Ciência

A era da ebulição global | Celso Japiassu

Foto de Chris Gallagher na Unsplash

O ano de 2024 foi oficialmente o ano mais quente da história e 2025 já apresenta ondas de calor mais longas e mais intensas. São temperaturas que afetam a saúde pública, potencializam o risco de incêndios florestais e causam prejuízos à agricultura. As cidades argentinas de Bahía Blanca e Mar del Plata foram atingidas por tempestades intensas, com ventos e chuvas torrenciais que causaram destruição e deixaram milhares de pessoas desabrigadas.

 

Na Amazônia brasileira, os níveis dos rios caíram a recordes históricos, afetando o abastecimento de água, a navegação e o atendimento de saúde em comunidades ribeirinhas. A estiagem provocou a morte de animais e o colapso de ecossistemas. Em seguida à estiagem sobrevieram enchentes avassaladoras afetando 530 mil pessoas em 40 dos 62 municípios do Estado do Amazonas. O Rio Negro, em Manaus, a capital, atingiu 30 metros em julho, numa época em que as águas já estariam baixando.

 

Ainda neste julho de 2025, a região de Texas Hill Country, no estado do Texas, um dos mais negacionistas dos EUA, foi palco de uma das piores tragédias climáticas de sua história, causada por enchentes repentinas no Rio Guadalupe. Em torno de cem pessoas morreram, incluindo mais de 20 crianças que estavam num acampamento de férias. Bairros inteiros foram inundados, com centenas de casas destruídas.

 

Os trágicos incêndios na Grécia, na Itália, em Portugal, são um sinal de que não está longe a paisagem de uma Europa árida e desértica. A seca, que era um fenômeno típico nos países do Sul europeu, alastra-se hoje para o Centro e o Norte, países nórdicos e do Leste do continente. Aponta-se um crescente déficit de humidade no solo mesmo quando chove.

 

A catástrofe ronda o planeta. Enquanto as autoridades mais conscientes não escondem sua preocupação e o seu medo do que está por vir. “A era do aquecimento global acabou, disse o secretário geral da ONU Antônio Guterres. Começou a era da ebulição global”. Os termômetros já acusam mais de cinquenta graus centígrados em algumas regiões do planeta. O recorde de calor do mês de julho de 2024 foi assinalado como o mais dramático de que se tem notícia desde que se começou a fazer registros da temperatura na Terra. Os dados foram confirmados pelo Copernicus, programa de observação da terra da União Europeia.

 

Bolsonaro

 

Em todos os encontros oficiais para tratar do clima, nos editoriais da imprensa, em todas as discussões sobre o assunto e mesmo diante da opinião pública internacional, o Brasil, durante o governo Bolsonaro, foi condenado como um grande vilão, um dos maiores responsáveis pela ameaça à vida no planeta. A Europa ameaçou rejeitar o acordo comercial com o Mercosul, que levou mais de vinte anos de negociações, por causa da posição do Brasil diante dos problemas do meio ambiente. A condenação tem como causa não apenas a destruição das florestas, dos rios e dos pântanos criadores, mas também pela indecente posição do governo de extrema direita diante de um problema que o mundo inteiro considera muito grave porque se refere à própria sobrevivência das espécies, entre elas a humana. Em 2019, na Cimeira do Clima, em Madrid, o Brasil bloqueou a edição do documento final com as resoluções do encontro, que só foi publicado após longa discussão. Os representantes brasileiros, liderados pelo então Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, recusavam-se a aceitar parágrafos que falavam do uso da terra e da poluição dos oceanos. Tiveram de ser pressionados pelos outros países presentes para finalmente assinarem o documento. Desde a posse do Governo Lula, respira-se uma atmosfera de distensão nos foros internacionais.

 

Os negacionistas, aqueles mesmos que creem na terra plana, que são contra as vacinas e alinham-se à extrema direita política, negam as ameaças climáticas.


