
O Japão da obra de Kenji Mizoguchi é um país cruel. A história do país do sol nascente é cheia de violência que tem o seu cume na violência com que é lavada a honra através do cortar das próprias entranhas. A glorificação da guerra e do guerreiro, a opressão das classes mais baixas, a destruição da dignidade da mulher, vendida tantas vezes ainda criança para a prostituição, através dessa instituição tão japonesa que é a gueixa, são também marcas dessa violência.
E a denúncia da violência e da opressão, particularmente da que é exercida contra a mulher, é uma caraterística essencial que atravessa a obra cinematográfica de Kenji Mizoguchi, porque ele sentiu na pele essa violência.
Nascido no seio de uma família pobre, seu pai vendeu a irmã de Kenji, Suzu, ainda criança, para gueixa de um aristocrata.
Foi essa irmã mais velha Kenji quem o viria a apoiar, contribuindo decisivamente para que ele fosse o grande cineasta que acabou por ser.
O amor e a admiração que votava por Suzu, a revolta contra a opressão que o pai exerceu contra a sua mãe, traduziram-se no imenso respeito pela dignidade da mulher que é marca constante da sua obra.
A vida de Mizoguchi atravessou várias guerras em que o Japão tentou impor a sua força imperialista: a guerra russo-japonesa de 1904, a anexação da Coreia, a primeira guerra mundial, a invasão da Manchúria e da China, a guerra contra os Estados Unidos da América que levou ao apocalipse atómico.
E o sofrimento e a destruição causados pela guerra são também outra marca essencial na vida de Mizoguchi que se transformou em marca essencial da sua obra.
Na época em que viveu Mizoguchi, duas correntes atravessavam o teatro japonês: uma, a jidaigeki, exaltava os guerreiros samurais e as classes inferiores do passado; outra, a gendaigeki, centrava a sua atenção nos dramas e nas comédias da vida moderna ou contemporânea. Nesta sua obra, Mizoguchi segue a temática do jidaigeki, mas para a desconstruir.
Na mitologia japonesa, as noites em que a lua permanece encoberta pela névoa ou pela chuva são noites em que os mistério e a transcendência surgem e o vivos podem conviver com os mortos.
São estes os temas essenciais desta que é uma das maiores obras cinematográficas de todos os tempos, CONTOS DA LUA VAGA, obra que adapta dois contos do século XVIII de Akinari Ueda para refletir os horrores da guerra civil no Japão feudal do século XVI, o Período dos Estados Combatentes, um dos mais cruéis e sanguinários da História do Japão.
No essencial, a obra é uma desconstrução do Buxido, uma instituição do Japão feudal que podemos traduzir por “caminho do guerreiro” um código de conduta e modo de vida para os samurais. Mas, ao contrário da exaltação heroica comum nas obras jidaigeki, Mizoguchi não só critica como ridiculariza o Buxido, pois o desejo do protagonista Tobei de se tornar samurai resulta não só no sofrimento da mulher Ohama, mas na exibição da sua tolice.
E é também uma crítica à ganância de um oleiro que leva ao sacrifício da família, ao sofrimento e à morte de Miyagi, mulher de Genjuro, outro protagonista da obra.
Como o pai de Mizoguchi, a guerra fez lucrar o negócio do oleiro Genjuro, e o lucro provocou a sua ganância. Para aumentar o lucro, ele e Tobei, com as respetivas esposa e o filho de Genjuro, deixam a aldeia onde viviam para se deslocarem para a cidade onde acreditavam que os esperava a riqueza e o êxito que, depois, se transformam em falência material e moral.
Para isso têm de atravessar um lago, e essa travessia e o que a ela se segue é um aspeto do Realismo Mágico presente em CONTOS DA LUA VAGA e em muitas outras obras de Mizoguchi, nomeadamente nessa sublime tragédia, ao nível da tragédia shakespeariana, que é O INTENDENTE SAN SHO. O lago é o limiar entre a realidade e o sobrenatural, um espaço de transição e uma metáfora para o desejo e a morte, a fronteira entre a realidade da sua vida de humilde artesão, e a ilusão que o espera após a travessia.
