
O corpo levanta antes do sol. O escuro não assusta; o silêncio não é culpa em que se esculpa. O dia sempre vem; nem tarde nem cedo; não é de ninguém.
Lava-se o rosto para terminar de abrir os olhos. Entra embaixo do chuveiro e nem percebe. Vai à cozinha comer o que ensinaram. Não questiona e a interação é pouco mastigar e logo engolir. Corre da mesa como que perseguido pelos ponteiros. É rápido, arteiro, mas obediente. Antes de sair, não esquece a máscara de “Bom dia!”; “Tudo bem!?”.
Lança-se automático ao matadouro que o massacra e mói todos os dias, todas as aspirações íntimas, todo sonho e calor. Bom emprego, estabilidade ilusória que preenche de boletos e descontos em folha a vida fim do mês – é uma pessoa de sucesso.
O almoço é meio-dia todo dia sempre. Sem fome de viver, enche a boca de arroz, feijão e bife acebolado – sugestão do garçom; prato do dia recomendado pelo cozinheiro -. Cada bocado mastigado na ânsia de terminar e voltar às obrigas arrotando o almoço é um quase desconhecimento da boca, dos gostos, de algum gozo.
O café afasta o sono dos preguiçosos, dos que sonham. A tarde é feita de goles em café feito pela manhã e o amargo e frio do pó requentado a tentar aluir a vida. Levantar e ir à garrafa servir-se é quase uma rebeldia na estrutura produtiva. Engole o líquido sem se importar com as papilas gustativas na insípida rotina. Esses intervalos inventados é a rebeldia pura com o olhar para o chão – rebelde secreto.
Nas idas ao banheiro, a urina no vaso se despede na descarga. Olhar o rosto cansado no espelho e o espanto com os dias descarregados sobre a vista pesada é quase um choque, um despertar, mas não há tempo para tanto nem para si. Enche o peito de uma coragem sugerida para os bons funcionários e finge não se importar com a imagem não afeita refletida.
Arrisca um olhar para a janela. Quer o sol, mas não o sol dos poetas nem dos pensadores; não se permite ao sol dos loucos e desajustados; quer o sol que marca a hora de ir para casa dormir para voltar de novo. Voltar novamente ao trabalho que nunca acaba, à cobrança nova de todo dia, ao estresse necessário e indispensável que move e nutre a produção.
Não falta, não vive, não questiona, não se questiona – “Tenho que dormir cedo!”; “Não posso perder sono!”; “Preciso produzir!” -. Não delira, não trai os outros, não incomoda, não diz Não, não contradiz – “Sim senhor!”; “Vou fazer!”; “A seu dispor.”.
Fim de expediente, fim do dia; fim. Todavia, ninguém se levantou ainda. “Não serei o mais fraco, a vergonha”. Aguarda o primeiro, o segundo, mais um, outros mais. Não resta ninguém – sua vez -. Não é visto em sua fraqueza de se ir. Ninguém sabe que vai para casa. Ir para casa é viver e apenas os fracos vivem fora do cotidiano e das obrigações do ofício.
O ponto de embarque está quase vazio. Poucas testemunhas de sua debilidade. Cansaço e nenhuma lembrança de si na fumaça coletiva dos que se atrevem a levar a fadiga para lançá-la numa cama da qual nunca se desfrutou e se é expulso todas as quase manhãs. O toque invadindo a cama a despertar a carcaça são murmúrios da alma prantosa que reclama. O que desperta é solidão e vadio de significâncias nesse tumulto insosso no qual em nada se alivia. As camas não foram feitas para o descanso ou algum conforto: são o intervalo entre o fim do dia e o fim da noite para um fim, o fim da vida.
No ônibus. Sentado. Lento se permite recostar a cabeça na janela que registra as passagens ligeiras do percurso cauterizado pela rotina e nunca visto. O movimento do coletivo fustiga a janela contra a cabeça. Mal sente. Ajeita e se permite fechar os olhos. Ninguém vê. O corpo quase relaxa, mas amanhã é dia de relatórios e a noite vai lhe permitir estar preparado e atento ao que precisa ser entregue.