  

As horas que faltam

 

Em Nova Iorque existe um relógio que não informa as horas (https://climateclock.net/). Exibe uma contagem decrescente e avisa quanto tempo resta para o ponto de não retorno, quando de nada adiantará qualquer esforço para evitar a destruição do mundo tal como a humanidade o conheceu até agora. Pois talvez não exista mais a humanidade.

 

O relógio da Union Square mostra o tempo que resta ao planeta. Se forem mantidas as emissões de carbono nos níveis de hoje, dentro de poucos anos a temperatura vai subir 1,5 graus Celsius e tornará insustentável a vida na Terra. A ONU declara que as alterações climáticas representam uma emergência sem precedentes. Nunca a destruição foi tão rápida e a comunidade internacional está falhando no combate a essa crise. Os últimos cinco anos foram os mais quentes de toda a lembrança humana e a temperatura média aumentou quase 1 por cento. A Organização Mundial de Meteorologia – OMM – acredita que, na trajetória atual, o mundo caminha para um aumento de temperatura de 3 a 5 graus Celsius até o final do século.

 

O relógio do fim do mundo já foi reproduzido em Berlim, Seul, Roma, Glasgow e Paris. Gan Golan e Andrew Boyd, responsáveis pelo projeto, pretendem incluir outras grandes cidades porque a humanidade não deve esquecer a ameaça sob a qual está vivendo. Eles dizem que o tempo marcado não significa o prazo para fazer alguma coisa. Pelo contrário, dizem que a ação deve ser imediata pois as alterações climáticas já estão presentes.

 

O degelo

 

A Expedição Mosaic, que explorou o Ártico durante 389 dias a bordo do   quebra-gelo alemão Polarstern, defrontou-se com uma surpresa: faltava gelo no Polo Norte. O líder da expedição, Markus Rex, disse que “se as alterações climáticas continuarem como estão, em algumas décadas teremos um Ártico sem gelo no verão”. E acrescentou que viu apenas uma calota derretida, fina, com lagos a perder de vista. Voltou com uma certeza: “o Ártico está dez graus mais quente que há vinte e cinco anos”.

 

Já Antje Boetius, diretor do instituto alemão Alfred-Wegener, que coordenou a expedição, disse que a placa de gelo polar tem metade da espessura que tinha há 40 anos.

 

O Conselho de Direitos Humanos da ONU publicou seu relatório destacando que os países mais pobres serão os mais afetados pela fome e pelas doenças que se intensificarão com as mudanças climáticas.

 

O Acordo de Paris, um protocolo em que 194 países se comprometem a reduzir a emissão de gases poluentes, foi assinado em 2015 e está sob ameaça de fracasso quando o segundo maior emissor de gases poluentes, os Estados Unidos, responsáveis por quase 18% da poluição mundial, retiraram sua assinatura em 2020, no governo Trump, voltaram a assinar com o governo Joe Biden e tornaram a se retirar neste segundo mandato Trump. 

O tempo se esgota para a possibilidade de vida na Terra.

fotografia de Celso Japiassu

Celso Japiassu: Poeta, articulista, jornalista e publicitário brasileiro. Trabalhou no Diário de Minas como repórter, na Última Hora como chefe de reportagem e no Correio de Minas como Chefe de Redação antes de se transferir para a publicidade, área em que se dedicou ao planejamento e criação de campanhas publicitárias. Colaborou com artigos em Carta Maior e atualmente em Fórum 21. Mora hoje no Porto, Portugal.

É autor de Poente (Editora Glaciar, Lisboa, 2022), Dezessete Poemas Noturnos (Alhambra, 1992), O Último Número (Alhambra, 1986), O Itinerário dos Emigrantes (Massao Ohno, 1980), A Região dos Mitos (Folhetim, 1975), A Legião dos Suicidas (Artenova, 1972), Processo Penal (Artenova, 1969) e Texto e a Palha (Edições MP, 1965).

Qual é a sua reação?

Gostei
0
Adorei
1
Sem certezas
0

You may also like

Comments are closed.

More in:Ciência