Cultura

carta enquanto reinar a tirania não haverá paz nem felicidade, e a arte será tão difícil como o amor/ fica registrado que os crimes contra a liberdade serão sempre descobertos | Ney Ferraz Paiva

imagem: blog.cancaonova.

é dia da mentira, mas houve ditadura

é dia da mentira, o choque elétrico vinca incisivo as veias

é dia da mentira, não fosse a pele de aurora nascimento triturada a pancada

é dia da mentira, a barra de ferro é introduzida na vagina

é dia da mentira, forçando e ferindo com alicate as unhas                                      é dia da mentira, a língua cortada pela metade

é dia da mentira, assim se morre engasgado, sem voz

é dia da mentira, o corpo de ponta cabeça leva um chute na cara                                                     

é dia da mentira, iara iavelberg nunca mais foi vista, nem  mandou  carta, e uma névoa espessa encobre sua última fotografia

é dia da mentira, ainda estamos dentro do pesadelo

é dia da mentira, os corpos tombados de pedro pomar e ângelo arroyo, no cenário    de sangue e pólvora, sabem quem os matou, não é preciso que perguntemos

é dia da mentira, quem manipula incontáveis vezes as cenas de crime é o estado, civil ou militar

é dia da mentira, vladimir herzog não volta para jantar em casa (quando eles não voltam estão mortos)

é dia da mentira, antonio benetazzo é apagado da linguagem    da arte à pedrada                                                                                           

é dia da mentira, certa guerrilheira de codinome estela ou vanda, eleita presidenta, é deposta em nome da memória do coronel carlos alberto brilhante ustra, seu torturador

é dia da mentira, a barra de ferro é atravessada entre os punhos e os joelhos da história, seguida de eletrochoques palmatória afogamentos                                                                              

é dia da mentira, por mais sinistro que pareça, a ditadura foi chamada de “revolução rápida e bonita” e se ponderou a favor do ai-5 “às favas todos os escrúpulos de consciência”

é dia da mentira, quanto tempo levaremos para imaginar como queremos o nosso mundo?

Ney Ferraz Paiva, Ontem disseram que o mundo ia acabar. Belém: Mezanino, 2026.

“Proposições discotecagem_1”: fotografia de Ney Ferraz Paiva.

Ney Ferraz Paiva, natural de Belém (Brasil), é poeta, curador independente e artista visual. Publicou diversas obras, incluindo os livros de poesia “Arrastar um landau debaixo d’água” (2015) e “O desastre toma conta de tudo” (2019). Realizou as exposições “Um mundo onde Foucault possa reclinar a cabeça” (Belém: Galeria Theodoro Braga, 2014) e “A Hora Herzog” (Belém: Espaço Na Figueredo, 2022; Galeria Semente, Casa Na Mata, 2023). Como curador, organizou exposições de diversos artistas brasileiros, incluindo Paulo Ponte Souza, Luiz Pinto, Petchó Silveira, GC Arte, Marinaldo Santos e Werner Souza. Ele atua como curador de Artes Visuais e Literatura no Núcleo de Conexões Na Figueredo, em Belém.

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