
diz Annie Ernaux
mas não escrever
pode ser mais perigoso
ainda
é que a escrita me conduz para essa estranha instituição chamada literatura, como diz Derrida, que — em princípio — tem o poder de dizer tudo, te liberta de regras e convenções impostas e abre um campo de expressão infinito.
entretanto, há uma extrema inocência diante desta aparente possibilidade de dizer tudo.
eu começo a me relacionar com a escrita muito antes da chegada da literatura.
escrevo porque preciso dar um jeito de entender o que acontece no meu corpo.
preciso acompanhar o acontecimento do corpo que age completamente fora do meu controle: dores que se apresentam repetidamente sem hora para chegar, emoções e oscilações brutais, pesadelos repetitivos e insistentes.
corpo, quem é você?
que língua é essa que você fala?
começo a escrever o corpo. são diários, espécies de escritas de si1 do mundo diurno e onírico, atravessados pela mudança das luas e das estações. e acabo escrevendo com o corpo, desvelando a partir daí mil camadas de histórias, fendas e atravessamentos ancestrais que compõem minha carne.
descubro que sou mil mulheres também, como canta Luiza Lian.
é que a história de nenhum corpo está restrita à própria pele, ou à própria camada onírica e simbólica.
somos feitos de outros, Jasmina Barrera diz em Linea Nigra, constatando que as células de uma mãe encontram-se no feto de um bebê em formação. e apesar de ser menos comum, as células de uma avó podem também estar ali.
a escrita de um único corpo é o desvelamento de uma estrutura arqueológica muito antiga. cavucar a história de sua própria dor pode ser um jeito de acessar velhos monstros de uma coletividade inteira. foi exatamente isso o que Julia da Rosa Simões acessou através de sua pesquisa como historiadora em A estranha ideia de família.
algo que nos conduz à escrita tem relação com uma necessidade profunda de produzir sentidos para a experiência do próprio corpo no mundo. e ao operar esse ato de investigação acabamos por nos esbarrar com a vida e com os conflitos para lidar com a própria vulnerabilidade de muitos outros.
a vida dos outros que atravessa meu corpo começa a se impor na minha escrita.
não tenho a mínima ideia de quando isso começa, de quando o texto — que era uma descrição de sinais e sintomas, datas do aparecimento de crises de enxaqueca e acompanhamentos do ciclo menstrual — começou a falar sobre minha mãe e suas crises de enxaqueca, sobre a relação de cuidado e amorosidade entre minhas mulheres, chegando ao corpo da bisa e à sua presença como matriarca que marcou meu imaginário infantil.
a escrita, em determinado momento, nos conduz para onde ela quer, é o que Helène Cioux me conta. e eu me pergunto agora, se é neste momento em que corremos o grande risco de fazer literatura.
nomeio aqui “literatura” uma espécie de aventura, um caminho sem volta que acontece quando o texto se encaminha para onde ele quer e o corpo que escreve passa a ser mero acompanhante desse processo de escritura.
mesmo que seja o meu próprio corpo quem delimita e define a estrutura desta escrita até que ela se transforme em livro e se direcione para o mundo, tem algo aqui que me parece que rompe com o ego, com uma necessidade meramente de organização e adaptação do corpo no mundo através da palavra e que dá espaço para alguma outra coisa mais rebelde e brutal.
cria-se não com aquilo que é próprio do corpo, mas com o mundo que atravessa nosso corpo e que se impõe. a dor da qual se escreve não é mais uma propriedade exclusiva da própria carne. a dor do corpoescrita é a dor do mundo. a forma como o mundo dói e vibra através do si mesmo, como Cristina Rivera Garza discute em Os mortos indóceis: Necroescrituras e desapropriação.
é a partir disso que se escreve, e o acontecimento desse corpoescrita só pode ser acessado depois, muito depois, que a chegada da escrita2 acontece.
cresci escutando meu pai dizer:
camila você fala demais,
camila você inventa muita moda,
camila você precisa aprender a ficar calada,
eu entendia que meu pai queria me dizer que eu tinha alguns comportamentos que não eram adequados, que era “falta de educação” fazer isso ou aquilo, mas estava longe de entender que ele marcava ali algum tipo de perigo, de ousadia, e até alguma espécie de potência no meu modo de digerir, metabolizar e criar com o acontecimento do mundo.
era muito difícil perceber que aquilo que censores e sistemas de repressão tentam fazer é vasculhar e agir em relação a algum tipo de potência que pode mobilizar e remexer em estruturas já muito cristalizadas, criando campos de forças poderosas. ou seja, exatamente ali onde eu era reprimida, era sinalizada algum tipo de potência muito própria ao meu corpo e aos seus processos de criação.
nas últimas semanas, estive em campanha de crowndfunding para a publicação do meu primeiro livro, quebracabeças, que está no prelo pela editora urutau. o livro é resultado de um texto que foi feito para ser apresentado com voz e corpo, contando a travessia da experiência de uma dor crônica de cabeça que atingiu meu corpo aos 21. este mesmo processo foi vivido pelo corpo de minha mãe durante toda minha infância e adolescência, assim como pelo corpo de minha tia avó. a bisa tinha dores de cabeça frequentes e sua mãe também. essa travessia dolorosa me colocou para escrever o corpo e criar a partir da dor.