A janela interrompe o pensamento de obrigações. Bate e palpita-lhe a cabeça permitindo um pouco de existência. A embarcação ronrona enquanto alguém sai. Os olhos se abrem para além de sua própria rotina. A água dum esgoto passa quase se podendo enganar limpa. Corre para algum lugar sujo ou a ser sujo, segue um fluxo. Os olhos se enchem nem se sabe porquê. Travam-se as pálpebras a não se permitir fraquezas. Levanta os olhos; não há mais ninguém. Respira fundo e se permite às lágrimas.
De súbito se enche de alívio e desejo de mais. Quer gritar, mas a urbanidade domesticadora assevera o momento; contém-se. O esgoto ficou; a barca urbana segue e o companheirismo do motorista com a rota; do cobrador com o dinheiro, o dinheiro miúdo e o encerramento – o registro de quem passou – nem chega a quem não se aceita chorar.
Vazam-lhe das próprias janelas a sujeira empurrada pela alma, que nem se reconhece mais; esgotou-se como sorvedouro; impôs-se-lhe. Correm das vistas nem copiosa nem exagero. Saem; libertam-se. Não há gritos nem grito; há um silêncio amargo de não saber por que uma inquietação sem palavras a restringir o peito.
Um suspiro, outro e um quase alento; algumas lembranças em clarão, do tempo em que fazia planos, sobrepõem-se ao desespero particular daquele trajeto até em casa – casa: onde se vai para poder voltar onde se vive; de onde a alma rasga todo encanto ao se esquecer dos detalhes pelos cantos -. Não se tem ânimo e reza-se pelo silêncio da noite para findar as marteladas de pensamentos a dobrar o açoite. Tudo é angústia e pranto para quem se acha falto no meio de tantos.
O gosto de sal, amargura e alento algum chegam à boca no líquido que desce donde vê a vida e não a enxerga. É uma chaga; uma abertura para a dor que se perdeu da verbalização, das explicações e que sai, simplesmente se mostra sem silabar palavra alguma.
A lágrima é o desassossego; clamor mudo que escorre das fenestras a alertar para a condição de quem existe além do momento – não era noite nem dia; o tempo havia parado; nem importava -. Tudo ali se fez contração. E o corpo sendo desnudo foi história contada, declarações sem palavras e o correr em fio é a leitura suspirada do que não se sabia, do que não se entendia, do que, sem saber, se quer.
Continua, sem entender, sem se entender. Continuam: ônibus, motorista, cobrador e quem trabalha e vai em casa. Enxuga-se; ajeita-se; busca a melhor máscara para a descida; controla a respiração. Volta ao personagem. A sarjeta se fez entre a alma e a rotina; entre as paixões esquecidas e a vida em moldes de encaixe; entre o que se quis e o que se fez.
Degraus consumidos pelos passos duros; um a um até o chão impassível a ignorar os solados. O ronco da combustão do diesel é quase um boa noite para quem sente severo demais o chão naquele momento. Dói-lhe tudo e, não saber donde nasce aquela dor, toma e sufoca a caixa do peito. Olhos ao chão; pensamento lança-se à busca; nada. A vida carece de silêncios e da ausência de ensaios convencionados; carece de espantos a derrubar a casca seca e dolorida dos costumes habituais. Esta noite vai sentar-se ao leito para chorar e se reencontrar, enquanto pode, se pode.
Nairton Pessoa do Nascimento; Formado em Letras/Português – UESPI; Especialista em Estudos Literários – UESPI; Professor de Linguagens – SEDUC-PI. Em processo de organização do livro de contos “Trechos de livros que não escrevi”. Alma inquieta e intuitiva, levado pela prosa e pela poesia, por vezes no espaço em que ambas se juntam.










