
A publicação de “Divagações & outras profundezas” – ficções, da escritora paranaense Tere Tavares, coroa uma trajetória literária de treze livros publicados entre poesia e prosa, de uma autora que vem construindo sua carreira longe dos holofotes publicitários e das badalações midiáticas, que muitas vezes alçam mediocridades ao falso panteão dos ‘imortais’ das letras. Assim ainda, a estreiteza de nosso mundo literário. Primeiro as premiações que não constituem chancela definitiva para ninguém, depois as entrevistas e mais entrevistas, e segue-se a massiva divulgação em lives e fotos e mais fotos, e mesas redondas, e oficinas literárias, e grupos de leitura e toda essa inferneira que acaba se transformando a vida do escritor, obrigado que anda, a se tornar, de uma hora para outra, verdadeiro produtor de espetáculos, showman de si mesmo. O conteúdo das obras? A mensagem do texto? A qualidade literária propriamente dita? Bolas! Não já referendaram? Então vamos fazer barulho, que é o que ‘importa’ em nossas fogueirinhas das vaidades!
Bem, adiante; o livro, como aponta a sinopse da editora, é mesmo obra “estruturada em pequenos fragmentos de prosa poética, com uma forte inclinação ensaístico-lírica, compondo uma cartografia interior, uma voz feminina ética, sensível, crítica e meditativa, em diálogo constante com o tempo, a natureza, a linguagem e a condição humana.” Mas não é só. Há mais, muito mais, a começar pela forte tonalidade filosófica das ficções reunidas em 189 pequenos textos.
A autora consegue produzir significativos entrelaçamentos entre literatura e filosofia lançando mão de ressonâncias mútuas, de razões intrínsecas aos temas abordados, que afinal alcançam aquelas linhas melódicas da vida, que não cessam de interferir entre si, como bem lembrou o filósofo Gilles Deleuze (1925-1995). Os textos remetem o leitor para as relações entre literatura e filosofia ora de maneira consistente e sólida, ora vaga e sutil. Tal ocorrência joga por terra aquele paradigma ridículo, a norma, o molde que separa filosofia e a literatura, em âmbitos irreconciliáveis. Nada existe isoladamente. Tudo são partes de um todo. Se por uma lado, podemos tratar os temas da existência com o rigor filosófico e sua vocação histórica para questões de ordem epistêmica (relativas ao estudo do conhecimento), por outro, a autora produz a abertura para o poético com a criação descompromissada de verdades intuídas ou percebidas pela maturidade existencial a que chegou.
Vale repetir: em nosso universo nada existe isoladamente. Tudo são partes de um todo. Se afinal, não sabemos, ou não queremos abrir os olhos para uma cosmovisão totalizante, (porque o cartesianismo redutor de que tudo pode ser reduzido a explicações científicas, não deixa), resta-nos perguntar: O que há em comum ou próximo entre o filosófico e o literário? Levando-se em conta que, o modo de tratar a linguagem e o “conteúdo” (ideias, sentimentos), pode assumir natureza predominantemente ficcional ou conceitual. Já aí temos brechas para os âmbitos de aproximação e de afastamento entre o filosófico e o literário. De modo geral, podemos afirmar que a literatura põe a linguagem num primeiro plano, fornece-lhe uma função narrativa e expressiva, enquanto a filosofia, emprega uma linguagem lógica demonstrativa. No entanto e, apesar dessas características gerais, muitos textos usam uma linguagem esteticamente elaborada, e outros textos literários podem apresentar sutis argumentações filosóficas.
Indo mais além, podemos lembrar da forma narrativa, usada por um Descartes(1596-1650) com suas obras tão marcadas por um estilo literário refinado. Ou ainda, de um Friedrich Nietzsche(1844-1900), que trouxe a poesia para a filosofia, com seus textos poéticos. Não poucas vezes o filósofo buscou o recurso da autobiografia intelectual, onde nem sempre, os conceitos são apresentados de modo lógico. Às vezes, conceitos aparecem envoltos em imagens, oferecem sentidos a partir de narrativas, de cenas fictícias, ou situações que lhe determinam o horizonte de compreensão ou simplesmente oscilam entre o vivido e o abstrato. Sabemos também que certas obras literárias narram o sentido da vida, do mundo, das coisas de uma maneira peculiar e intensa. O que dizer das obras a um tempo, literárias e filosóficas de William Shakespeare (1564-1616) com sua imensa e radical compreensão da natureza humana? O que dizer de um Dostoiévski (1821-1881) e de tantos e tantos outros escritores de todas as épocas, inclusive da nossa pós-modernidade, que seguem essa percepção mais ampla? O “resumo da ópera” é que o pensamento conceitual precisa sim da imaginação criadora.
“Divagações & outras profundezas” é obra impregnada de reflexões que surpreende pelas indagações e constatações que faz sobre a realidade, a verdade, a literatura e a experiência de vida. Trechos:
…“E amar. Amar como quem sufoca. Amar sem rendição nem redenção. Amar como quem percebe tudo o que há e captura instantes de extrema beleza.
Há sentidos que não têm palavras. Tudo ressoa sobre a minha alma que resiste ante as atrocidades que avançam pelo mundo, avassaladoramente, ignorando os meus olhos estarrecidos. Que as faces da liberdade sejam visíveis para todos. Não se trata apenas de saciar a fome, mas parar de gerá-la. A humanidade precisa entender isso como único senso de justiça possível.” p. 19.