Nessa travessia, a canção triste de Ohama, um dos momentos mais belos da banda sonora do filme, acentua o mistério do lago e do nevoeiro, da transição da realidade para a ilusão, da vida para a morte.
Depois de atravessar o nevoeiro sobre as águas e chegar à cidade, depois de ter abandonado nas margens do lago a mulher e o filho, dirige-se à cidade onde encontra a senhora Wakasa e se deixa seduzir pela ilusão da riqueza e da luxúria que ela lhe oferece. Mas riqueza e luxúria não são mais que a sedução de Genjuro pela morte, pois a senhora Wakasa não passa de uma virgem morta nos combates feudais e que procura reviver na sua relação erótica com um homem vivo.
O drama histórico de CONTOS DA LUA VAGA é usado para mostrar o impacto da guerra e da ambição masculina na sociedade. Enquanto os homens perseguem riqueza e um estatuto social elevado, as mulheres sofrem as consequências da ganância e da ambição desmedida que terminam na violência, no abandono e, até, na morte, mantendo elas a honra e o sentido trágico da realidade.
Mizoguchi é frequentemente apontado como um dos maiores “poetas da condição feminina”, o cineasta que expõe a brutal opressão masculina, a exploração económica e a fortaleza de carácter das mulheres na sociedade japonesa.
Para além da influência da vida pessoal e do teatro japonês jindaijaki, outras influências importantes se fazem notar nesta obra genial de Kenji Mizoguchi, nomeadamente os teatros Nô e Kabuki, a pintura e a cerâmica.
O teatro Nô é exibido sobretudo na máscara e nos gestos da senhora Wakasa, e o Kabuki nos trejeitos do personagem Tobei, arvorado em grande samurai.
No princípio da sua carreira, Mizoguchi ambicionou ser pintor, objetivo esse que substituiu pelo cinema. Mais tarde foi admirador e colecionador de cerâmica, sendo a cerâmica uma referência nesta sua obra. E a pintura, em particular o claro/escuro aprendido com os grande mestres da Vinci e Rembrandt, sobretudo, a pintura tradicional japonesa e nas gravuras ukiyo-e é também uma das influências na sua estética.
“Nas suas obras focadas na opressão e na luta de classes (sobretudo retratando o sofrimento das mulheres na sociedade patriarcal japonesa), o escuro serve como metáfora para o esquecimento, a marginalização e a exploração. A luz pontual ou difusa revela a resiliência das personagens, emergindo de um ambiente de trevas sociais opressivas”.
Outra influência essencial no cinema de Mizoguchi é a obra cinematográfica de Joseph von Sterneberg, que o grande realizador japonês admirava e de quem veio a tornar-se amigo. E se a obra de Sternberg contém como presença essencial a grande Marlene Dietrich, a obra de Mizoguchi é indissociável da grande Kinuyo Tanaka (aqui encarnando a personagem Miyagi), mulher inteligente, forte e livre, que foi a atriz japonesa mais admirada do século XX.
São características essenciais da obra de Sternberg a recusa do grande plano que centrava a atenção do espectador do ator, e o uso do plano de conjunto que integrava o espetador no seu ambiente. Os personagens de Mizoguchi não são seres isolados mas integrados na paisagem. Em vez de isolar os rostos para forçar a emoção, o realizador japonês opta por planos abertos e planos-sequência, mantendo os personagens inseridos no seu ambiente, na arquitetura e na sociedade, deixando ao espetador a liberdade de absorver o personagem ou o ambiente, a dor ou alegria, a angústia ou a serenidade que lhes são apresentadas.
Misturando a influência da técnica de Sternberg mas também do teatro japonês, Mizoguchi, como já foi notado, “privilegia a frontalidade e o movimento coreografado dos atores no cenário. O plano funciona como um palco onde a distância permite observar as dinâmicas de grupo e os equilíbrios de poder.”
Obra profunda e bela como poucas na história do cinema, CONTOS DA LUA VAGA é um dos filmes da minha vida, um dos filmes das nossas vidas.
HENRIQUE DÓRIA
É advogado e colaborou no Diário de Lisboa Juvenil e nas revista Vértice e Foro das Letras. Tem quatro livros de poesia e três de prosa publicados. É diretor da revista online incomunidade.com, e da radiotransforma.










