma classe dominante, que toma todo o poder dentro dum organismo (neste caso, o Estado) para si.
Leão Trosky, na “Revolução Traída”, desenvolveu uma teoria inovadora sobre a génese daquela burocracia estatal. Seguindo a mesma linha argumental de Trosky, o francês Ernest Mandel, no seu estudo “A burocracia”, nos falava sobre o problema da estruturação burocrática estatal (por cima das classes camponesas e trabalhadoras) e sua procura de privilégios materiais, junto à defesa dos mesmos.
Hannah Arendt, em seu texto tão controvertido reflectia sobre a “Banalidade do mal”. Na sua obra “Eichmann em Jerusalém” apresenta o burocrata mais zeloso como incapaz de resistir às ordens que recebe (ato de mera sobrevivência dentro do aparato estatal). Devido, entre outras questões, como no caso do Alemanha nazista, a uma eficaz maquinaria de propaganda e organização vertical, com capacidade de uniformizar e massificar a sociedade ao ponto de criar uma multidão incapaz de fazer julgamentos morais. Sendo esta a razão principal que explica porque o cumprimento e aceitação de ordens amorais sem questionar, se torna uma normalidade.
A Nomenklatura Soviética
Foi precisamente a Josef Stalin a quem se atribui o início e consolidação do poder da Nomenklatura, na União Soviética. No entanto, estudos históricos mais pormenorizados, pesquisando nos arquivos daquele período, como os feitos por Grover Furr, no seu “Khrushchev mentiu” – mostra, ao invés, um poder da mesma Nomenklatura revelando-se contra os intentos do próprio Stalin de atacar a estrutura do seu poder.
Teorias da conspiração sobre a morte do ditador soviético envolveriam o historiador Guennádi Kostirtchenko, que teria afirmado que Khrushchev teria informado uma jornalista francesa que a morte de Stalin fora motivada pela pressão da própria Nomenklatura.
Historiadores como Jonathan Brent e Vladimir Naumov acusaram Khrushchev e Beria de ter envenenado Stalin com warfarina… Quando em 2011 se fez pública a autópsia do ditador, o professor de neurocirurgia da Universidade de Mercer acreditou certa a hipótese de Brent e Naumov. No entanto, em 2019 patologistas da Universidade de Ohio rebateram esta argumentação.
No entanto, a partir da morte do ditador, seu sucessor Nikita Khrushchev não somente renunciou a um domínio de amplo espectro sobre o mais de 40% do território mundial (em aliança com a China), senão que elevou os privilégios da Nomenklatura. Ao retirar o rublo do padrão ouro e encadeá-lo ao dólar, impediu, na prática, de criar um modelo económico, social e organizativo paralelo ao do poder ocidental.
Assim, esta Nomenklatura em tempos de Gorbachev já pretendia converter-se em oligarquia. As tentativas da Perestroika de reformar o sistema por dentro e a pressão da Nomenklatura em favor de seus interesses, junto a diversos aspetos, já muito estudados. Os próprios protagonistas, achegados a Gorbachev, reafirmaram sua ideia de demolição controlada por dentro, que acabou mal… Deram na substituição daquele poder da Nomenklatura na URSS pelo da Oligarquia na Federação Russa, seguindo aquela premonição de Trotsky que, em seu dia, tinha afirmado que a burocracia soviética acabaria por instaurar de novo o sistema “capitalista”. Eles queriam ter a capacidade de acumular riquezas, de um jeito maior ao que permitiam os limites dos “privilégios” da era soviética…
Com a ascensão de Vladimir Putin, e no intuito de minorar o poder excessivo do poder oligárquico, o novo Presidente Russo voltou de algum modo a recuperar aquela burocrática Nomenklatura.
Com a pressão interior exercida pela “Guerra na Ucrânia”, no sentido de pouca margem para a dissidência, os ataques aos sectores oligárquicos mais pró Ocidentais afirmaram mais o poder da nova Nomenklatura nacionalista. Com a aceitação da demissão e afastamento do poder de Anatoli Chubáis, a 23 de março de 2022 e a negativa de aceitação da demissão de Elvira Nabiulina, como Chefe do Banco Central Russo, o poder da Nomenklatura definitivamente se instalou por cima do poder oligárquico.
Esta nova Nomenklatura inclui também ex-oligarcas e novos oligarcas, que ligam os seus interesses corporativos à Supremacia do Estado.
O caso Chinês
Foi no seu dia que Deng Xiaoping advertiu a Milhal Gorbachev para não abrir mão do processo político. A realidade, como já temos argumentado mais amplamente em outros artigos nossos, terminou por dar a razão ao velho dirigente chinês. Para Deng Xiaoping, a “Glasnost” ou abertura política seria o principal fator de queda, muito por cima da “Perestroika” ou reestruturação económica.
