
Livro de cabeceira: A falta que ama, de Carlos Drummond
Rio, 9.8.25
Nada nos separa senão uma conjunção – a conjunção mas. Que chegou a ser sonhada como advérbio, para corroborar o que estava sentindo. Por isso, fiz questão de conferi-la à memória de leitura, igual afetividade de uma frame de inspiração machadiana, que, vagarosa, me acometeria naquele 9 do 8. De Dom Casmurro, a recordação capitular do penteado: Capitu, de costas para Bentinho, receberia dele o afago nos cabelos, ao colhê-los, primeiro, todos com as mãos para em seguida realizá-lo em duas tranças. Porquanto estimava: a similitude lírica da ficção àquele instante me sobrevoou, no pensamento, em que pese estivessem em papéis invertidos. O de menos. Importava mesmo que eu o obteria em minhas mãos: mediante encontro pelas costas, de coluna curvada, e (a)braços entrelaçados, em paralelo esticados, perpassados pela carinhosa expressão que o tempo apuraria. Era como se olhássemos um para o outro, sempre no aguardo de. Logo, a expressão-abraço tornar-se-ia o encontro de línguas, numa escrita-desejo que levaria abaixo o juízo de toda e qualquer previsibilidade mais segura dos sentidos. Qual do próprio espaço, tempo. Assim, os dedos roçaram na nuca do poeta e “a sensação era um deleite. Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse intermináveis”.
De Machado, apropriei-me, como quem se torna íntima do texto. Do próprio texto. E só dele.
Rio, 22.8.25
Meio-dia: o combinado de almoçarmos se cumpre… a lembrança do dia 9 fechou-me os olhos no mesmo diapasão em que as suas mãos se guardavam nas minhas – e que não logravam soltar de dentro. E todo o sentido do dia primeiro, juntos, recolheu-se, desolado, ao escrutínio do coração de fora. As mãos não cederam nem com o suco de maracujá, nem com a chegada da sobremesa. Só depois, mas pouco. Breve. Recompôs-se depressa. Ou nada disso. Só imaginação refletindo desejo. Uma terceira pessoa, espectralmente, ao temor de minha suspeição, adentrava. Meu diário-anacrônico deveria, portanto, mais do que depressa, negá-lo – evaporar o sentido. O pensamento de um na linha da boca de outrem. De outra. Corri à casa, “recordando o penteando e o resto”. Nada entendi ou nada queria, na realidade, entender. Tudo não passaria de uma autoficção?
Rio, 23.8.25
As lacerações provocadas durante àquele dia se estenderiam, mas a hesitação do convite logo passaria. O que me geraria desolada reação ao pronto-não que jamais imaginaria receber, ainda mais para aquela data…
Demora-se diante da compreensão e da despedida de um amigo – até de um amigo?
Gyn, 17.9.25
E como faz falta…!
Gyn, Rio, 18.9.25
O mesmo poderia ser dito de novo, em repetidas vezes, em aposta dobrada até pelo olhar numerológico: o 9 que se (des)dobra em 18, e cuja assimilação se confundiria com a lembrança de falas inúmeras, a saber: “Nem estava lembrando que hoje é seu aniversário”. Como votos de felicidade reproduzidos, agora, pelo CHATGPT, ou, de mensagens trocadas, na data em questão, como se nela nada significasse ou importasse. E, depois de anos, o livro da Amazon não chegou. Nem isso. O luto seria elaborado com pares de alusões contra mim mesma e me dariam íntimo poder fora a tristeza. Talvez não soubesse pensar nela em termos de despedida não temendo a solidão, mas o sentido oco. Desde sempre e que só agora o desenharia em largas imagens fixas.
Não sei o que fazer com o livro que comprei do Aníbal para dar de presente no próximo janeiro, com o pensamento em sua filha, ainda petite, com nome de passarinho. Curiosamente, suas iniciais, igualmente as de outra amiga (?), também, se renderiam ao ghosthing. Ao desencontro de ambos, a palavra distante, vertiginosa, meu silêncio reticente.
Desço à portaria tarde da noite, como quem ainda espera por algo; um bilhete, quiçá – no último minuto.
Demora-se diante da compreensão da despedida de um amigo – até de um amigo.
Como canto: “todo carnaval tem seu fim”.
Letícia Ferro é doutora em Letras e Linguística e que se apresenta disposta a conversar, também, por e-mail: let_ras@hotmail.com