esta palestra performance passou por um processo de edição para o formato de um texto em versos que dialoga a dor crônica, ancestralidades, mulheridades e processos de criação. o material cria um campo de diálogo entre palavra, fotos antigas de família e meus desenhos.
neste processo de publicação, minha família entendeu que eu ainda inventava muita moda e não sabia ficar calada, como aquela criança que insiste em ser muito conversadeira e corre riscos de ser punida na escola.
minha família começa a intervir no processo de publicação do livro.
recebo uma mensagem da minha mãe falando que as fotografias antigas de família deveriam ser retiradas do texto, assim como os nomes dos familiares que ali são apresentados. sou alertada para o risco de processo judicial por uso de imagem sem autorização ou por difamação, pelo fato de eu ter exposto alguns segredos — nem tão secretos assim — de familiares que já morreram.
alguns dias depois, recebo um email do meu pai, ou melhor, do censor, em que ele faz marcações no texto, indicando uma reavaliação da minha escrita, com sugestões de supressões destacadas que não prejudicam em nada a obra como um todo.
é neste momento em que começo a perceber que o meu texto, ou melhor, que o meu corpo não é só meu. e que as histórias que constroem um corpoescrita, são de outros tantos também. corpos estes que agora reivindicam alguma posse e direito de manejo dos fatos, imagens e trama das palavras. a intervenção dos outros me dá uma nova dimensão daquilo que escrevo.
o censor me conta agora o perigo da minha própria escrita.
eu não sabia que as histórias que atravessam meu próprio corpo podem ser tão perigosas. porque elas sempre foram as histórias do meu corpo. eu cresci com elas, assim como eu cresci com aquela estante de madeira cheia de enciclopédias, o toca-discos, o banheiro de azulejos azuis, os dias em que minha mãe ficava de cama no escuro, as sequências de espirros intermináveis de meu pai e os pratos marrons com os quais servimos o almoço por tantos anos.
minha história, é um amontoado de fatos e memórias minhas e de outros, com pouco juízo de valor. mas o censor me assinala com seu marcador amarelo todas as entrelinhas perigosas presentes na escrita. o texto se desvela em sua dimensão afetiva, expondo a vulnerabilidade das outras tantas que falam através de mim e que também constituem meu próprio corpo.
o que ele não entende é que, como nos conta Annie Ernaux, há uma diferença entre o escrever para alguma coisa e o escrever a partir de alguma coisa. escrevo não para deixar algo registrado sobre minha própria existência, como um caminho que tem uma orientação definida ou uma obra pronta e fechada para ser apresentada.
na verdade, escrevo a partir de alguns territórios: casa-corpo-memória-trauma que se embrenham entre si numa trama complexa e indiscernível que faz com que a própria história do corpo se misture aos outros que me habitam. me transformo nos outros, me torno os outros, faço fabulação especulativa, como Donna Haraway me ensina, com meu corpomundo, e isso tudo acontece num movimento absurdo, e um tanto inconsciente que não dá garantia alguma de onde vai chegar.
minha vulnerabilidade é simplesmente a minha força, a única força do texto3. é a partir das marcas vulneráveis que a história ganha o peso necessário para seguir para onde quiser e assim deixo minha leitora livre para amassar, rasgar, pisar ou dançar em cima do meu corpoescrita.
minha vulnerabilidade partilhada não foi planejada. o corpo, como uma cavala, serve a dimensão afetiva que se impõe através da escrita: um conjunto de fatos indisciplinados que começam a ser deformados, reformados, reafirmados, como afirma Eurídice Figueiredo no artigo Autoficção feminina: a mulher nua diante do espelho.
toda experiência do corpo presente é um processo de atualização, manejo e recriação a partir de nossas memórias. nós usamos e manipulamos nossa memória a cada gesto vital. e na escrita, no acontecimento da escrita, não poderia ser diferente.
enquanto escrevo, torno-me uma outra que escreve, invento para mim um duplo como nas palavras de Eurídice, e nesse processo eu estou criando uma nova versão da minha própria história, estou reformulando a existência do meu corpo e dos tantos outros que carrego em mim.
ninguém te conta sobre isso antes de escrever
você terá que descobrir sozinha
com seu próprio corpo escrita
após as investidas do meu censor, eu tenho dois sonhos:
1) estou escrevendo num caderno com tinta vermelha diante de uma TV ligada e meu pai diz que eu não deveria escrever ali, e, ao contrário do que ele me pede, eu escrevo com mais força, compulsivamente. logo, ele se direciona ao meu corpo e começa a me dar chineladas. eu grito e a voz não sai. grito e a voz não sai. acordo começando a falar em voz alta SO…corro.