Ninguém como a Intelectualidade política chinesa tem estudado esse período da história soviética, na tentativa de não cometer os mesmos erros. Daí a abertura chinesa sempre se fez com o controle político do Partido Comunista, não permitido a Nomenklatura tornar-se Oligarquia.
E, ao invés, com o tempo, o crescente poder corporativo privado chinês, nascido nas três primeiras décadas de capitalismo selvagem na China, com baixos salários e precariedade laboral, sempre foi orientado, controlado e dirigido pelo governo e pelo Partido, marcando o Poder da Nomenklatura comunista os sectores e distritos da aberta económica interna, assim como os planos de expansão externos, o qual fez consolidar o Estado chinês como regulador efetivo da mudança, do progresso e da coesão social. Ao tempo que o mesmo Estado ia paliando as deficiências, nascidas de um inicial livre mercado voraz e re-encaminhando esse mercado para o beneficio do Estado.
A Nomenklatura chinesa continuou a afirmar-se após a eliminação do sector imobilista e a consolidação agora do sector soberanista de Xi Jinping. O poder e a capacidade da oligarquia chinesa em discordar do Estado foi totalmente anulado, durante a crise de tentativa de criação de uma banca privada que poderá concorrer com a poderosa rede de Banca Estatal e também durante a crise imobiliária, onde a nacionalização de empresas em falência foi a norma.
A compra de apartamentos, por parte de empresas estatais, para diminuir a oferta do mercado imobiliário, assim como a redução da taxa de juros em hipotecas, junto à criação de um fundo de 300 bilhões de yuans para ajudas à habitação são algumas das medidas para encaminhar este mercado em contração.
A contração do mercado imobiliário é precisa para o poder estatal da Nomenklatura chinesa manter suas contas públicas mais apertadas, devido aos elevados gastos derivados da pandemia e da expansão dos trabalhos em novas infra-estruturas, inversão em ID&I; e agora a necessidade de modernização e reestruturação militar, em tempos de incerteza global, a demolição da falida globalização e novas fricções derivadas das políticas protecionistas, e da concorrência pelos novos espaços de afirmação geopolítica.
Esta Nomenklatura chinesa afirma a sua base naquela tradição da união dos clãs como fortaleza primordial da unidade nacional, reservando, como temos já falado, o conhecimento mais elevado taoista para a elite e o conhecimento filosófico confucionista, misturando com o marxismo, como forma de coesão e organização social.
No ano de 2012 o jornal norte-americano The New York Times ofereceu um relatório dos seus cálculos sobre a fortuna pessoal dos, naquele momento, dirigentes chineses, implicando ao naquele momento Primeiro Ministro Wen Jibao e altos cargos, entre os quais se encontrava o próprio Xi Jinping (chamado já a ser o sucessor de Wen Jibao).
Esta investigação deixava claro, além do contra-ataque norte-americano à suposta austeridade da direção comunista chinesa, a rede de conexão entre o poder governamental e empresarial, que, sem dúvida, formava um novo tipo de Nomenklatura mais ampla e aberta. Uma Nomenklatura de amplo espectro, com redes em todos os sectores estratégicos e alianças em todo o mundo. Uma rede bem articulada, longa e profunda.
Este poder chinês, aliado à revolução tecnológica, com a supremacia no desenvolvimento da robótica caminha para um novo futuro modelo tecnocrático, onde o ser humano e a Inteligência Artificial têm, pelo próprio desenvolvimento dinâmico da tecnologia, que conviver. Para o poder chinês, a forma de controlar os desafios que o dito “dilema de cruzamento de caminhos: humano–Cyber”, traz é aquela de um poder Estatal que possa controlar o poder privado corporativo. Aqui é onde se inicia uma das polaridades da nova “dicotomia” mundial: a do neo-socialismo tecnocrático ou, como a Nomenklatura Estatal de Partido único, pode organizar, modelar e dirigir o processo do novo Paradigma Tecnológico, em todas suas vertentes e implicações sociais.
O Caso da Europa
O projeto de criação do atual poder europeu parte da consolidação do poder anglo–veneziano-neerlandês, que vem crescendo no continente e nas Ilhas Britânicas, desde a “Revolução Gloriosa”, passando pela derrota de Napoleão em Waterloo, e com a sua consolidação após a I e II Guerra Mundiais, e a definitiva viragem Globalista em poder Ocidental, comandado pelo poder económico e militar norte-americano, após o derrube da União Soviética em 1991.
