
Diálogo entre Minguinhos e Bino para um vídeo do Tik Tok:
Minguinhos: Quando apontares com o dedo, eu começo. Atenção, muito boa tarde para toda a gente, que eu vou aqui, estou aqui com o meu grande amigo Albino, não é Bininho?
Bino: É, sim senhor.
Minguinhos: Ora bem. Ó Bino tu és um homem “ósexual”?
Bino: Sou, sim senhor.
Minguinhos: És? Porra, por amor de Deus. Olha uma coisa, tu gostas mais de homens ou de mulheres?
Bino: Mulheeeres!
Minguinhos: Ah! Assim está bem, então mulheres é cá contigo.
Bino: Ah, isso é.
Minguinhos: Ah! E se tu tiveres uma mulher, arranjares uma mulher para ti, será que tu deixas de beber?
Bino: Deixo, sim senhor.
Minguinhos: Deixas de beber, e deixas de fumar?
Bino: Deixo, sim senhor.
Minguinhos: Deixas de beber e deixas de fumar, mas não de…outra coisa…
Bino: Ah, isso é que é…
Minguinhos: Então é assim, nós agora vamos, estamos aqui…é assim, se eu arranjar uma mulher, hã, eu arranjo uma e tu tens de arranjar outra, se tu tiveres a tua mulher, tu estás a explicar e estás a explicar bem, é igualzinho como eu, se tu arranjares uma mulher, se eu arranjar uma mulher para mim, também deixo de beber, deixo de fumar, mas não deixo de… fiiiioooocht
Bino: É o habitual.
Minguinhos: É o habitual, isso é verdade! Mas nós, é assim, somos “amorávels” para as mulheres, não amoráveis, “amorávels” para as mulheres.
Bino: Certo. Ai, isso tem de ser.
M: Obrigado, igualmente.
Bino: Obrigado, eu, obrigado.
Este diálogo parece leve e até cómico à primeira vista, mas por baixo dessa camada há algo bastante humano e até um pouco triste. Sob o ponto de vista humano, no desejo de um futuro melhor, o que salta mais à vista é uma espécie de esperança condicionada. Tanto o Minguinhos como o Bino acreditam que, se aparecer “uma mulher”, tudo muda: deixam de beber, deixam de fumar e reorganizam a vida. Isto revela dois aspectos muito humanos:
Em primeiro lugar, eles sabem que a sua vida está descontrolada, pois o elemento: álcool, não se apresenta neutro na sua abordagem. Contudo não acreditam totalmente na mudança por si próprios, precisam de um elemento externo como salvador. Ou seja, o desejo de um futuro melhor existe, mas está terceirizado. Não nasce de decisão interna, nasce da fantasia de que alguém os vai “resgatar”.
Há também uma certa ingenuidade: a ideia de que uma relação resolve vícios profundos é quase infantil. Ainda assim, essa ingenuidade mostra carência, não só de amor romântico, mas de estrutura, propósito e reconhecimento.
Em segundo lugar, a dimensão filosófica (ilusão, absurdo e repetição) aproxima-se de algo quase absurdo, no sentido de Albert Camus. Eles falam de mudança, mas continuam exactamente no mesmo lugar. Prometem deixar de beber… enquanto estão a beber. Projetam um futuro… sem qualquer acção concreta no presente e isto cria um ciclo:
- consciência do problema
- promessa de mudança
- deslocação da responsabilidade
- repetição
É uma forma de viver no que se pode chamar autoilusão confortável.
Também há algo de existencial: eles definem-se através de coisas externas: mulheres, hábitos, rótulos (“ósexual”, “amorávels”), mas não há uma identidade sólida. É quase como se estivessem a improvisar quem são, frase a frase.
No fundo, utilizam o humor como defesa. O tom descontraído, os erros de linguagem, as brincadeiras, tudo isso funciona como uma proteção. O humor aqui não é só para divertir; é uma forma de evitar encarar o problema de frente, tornar a própria situação mais suportável, manter a ligação de amizade entre eles. Poder-se-á afirmar que o riso esconde a vulnerabilidade. Numa leitura mais dura e, por conseguinte, mais honesta,
eles não estão realmente a planear mudar, estão a falar sobre mudar. A conversa dá-lhes a sensação de progresso, sem exigir o esforço real da transformação.
Alice Caetano
Alice Caetano: Formação académica: Curso professores do 1º ciclo pela Universidade de Aveiro.
Licenciatura em Ciências da Educação pela Faculdade de Psicologia e de ciências da Educação de Lisboa.
Profissão – professora do Primeiro Ciclo.
Livros publicados:
Poesia: “Depois do Ninho, a Água”; “Transmutações”.
Prosa poética: “Maçã de Zinco”.
Poesia, teatro e conto – “Espelho Convexo” (recomendado por Francisco Louçã).
Histórico-Biográfico: “Palco Sombrio – Guiné – Guerra Colonial e Actos Cénicos” (recomendado por Francisco Louçã).
Livros em coautoria:
“Arranja-me um Emprego – crónicas e poesia para salvar o dia” – Editora Versbrava.
“Orgânico – Cinco Poetas, a mesma causa” (livro com carácter social) – Edição de autor.
“Xafir e a Feiticeira do Pântano” (infantil) – Alfarroba Publicações.
Participação na Antologia da Moderna Poética Portuguesa.
Participação em iniciativas do Movimento Democrático de Mulheres – MDM – com textos temáticos.
Membro do júri do Concurso “Aveiro Jovens Criadores”.
Poemas traduzido para italiano e publicados nas revistas Emergenza Climatica e Articoli Liberi.
Publicada pelo Jornal literário “RelevO” de Curitiba.
Realização de programas de rádio local de âmbito literário.
Escrita de prefácios em diversos livros de poesia.
Colunista na imprensa regional com artigos de opinião e crónicas políticas.
Segunda vencedora do 1º concurso de literatura polaco-português.
Distinguida pela Direcção Regional de Cultura do Centro como mulher de destaque no panorama cultural da Região Centro.
Elemento da Direcção do Grupo Poético de Aveiro.
Elemento do Clube de Leitura da Biblioteca Municipal Manuel Alegre em Águeda.