2) entro num quarto de hotel onde estou com meus pais. meu pai começa a me dizer as mudanças que deveriam ser feitas no texto, acho que ele fala que eu seria processada. eu corro na direção oposta ao quarto. corro o quanto posso. percebo que estou somente com minha roupa do corpo mas decido ir embora mesmo assim e nunca mais voltar.
meu terapeuta me diz que os sonhos podem ser presentes que nos dão uma chance de elaborar simbolicamente a situação. através das imagens nos depreendemos da brutalidade do real e, ao mesmo tempo, damos possibilidade de passagem e manejo desses fluxos intensos que nos atravessam.
“Escreverei sobre o não dito,
sem me importar com o suspiro
do ultraje do censor e da audiência.
Finalmente,
escrevo porque tenho medo de escrever,
mas tenho um medo maior ainda
de não escrever”4
sigo com Gloria Anzaldúa, que, apesar de sentir medo, ousa friccionar sua experiência corpomundo expondo em palavra sua travessia como mulher chicana. auto friccionar5 nossa experiência mobiliza também todos aqueles que compõem nossa existência.
um texto de autofricção não faz compromisso com a realidade, que muitas vezes só é sustentada por silenciosas e rígidas estruturas, imóveis e imobilizantes.
autofricções fazem compromisso com a possibilidade de fazer passar um campo de intensidades e invenções através das palavras, fazendo uma reconstrução literária, nas palavras de Eurídice, de um corpo a partir de fragmentos dispersos.
a ficção e a realidade se entrecruzam numa dança perigosa, como Josefina Ludmer investiga no artigo/manifesto sobre literaturas pós-autônomas, podendo se tornar termos indiscerníveis.
toda essa trama me torna vulnerável no texto, com o texto, e com o corpoescrita no mundo, e é justamente essa vulnerabilidade que me permite não mais ser refém dos meus sintomas e dores, me tornando capaz de criar com eles, colocá-los em movimento de vitalidade.
eis que já não sou mais aquela que se colocou para escrever em seus diários sobre a dor há 10 anos.
a escrita do corpo colocou o corpo no mundo em refazimento.
e, de repente, me acontece o inimaginável: perceber que preciso defender isso, perceber que a escrita tem fortalecido coisas estranhas e irreversíveis em mim.
se eu cheguei até à escrita foi porque eu precisei criar uma casa quando nenhum outro território se mostrava possível. e eis que algo absurdo acontece, parece que, de algum modo a defesa da escrita começou a se misturar com a defesa da própria vida. e por mais que eu possa honrar minhas raízes, eu também preciso confiar que novos solos e outras estruturas podem ser criadas para mim e também para outras tantas que vieram antes e virão depois.
Notas
1 Em referência ao texto de Foucault (2006 [1983]), A escrita de si, em que o filósofo analisa práticas antigas como diários, cartas e cadernos de notas (hypomnemata) em que a escrita atua como registro cotidiano de transformação do si mesmo.
2 Expressão de Helène Cixous que dá nome ao livro A chegada da escrita (2024).
3 Em referência ao texto “Minha vulnerabilidade é meu poder” de Ocean Vuong. No texto ele diz: “Essa vulnerabilidade é a coisa mais normal da condição humana que encontrei (…). Então digo para meus estudantes (…) a coisa mais fortalecedora que alguém pode fazer como artista é dizer “minha vulnerabilidade é meu poder” já que é dali que todo o cuidado vem, é dali que vem o desejo de melhorar, a conexão com as outras pessoas” (VUONG, 2026, p. 13).
4 Trecho de Gloria Anzaldúa em Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo (2000, p. 232).
5 Termo de Eurídice Figueiredo (2010).
CITAÇÃO MUSICAL
EU ERA MIL MULHERES TAMBÉM, Luiza Lian. Álbum: Azul moderno, 2018.
BIBLIOGRAFIA
ANZALDÚA, Gloria. Falando em línguas: uma carta para as mulheres escritoras do terceiro mundo. Revista Estudos Feministas (on-line). 2000, vol. 8, n.1, p. 229-236. ISSN 1806-9584. Recuperado de: https://periodicos.ufsc.br/index.php/ref/article/view/9880. Acesso em: 16 de abril de 2026.
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FIGUEIREDO, Eurídice. Autoficção feminina: a mulher nua diante do espelho. Revista Criação & Crítica, n. 4, abr/2010, p. 91-102. Disponível em: <http://www.fflch.usp.br/dlm/criacaoecritica/dmdocuments/08CC_N4_EFigueiredo.pdf>. Acesso 16 de abril de 2026.
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VOUNG, Ocean. Minha vulnerabilidade é o meu poder. Tradução: Julia Raiz. Cadernos de leitura 188. Belo Horizonte, Edições Chão da feira, 2026.
Camila Caires é trabalhadora da escrita e psicoterapeuta. Doutoranda em Psicologia, pesquisa processos de criação a partir da escrita, corpo e subjetividade. Sua primeira publicação, quebracabeças, sairá em 2026 pela Urutau.