… “Abstraio-me num mergulho suave, ancestral e filosófico como se para me desviar do tumulto e desadormecer os sentidos, num ritmo que me compele a questionar em qual ponto o espanto me atordoa, em qual fresta a miragem colore o olhar, os temas a se multiplicarem como migalhas de pão e deleite de esperas. Tudo é roubado ao corpo pelo esvaziar dos dias a virem, um após o outro, e dizerem a vida no canto dos sabiás; leve perfume de ancestrais pedrarias, leve alma de pássara, de folhas livrescas e livros a desfolharem-se num desler. Ao de leve, nem se pensa o quanto pesa.” p. 23.
… “Não misturar poesia com prosa é, para mim, impossível. Não saberia dizer o porquê. Vou longe nesse dilema afetivo que é escrever como se o livro fosse uma estrada com cascalhos e restos de plantas, compelindo-me à fusão de uma escuta inexistente que dialoga incessantemente como uma habitação abandonada cujas paredes falam todas as línguas, algumas ininteligíveis, outras que ecoam e refletem o pó dos anos e revelam esconderijos inimagináveis, aprofundando-se em consciência. Ando cada vez mais, em direção ao silêncio.” p. 118.
… “A Arte não dá avisos. Ela chega, e tu te tornas um artista porque te permistes ouvir a voz que sopra e nem percebes, estás totalmente envolvido com a Arte. Ela se dá a ti, e tu te entregas: eis uma comunhão eterna, nunca dissociada de aprendizado e evolução da consciência.” p. 121.
Temos uma obra com notável padrão de abstração que nos leva a pensar no senso de possibilidades como a capacidade de pensar o que também poderia ser, e não julgar apenas que aquilo que é, seja mais importante do que aquilo que não é. De resto, em outros momentos, certos temas se transformam em questões filosóficas como o sentido da vida, da morte, da angústia, do amor, do ser, do nada, do divino, do bem, da persuasão, do pensar, do dizer, do tempo etc.
Francisco da Cunha e Silva Filho, na belíssima orelha da obra, salienta com muita propriedade que a autora “não escreve literatura engajada nem proselitista, mas sonda a natureza individual ou coletiva do ser humano como constitutiva da essência do ser em sociedade.” Acrescenta ainda, que estamos diante de uma personalidade literária que “narra e comunica em forma imaginária, a sua visão da universalidade em todas as sua nuanças de sentimentos, alegrias e tristezas, em seus ganhos e perdas, além de um sentimento de vital importância no ser do homem, que é o sentimento amoroso na sua variabilidade”.
A senhora Tere Tavares, segue em sua ‘caminhadura’ silenciosa, positivamente tecendo nexos da alma em seus mistérios vividos, nos fragmentos de tempo que revelam ocultas oscilações de nosso ser em complexas nuances, e afinal, no fluir de uma consciência que abarca em suma, a essência de nossa espiritualidade.
Livro: “Divagações & outras profundezas” – Ficções de Tere Tavares, Editora Litteralux – Guaratinguetá / SP, 2026, 154 p. ISBN 978-65-5322-100-0
EM TEMPO: O Lançamento do Livro “Divagações & outras profundezas”, ficções de Tere Tavares, ocorreu no dia 8 de abril – quarta-feira, às 19 Horas, na Biblioteca Pública Municipal Sandálio dos Santos – em Cascavel -Paraná. Quem não conseguiu comparecer ao evento, pode adquirir o livro em:
https://loja.editoralitteralux.com.br/divagacoes-e-outras-profundezas?manufacturer_id=101
Ou
https://www.amazon.com.br/Divaga%C3%A7%C3%B5es-outras-profundezas-Tere-Tavares/dp/6553221006
Tere Tavares, escritora e artista visual, residente em Cascavel, PR, Brasil, autora dos livros Flor Essência (2004), Meus Outros (2007), Entre as Águas (2011), A linguagem dos Pássaros (Ed Patuá 2014), Vozes & Recortes (Ed Litteralux 2015), A licitude dos olhos (Ed. Litteralux 2016), Na ternura das horas (Ed. Assoeste 2017) Campos errantes (Ed.Litteralux 2018), Folhas dos dias (Selo Ser MulherArte Editorial, 2020), Destinos desdobrados (Ed.Litteralux, 2021), Diário dos inícios (Meatanoia Editora, Selo Mundo Contemporâneo Edições, RJ, 2021), Luz (Edição da autora, 2024), Divagações & outras profundezas (Ed. Litteralux, SP, 2026). Conta com publicações em antologias, jornais e sites literários nacionais e internacionais. Integra o FotoClube Cascavel e a Academia Cascavelense de Letras.
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Krishnamurti Góes dos Anjos tem publicados os livros: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos, Embriagado Intelecto e outros contos, Doze Contos & meio Poema, À flor da pele – Contos e Destinos que se cruzam – Romance. Participou de 30 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Há textos seus publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último romance publicado pela editora portuguesa Chiado – O Touro do rebanho – Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional – Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance. Colabora regularmente com resenhas, contos e ensaios em diversos sites e publicações. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea veiculadas em diversos jornais, revistas e sites literários.