Os diversos processos de organismos internacionais, com cada vez mais peso do poder conjunto Ocidental norte-americano e europeu, foram modelando a nova realidade após a Guerra Fria. (Ao dia de hoje essas redes internacionais supra-estatais têm sido também penetradas pela China, daí a necessidade, hoje, do novo poder norte-americano eliminar aquela rede Global, acima da qual também se foi formando tanto os EUA como a Europa).
Naquele globalista panorama, a União Europeia foi criada, segundo o modelo de controlo do Estado, por parte do Poder Corporativo Financeiro Privado.
Em 5 de maio 1949, se cria a NATO–OTAN, para tal como afirmou seu primeiro secretario: “manter os russos fora, os norte-americanos dentro e os alemãs abaixo”. De Gaulle tentaria reverter esse controlo transatlântico anglo-americano da Europa, mas foi afastado do poder.
A partir daí, o poder anglo-americano toma o controle da França e da Alemanha, realizando a política europeia de acordo aos interesses britânicos e norte-americanos, impedindo na realidade uma Europa com decisões soberanas.
O Tratado de Maastricht instituiu a União Europeia, em 1993. O Banco Central Europeu é criado em 1 de Julho de 1998. Em 1 de janeiro de 1999, é lançado o euro. O controlo dos poderes estatais dos diversos países da União, por parte da emissão privada de moeda em forma de dívida, assim como das instituições supra-nacionais europeias (que regulam a base legislativa que afeta as legislações nacionais), condicionadas pelo poder lobbista começa a criar uma rede intrincada de poder entre sector público e privado, com capacidade de afetar o mesmo sentido da democracia.
O velho Estado Previdência, de pacto sindical–empresarial, com alternância política dentro de um marco Constitucional, vai aos poucos ser substituído (por meio da implementação da agenda neo-liberal de Reagan e Thatcher) por uma nova Nomenklatura ao serviço do poder corporativo privado, que se reflete, nos dias de hoje, na nova realidade chamada de “Partidocracia”.
O Caso Norte-americano
Semelhante ao caso europeu, o norte-americano se viu influenciado, na sua História, pelas disputas dos diversos poderes no continente europeu. E o ramo soberanista norte-americano perdeu, após a morte do Presidente Abraham Lincoln, em favor do ramo atlanticista. O poder financeiro privado tomou o controle do país, definitivamente, em 23 de dezembro de 1913, com a criação da Reserva Federal, Banco privado com a capacidade de emissão da moeda em forma de dívida.
Com a queda de Wall Street, em 2008, o poder globalista privado tomou limite e passou a contrair-se. Já na atualidade, com um fardo impagável de dívida, graves problemas sociais e graves problemas em infra-estrutura, assim como a recuperação do sector industrial perdido durante a deslocalização de finais da década de noventa do século passado… Parte da elite norte-americana decidiu uma mudança de cenário, passando a encerrar definitivamente o velho processo globalizador.
O protecionismo ressurgiu no Make American Great Again – MAGA. A demolição da arquitetura global herdada de Bretton Woods e a necessidade de combater o avanço cientifico tecnológico da China, Índia e Rússia, assim como o deslocamento hegemónico do centro material económico do Atlântico Norte para a Euro-Ásia motivou uma mudança de orientação total na política interna e externa do ainda até de agora em aparência “hegemon” norte-americano.
A rutura dos velhos laços com a Europa se fez necessária. A Europa já não é centro prioritário de interesse geopolítico, como na Guerra Fria. Controlar as rotas de energia, terras raras e terras com minérios precisos para o desenvolvimento científico-tecnológico, assim como a re-orientação do sector bancário e das finanças se torna objetivo vital, junto ao controlo das rotas comerciais… Marca a viragem do jogo, ao mesmo tempo em que se tenta conter a China.
Nesse processo de viragem, uma nova Nomenklatura que une os sectores políticos mais supremacistas e agressivos com o poder das Grandes Tecnológicas, Energéticas e Financeiras dá como resultado um novo Poder Tecnocrático Norte-Americano, onde novas estrelas mediáticas como Elon Musk (seguidor do filósofo Harari), como Javier Milei, junto a magnates mais à sombra e menos mediáticos, como o enviado especial para assuntos externos Steve Witkoff, começam a cimentar o novo caminho.
