Cultura

É carta, não correspondência | Letícia Ferro

Foto de feifei liang na Unsplash

     Da palavra ‒ espera, sob efeito dos muitos sentidos, e nada se direciona. Busca incessante de exprimir, erigir a memória, com instantes que a requerem e para os quais ela não sabe o que retornar. O passado até poderia servi-la com propósito diverso ‒ o grande desiderato de uma correspondência nunca recebida, só que, por vezes, emitida, seletivamente. (Desiderar, aliás, em sua curiosa origem, significa acusar a falta de uma estrela; aguardar o que as estrelas podem trazer. Ou, em tradução livre e poética: é, com pesar, sentir a ausência do que é luminoso.) Porque uma carta, qual seja, amorosa ou de amizade, não é de bom tom que ela fique sem resposta à altura; tampouco, sem resposta alguma. Mesmo sem/ em tempo algum. No começo, até se cogita o extravio do envelope nobremente recheado. Em vez de escrever ao outro: “Espero que esteja bem”, deve-se fazê-lo com presença e ligação, com escrutínio, e cúmplice na afirmação: “Como você está? Estarei aqui para o que quiser, para o escutar e o reconhecer até em silêncio.” Porque se quem o receber não o arrolar à leitura da reciprocidade, o equívoco mudamente desamoroso fitará a interlocução: “Que será que fiz e não deveria tê-lo feito?”

     ; porque, por ora, a escrita a deixaria entregue à própria sorte. Em que pese ela tivesse agregado a cada sílaba o mesmo cuidado que o beijava, maiúsculo e minusculamente. A falta de amor à criação do que poderia ser ela o amor: missiva que sela o sentido e o guarnece. Apreciava a gesta de cada palavra, inclusive a que não se completava, e tanto fizesse se deixasse de existir como muda de violeta que não vingou flor ou um simples FaceTime que, por falta de sinal, caísse. Nesse particular, os pensamentos vagam assim: “Em que momento a carta deixou de ser correspondência para se insurgir contra os dois?”. De um lado, pela garantia de que “a poesia é a maior realização  possível entre eles”. De outro, pelo receio de saber o que há, afinal, entre a língua e o último encontro. Em uma das anotações, apostas. Aposto, esvaziadamente: os olhos de despedida. Só os dele.  Nem a amizade não lhes autorizaria reuniões assaz espaçadas. 

     Nos quase-encontros, o fim se precipitava. De tarde, com chuva intervalada: encontro de pé, na entrada principal do metrô. À vulnerabilidade, a vazão à grafia do afeto e do silêncio. E desse modo se sucedeu por um tempo, porque existia todo um espaço de suspeição, o princípio dela, a sororidade ‒ de fazer o certo pelo certo, pura e simplesmente, de desentrançar realidade da ficção. Promessa a sério que garantiria que as palavras dela a ele, mas principalemente, a si própria, teriam tanto valor. O coração vibrava de longe, já que a presença dele não era (só) sua. Não poderia sê-lo, deduziria. Porque equação matemática tem valor exato. Excertos de (des)encontros em uma biografia a ser passada a limpo para além do libelo ou do beijo. Apenas isso. Ela, tardando a espera, todos os dias (re)vendo mensagem por mensagem porque gostava de mensagens. Lendo-as, ela o tinha. Secretamente, exultava: ao contrário dele, em cujo tempo ela nunca mais far-se-ia presente. 

Fotografia de Letícia Ferro

Letícia Ferro é Doutora em Letras e Linguística (UFG). Correio eletrônico para correspondência: let_ras@hotmail.com.

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