Cultura

Considerações sobre o equilíbrio: 3 poemas | Caio Selva

Foto de sasikumar j na Unsplash

sou o próprio paradoxo 

porque respiro 

— corpos atravessados —

todas as vibrações

começo sem fim

 

o céu caindo

nós na estrada

caçando causo para segurá-lo

contar estórias

fabricar um novo céu

 

poesia

 

depois da explosão

os tiros

de pedras

brilhos que se amontoam no rio

pirâmide de dor e ouro 

de tolo

faísca na luz do sol

as novas mensagens do pajem com seu bastão

 

do caminho antigo

resta…

no silêncio é possível ouvir

o silêncio é a base

 

não precisa devolver a chuva pro meu sertão

não tenho sede

não precisa devolver a chave do meu coração

 

sangria renova

o ar entra com o frio pela porta aberta

e sai quente e úmido depois do pulmão

 

confio plenamente no ar que eu respiro

como confio na lua e no sol

 

desejos calmos

a poesia brilha grande surpresa

uma abertura no destino

em um impulso

para a descoberta da possibilidade da beleza

 

o ar entra                                                os olhos cegam

o ar sai                                                     o nariz sente

o coração bate                                        o ouvido escuta

a gente dói

 

medite

respire

lenta

e profundamente

e medite

 

medite sobre mim

 

medite sobre meu corpo

sobre meu cheiro forte e lento

sobre o que não se pode imaginar

que está para além da criação

 

medite sobre o que não se pode pensar

e venha

sinta o que passou da sensação 

 

deixe o ar voltar

 

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joia de jade

 

salguei demais o cuscuz hoje

estou apaixonado

é natural errar a mão no sal

quando estamos apaixonados

 

a cabeça fica cheia de ar

a atenção vai para o brilho

 

todos os olhos

 

o brilho da joia de Jade

de onde a luz vem

luz-talismã

saborosa manhã

um quilate de mel

 

equilíbrio em exagero

das coisas que são só o que são

a sorte de um amor sem defeitos

sujeito, objeto de nula intenção

 

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roteiros

Rosa verde, rosa verde/ rosa verde é coisa que há?/ é

uma coisa que se perde/ quando a gente não está lá

 

na película vai ficar lindo

você pedalando

com os braços abertos

os olhos fechados

 

bem clichê

 

sorrindo

com boca de coringa

que não diz não

nem sim

 

há as coisas que se transformam

as que passam

voando

as que acabam

também as que somem

com ou sem paz

e aquelas que morrem

 

uma troca de velocidade

uma mudança de estilo

uma mudança de cena

com zero arrependimento

 

Fotografia Caio Selva

Caio Selva é poeta, professor, performer, yogi, tradutor e produtor cultural. Participou da produção e atuou no filme Batom Navalha, estreado no Inflamável – festival de filmes em super 8. Performou a declamação do próprio texto para o videopoema mutação, do projeto Poemagem, de Claudia Aguiyrre. Atuou no filme La vida es un fandango, de Grazi Labrazca. Publica poemas, entrevistas e traduções literárias com frequência em revistas da área, com destaque para a portuguesa InComunidade. É presença certa em diversos saraus da Ilha de Santa Catarina, como convidado ou intruso. Co-fundador e co-organizador da revista de arte Anturragem. Organizou, juntamente com outros artistas de Florianopólis, o Núcleo d’Explosão da Palavra — grupo de leitura e de performances a partir das Galáxias, de Haroldo de Campos. Dois de seus livros de poemas: amor te morde (ilustrado por Thomás Borges da Silva) e um certo equilíbrio estão em processo de finalização. Sua tradução do livro do chileno Rodrigo Naranjo, Cor de saúva, está à venda no site da editora Papaterra.

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