A nova Nomenklatura tecnocrática Trumpista norte-americana conta com as filosofias de Curtis Yarvin (referente do vice-presidente J.D. Vance), que emulando no sector da direita a visão futurista de Harari (mais à esquerda, e mais alinhado com o movimento Woke), sonha com ultrapassar o, segundo ele, “falido experimento democrático”, minimizando o Estado ao estilo “moto-serra” de Milei, dando mais espaço ao Poder Corporativo Privado para regular a sociedade, ampliando o estilo de empresa fornecedora de subsídios aos trabalhadores, como algumas corporações da Coreia do Sul e iniciando um processo de cobertura do Sector Privado de atribuições antes próprias do Estado.
Neste caminho, o Estado ira cedendo cada vez mais soberania em favor do sector privado.
O empresário corporativo digital, o Tecno Feudalismo da nuvem, estudado pelo economista grego Yanis Varoufakis se tornaria neste novo cenário a Classe Dominante–dirigente.
Inaugurando a chamada nova era da “Ilustração Obscura”, termo criado pelo professor britânico Nick Land, seguindo com ele um grupo de intelectuais supremacistas, que associando a tradição mitológica nórdica, se tornariam nos novos “Dökkálfar” do novo reino de “Svartálfheim”, “Eflos escuros”, contraparte dos “Ljósálfar” ou “elfos da luz”. Na sua nova missão de novos guardiões e protetores da humanidade, em substituição dos velhos guardiões das velhas tradições.
Estas Nomenklaturas, como definiu Voslensky dispõem para seu proveito exclusivo e em sua totalidade do poder. O que não retirará disputas internas.
E nas suas duas versões mais poderosas, a do poder estatal e a do poder privado, ambas lutam por levar à frente os seus projetos tecnocráticos. Ambas em luta nas diversas faixas de fricção e tentando acordo, naqueles locais onde os interesses podem confluir (como no caso da Ucrânia, entre a Rússia e a nova Administração Trum, que mesmo pode divergir por fatores externos, nomeadamente quanto à tentativa de oposição britânica).
A Guerra das Nomenklaturas
Precisamente a guerra entre estas duas Nomenklatura: a Corporativa Privada do Neo-Fascismo e a do Poder Estatal do Neo-Socialismo estão em embate em todas as áreas do globo, com especial atenção no crítico epicentro de comunicação e enlace entre três continentes (a Europa, a Ásia e a África) que é o Oriente Médio.
Como este aspeto não forma parte deste artigo, deixaremos a análise desse confronto para outro texto.
Mas saber que desse acordo geopolítico entre as Nomenklaturas neo-fascistas corporativas e neo-socialistas estatais vai nascer a nova divisão do mundo, as suas novas Instituições e os limites respetivos geográficos de cada poder, com os seus espaços intermédios de conexão, que farão de interlocutores entre as partes.
Este acordo pode ser com guerras regionais ou guerra global. Sendo o segundo cenário, no início a disputa será pelo espaço total e pelo modelo a implementar para acompanhar o desenvolvimento futuro do mundo, de cara a nova sociedade tecnocrática. Somente em caso de enfraquecimento mútuo, a divisão, por diálogo, será feita no finalizar a guerra.
Ao estarmos na pior das faixas da mudança contínua, naquela das encruzilhadas, a tensão se torna máxima, e do poder do controlo mental (sobre as alterações emocionais) de ambas as lideranças em disputa vai depender o futuro imediato da humanidade.
Os começos destes complicados deslocamentos e mudanças, por causa da suas inerentes incertezas, provoca muito medo. O medo é o pior dos conselheiros. Daí nestas ocasiões e, ante a falta de maior tónica evolutiva da humanidade, o recurso às lideranças fortes e aos poderes autocráticos, dissolução do poder democrático, se torna a eleita mais factível.
Nestes tempos, a dissidência é vista como fator de desunião da comunidade, em confronto com outras comunidades. E no tempo mais de guerra, essa dissidência pode ser vista como traição. O medo às discrepâncias pode trazer combate interno em período de guerra, traz consigo que o poder hegemónico veja as mesmas como intoleráveis. Nesse momento, se a dissidência não aceitar sua derrota e dissolução, chega o tempo das purgas.
No entanto, uma vez ultrapassado este período de noite volta a paz, e a recuperação de maiores espaços para a dissidência. Espaços que se abrem pela necessidade de expandir o contraste de opiniões, em períodos de nova criatividade. Iniciativas mais plurais precisas para levantar as civilizações do declínio próprio dos confrontos.
Artur Alonso: escritor com vários livros editados de teatro, poesia, ensaio e romance… Ex diretor do Instituto Galego de Estudos Internacionais e da Paz. Ex secretario do Instituto Galego de Estudos Celtas. Membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono. Membro de Honra da Associação de Escritores.Mocambicanos na diáspora. Membro do Conselho de Redação da Revista Identidades, etc.










