
ELE, O ABRAÇO. ELES, DE REPENTE. Para que a memória que os definisse se insurgisse: (os) dois. Mais até, em repeat – atalho Ctrl+Y ou F4. Colocar em palavras a forma de entrelaçar, cingir com os braços. Pensar como Giorgio Agamben, em sua Ideia da Prosa. Sobre isso, já diria João Barrento (1999, p. 9), no prefácio à edição portuguesa da referida obra, há “[…]
uma indistinção de fundo entre uma ideia da linguagem e uma ideia da Ideia, ou do pensar.
Importa, por isso, começar por perguntar que escrita é esta. Porque escrita (écriture) é o que estes textos são, não literatura nem filosofia convencional”. Do mesmo modo, inicio questionando o abraço. O dele, em específico. Com letras. No plural. Com efeito, as linhas presentes se inspiram no endosso do gênero à revelia, qual a percepção subjetiva do gesto – comprometido menos com o que ele é, realmente, do que com o enlace expressivo de sentido e elucubração: o que se tem nas mãos. A vontade de dar as mãos. Ei-la, em matéria de imaginação: um maço de cartas jamais entregue ao destinatário. Quiçá, páginas de um diário em extravio, quais sejam, tão só um dos lados da correspondência que, por isso mesmo, deve ser denominado “respondência”, apenas. A “cor” – de cor, coração. (Logo, neste instante, “perto do coração/ não tem palavra?”, ressoa o verso de Ana Cristina Cesar (1999, p. 174), e o dele (DRUMMOND, 2003, p. 19), que confessa: “Guardei. No peito, o meu amor, guardei”.).
Barrento (1999, p. 9) acrescenta, além disso, que, em Agamben, “a questão sobre a forma da escrita é desde logo essencial, porque ela é indissociável do que se diz, e mais ainda do que […] é da ordem do não-dito”. Por cá, faz-se igual: “Amei na estrada, no mar, nos sinais…” (DRUMMOND, 2003, p. 55). O abraço se desautomatiza. Porém, permanece lido como exercício de afeto. Mas de escape fácil. Elogio da autoficção contra o lugar do que (ainda)
não foi. Que poderia (?) ter sido. Que se mostra dependente da outra parte para realizar-se, é forçoso.
Sucede que esta, a outra parte, parece (re)ter a paciência do conceito, fique-se sabendo, romântico. Apesar da vocação enormemente demonstrada para a completude. Não é sem hesitação que a opção pela reciprocidade se manifeste no adiantado do tempo. Contabilidade nada modesta, não fosse o sinal desperto, que se apura e, com vagar, se (des)espera. Desconsiderando todo o tempo excedente – o ponto ensaiado: como remover daqueles (a)braços (numerosos) o lugar-comum? Como não admiti-los sala de espera de um beijo, o uso deles como pretexto o mais íntimo, se o que se observa é seu ponto de encontro, en-tre amoroso e admirável, cujos contornos ou limites são por demais imprecisos. Tudo a dizer dele, para mim, e seus inúmeros pensamentos, uma forma previsível do querer-bem. Gravada nos poemas dele com destinos anteriores, e que, agora, a tomo, para também “Correr, correr
pra poder te abraçar” (DRUMMOND, 2003, p. 46), de novo, meu querido.
REFERÊNCIAS
BARRENTO, João. Prefácio. In: AGAMBEN, Giorgio. Ideia da Prosa. Trad. de João Barrento. Lisboa: Cotovia. p. 9-16.
CESAR, Ana Cristina. Inéditos e dispersos: poesia/ prosa. Org. de Armando Freitas Filho. 4. ed. São Paulo: Ática, 1999.
DRUMMOND, Carlos Eduardo. Pequenos Sons. Rio de Janeiro: Litteris Editora, 2003.
Letícia Ferro é Doutora em Letras e Linguística pela UFG. E-mail: let_ras@hotmail.com










