
Song to the Siren
Ouço a voz do homem que rouba
o canto das sereias com as mãos,
desde o fundo do Danúbio: um pouco
do oxigénio que é mapa, barbatana,
borda de copo em que nos embriagamos;
e como um príncipe entre as suas irmãs
dedilha o meu corpo para que cante:
uma lira em permanente desastre
nessa impossibilidade de fazer
os poetas musicarem as suas palavras;
e perante essa tristeza, os deuses
dançam dionísias permanentes
os peixes descamam o abecedário,
anunciando um novo Tritão
para o final dos tempos;
num afogo, ausculto o seu coração
um pingente em segunda mão sobre o peito,
objeto encontrado dentro de mim
como se sempre tivesse sido novo.
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Primavera Anunciada
O tempo escorrega com a liquidez
da lubrificação das veias
e o efeito panóptico impede-me
de continuar a escrever diários
de continuar a crer na ilusão
dos caleidoscópios amorosos.
A beleza encarrega-se da profecia:
“trocava todos os poemas que nos
podem fazer eternos
por mais uma hora contigo”.
Aqui volto para testar a realidade,
a voz dessa consciência terrível;
manhã árida e o céu do apocalipse
com que me diz:
cuidado com o que desejas.
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Um Facho Bom Não É Um Facho Morto
Um facho bom é um facho com uma memória
Um facho bom é um facho que engole a tristeza
Um facho bom é um facho que se apaixona
Um facho bom é um facho que evita livros de história
Um facho bom é um facho com questões morais
Um facho bom é um facho que tem um poema favorito
Um facho bom é um facho que recorda os amigos do liceu
Um facho bom é um facho que oferece rosas à sua mulher
Um facho bom é um facho que cede o lugar à idosa
Um facho bom é um facho que se emociona no cinema
Um facho bom é um facho que detesta Estaline
Um facho bom é um facho que dá boleia a um backpacker
Um facho bom é um facho que oferece uma linha num after
Um facho bom é um facho que defende aquilo em que acredita
Um facho bom é um facho que não foge do assunto
Um facho bom é um facho que discute a sua posição
Um facho bom é um facho sem nenhuma arma na mão
Um facho bom é um facho que desliga a CMTV
Um facho bom é um facho que conhece bem Adam Smith
Um facho bom é um facho que leu Nietzsche
Um facho bom é um facho que ainda vai votar
Um facho bom é um facho que acha que tudo aquilo em que acredita
é o melhor para si e para os seus
Matar o facho é apenas
a loucura do povo:
e daí jorram os fascismos.
A 30 de agosto de 1990, enquanto um incêndio consumia a encosta da Serra da Estrela, nascia Lígia Reyes. Do quarto via-se o lume, como se o mundo ardesse num prenúncio. Entre a criação e a destruição da sua obra literária vai um pequeno passo. Alguns dos escritos que se salvaram foram publicados em revistas e antologias literárias (Apócrifa— PLEC 8; Turkiye Dil ve Edebiyat Derneği; TRAS LOS CLAVELES – 35 Poetas Portuguesas do pós-25 de Abril; Revista Independente Tlön…). Publicou o seu primeiro livro de poesia, Amor Peixe e Outras Loucuras, pela Editora Urutau em 2019. Em 2022, publicou Amantes Ocasionais e em 2025 foi vencedora do Prémio Poesia Oeiras, na categoria Revelação, com o livro O Êxodo das Sementes de Estrela. Foi convidada a apresentar a sua obra em diversos festivais e espaços, como o Young Writers Meeting (Turquia) ou o Festival Literário de Óbidos. Criou os eventos literários Multiverses e Poets Wanted que tiveram lugar na Polónia e em Portugal. Trabalha como copywriter, content writer e tradutora.










