
Penso, logo existo.
(René Descartes)
O despertador toca. Levanto-me da cama e começo a pensar. Passa o dia e chega a noite. Deito-me na cama e tento parar de pensar. Quando adormeço, tenho sonhos — deambulações misteriosas do pensamento, narrativas que se desenrolam sem a vigilância da lógica, mas nunca fora do seu território. Assim é a minha existência: um pensamento a seguir ao outro, como se a consciência fosse um fio contínuo que cose o tempo.
Pensar é a minha forma de respirar.
Pensamento: ideia, intenção, reflexão, raciocínio, opinião, conceito, consideração. Palavra ampla, elástica, quase infinita. Existem múltiplas modalidades de pensamento: o dedutivo, que parte do geral para o particular; o indutivo, que sobe do particular ao geral; o analítico, que fragmenta o todo em partes identificáveis; o sistémico, que reconhece a teia complexa das inter-relações; o crítico, que avalia, questiona e confronta o conhecimento; o criativo, que ousa propor o que ainda não existe; e o contrafactual, que interroga o que poderia ter sido.
Através da actividade intelectual e das operações racionais — análise, síntese, comparação, generalização, abstração — os pensamentos emergem como produtos da mente e da imaginação. Mas não são apenas produtos: são também arquitectos. Modelam a realidade que habitamos. Ou, pelo menos, a realidade que acreditamos habitar.
O meu mundo real é feito de pensamentos sobre a vida que me vai acontecendo. E, no entanto, começo a suspeitar que não vivo apenas no mundo real. O mundo real é o que aconteceu no passado, o que está a acontecer agora, o que acontecerá no futuro. É o domínio dos factos, da cronologia, da causalidade.
Mas eu vivo também — e talvez sobretudo — num vasto universo de mundos possíveis.
Todas as formas que o meu mundo poderia ter tido. Todas as versões alternativas do que aconteceu. Todas as bifurcações invisíveis onde uma escolha diferente teria inaugurado outra narrativa. Sonhos, planos, hipóteses, ficções, arrependimentos, esperanças: estes são os meus mundos possíveis. Essa é a minha realidade paralela, ainda que intencionada, eventual, abstracta. Gosto de lhes chamar produtos de uma existência esperançosa e imaginada. Os filósofos chamam-lhes «contrafactuais».
Os contrafactuais são possibilidades alternativas aos acontecimentos da minha vida — aquilo que podia ou devia ter acontecido, e também aquilo que poderá acontecer, mas ainda não aconteceu. São frases começadas por “E se…?” ou “Se ao menos…”. São ensaios silenciosos de destinos não vividos.
Dou-lhes importância. Tanta como aos factos. A minha vida é pautada por «factos» — o mundo tal como ele se impôs — e por «contrafactos» — o mundo tal como ele poderia ter sido. Viver é oscilar entre ambos. Como conciliá-los? Será este exercício apenas uma sofisticação filosófica? Não. Toda a gente o faz, desde a infância, quando a criança imagina o que teria acontecido se tivesse escolhido outro brinquedo, dito outra palavra, obedecido ou desobedecido.
O pensamento contrafactual invade o quotidiano e molda emoções, juízos e decisões. Não é um luxo intelectual: é um mecanismo psicológico fundamental. A forma como imaginamos os contrafactos — e como convivemos com eles — revela quem somos. Alguns transformam-nos em aprendizagem; outros cristalizam-nos em culpa ou ressentimento; outros ainda alimentam a esperança.
Considere-se a experiência conduzida por Daniel Kahneman, Prémio Nobel da Economia. Pede-se aos participantes que imaginem o seguinte cenário: o senhor Tees e o senhor Crane dirigem-se de táxi para o aeroporto. Ambos têm voos marcados para as 06:00. Chegam às 06:25, demasiado tarde. O senhor Tees descobre que o seu avião partiu às 06:00, como previsto. O senhor Crane descobre que o seu voo fora adiado para as 06:25 — e vê-o descolar precisamente quando chega.
Qual dos dois ficará mais aborrecido?
Muitos respondem: o senhor Crane. Porque esteve perto. Porque quase conseguiu. Porque o desfecho lhe escapou por escassos minutos. O que o atormenta não é apenas o facto — o avião partiu — mas o contrafacto vívido e insistente: o mundo possível em que ele chegou dois minutos antes, em que a porta ainda estava aberta, em que o embarque ainda não terminara.
O que o torna infeliz não é o mundo real, mas a proximidade imaginada de um mundo alternativo melhor.
Na verdade, as pessoas tendem a sofrer mais quando um resultado desejável lhes escapou por pouco. A proximidade intensifica o contrafactual. O quase dói mais do que o impossível. E, paradoxalmente, também nos sentimos mais felizes quando o mundo real coincide com um dos nossos mundos possíveis desejados. Quando aquilo que imaginámos acontece, experimentamos uma rara harmonia entre facto e contrafacto.
A existência é assim balizada por esta tensão contínua entre o que é e o que poderia ter sido. Somos criaturas factuais, mas também narradores contrafactuais.
Muito a propósito, Neil Young, na sua adaptação de um poema de John Greenleaf Whittier, afirmou que as palavras mais tristes, ditas ou escritas, seriam: «Poderia ter acontecido.»
Talvez seja essa a verdadeira medida da nossa humanidade: não apenas viver o que acontece, mas sentir o peso — e a beleza — do que poderia ter acontecido.
Porque pensar não é apenas existir. É também imaginar outras formas de existir.
Adília César
Adília César nasceu em Lagos, Portugal. É docente e formadora no âmbito da Didática das Expressões Artísticas, sendo Mestre em Teatro e Educação pela Universidade do Algarve. Tem colaborações dispersas em antologias e revistas literárias. Publicou livros de poesia: O que se ergue do fogo (Lua de Marfim, 2016); Lugar-Corpo (Eufeme, 2017); O Tempo O Tempo (Eufeme, 2019); Uma agulha no coração (Urutau, 2020); Gelo (Busílis Poesia – Trinta Por Uma Linha, 2021); Delirium (Urutau, 2021); Nocturna (Húmus, 2022). Foi co-fundadora do projecto literário LÓGOS – Biblioteca do Tempo.










