Cultura

Princípio da crítica como fim | Lucyane De Moraes

Foto de Md Mahdi na Unsplash

Antídoto potencial para a condição oposta de menoridade do indivíduo sujeitado à condição de objeto na sociedade unânime do capital, o pensamento crítico, apesar disso, esteve sempre em franca desvantagem frente à positividade que insiste em prescrever um mundo sempre-o-mesmo, jamais fadado à transformação, adquirindo na contemporaneidade contornos cada vez mais dramáticos, a exemplo da ascensão de mais uma onda de extrema direita renascida não das cinzas.

 

Se a essa velha barbárie não se opôs ainda uma nova inteligência capaz de formular outros modos teóricos de enfrentamento político consequente – a exemplo do que operou a Teoria Crítica da Escola de Frankfurt em tempos pregressos -, não é fora de propósito dizer que isso se deve em parte a uma práxis comprometida com a reprodução contínua de modelos críticos que, ao contrário daquilo que designam, acabam por reafirmar o próprio objeto criticado mediante valores positivos de caráter moral que atuam como ética crítica às avessas, sob a égide da imutabilidade. 

 

Refere-se com isso à aceitação passiva daquilo que já está dado como positividade, avessa, portanto, a qualquer tentativa de interpretação da realidade mediante critérios divergentes. Sob essa perspectiva, a dimensão subjetiva de análise do real ocupa lugar preponderante – também a exemplo do que anteriormente concebeu a Teoria Crítica da Sociedade -, tendo como foco a negação determinada do que se vê e ouve, indo muito além do que simplesmente houve.

 

Necessário reafirmar que uma correta acepção do negativo não ignora a sua dialética interna, demandando, ao contrário, o justo entendimento daquilo que ele suscita. Isto é, o movimento próprio que o converte em seu outro positivo, uma vez que a dialética sempre quer dizer algo duplo.

 

Se nas palavras de Theodor Adorno, só permanece aquilo que não se mantém igual a si mesmo, é certo dizer também – sob a ótica do movimento do conceito – que o pensamento crítico em sua dialética não constitui um fim em si, mas um estado ideal em permanente estado de crise, um constante ultrapassar a si como força motora negativa que segue sempre, significando dizer que a sua permanência será determinada, qual imagem reversa no espelho, mediante a própria reflexão do pensar.

 

Assim foi em relação à Teoria Crítica engendrada pela Escola de Frankfurt no século XX, pensada como meio de superação das sociedades estabilizadas em termos hegemônicos, contribuição essa, dialética e negativo-racional, que se resume ainda hoje como fonte fecunda para a análise do que ocorre no âmbito político, econômico e cultural de um mundo degradado por dinâmicas autodestrutivas baseadas na forma mercadoria.

 

Seguindo seu rastro, pode-se dizer que a crise da crítica é também consequência de um tipo de mentalidade programada que faz do valor de troca um triunfo, apoiado no antagonismo entre o ser humano e os meios – objetivo e subjetivo – por ele criados. Meios hegemonizados por justa definição mercadológica imposta como finalidade determinada, com vistas à reprodução sempre-a-mesma de valores antagônicos às dinâmicas de existência sustentáveis.

 

Mas, não é só. Significa dizer também sobre uma anticrítica que prescreve o passado como algo melhor, sendo o futuro inexistente porquanto presente negado. Por compensação, a ideologia de passado absoluto esconde a aversão absoluta do presente, um átimo do passado que persiste no presente como aparência futura. Não por outra razão, no estado atual a crítica não é cultivada em lugar algum do mundo. 

 

Para além de utopia, pode-se pensar – como ideia realizável – que uma teoria crítica nova será devida a uma nova qualidade da crítica, que deve ser tanto negativa quanto determinada em relação ao que se encontra estabelecido em termos heterônomos. Distinguir o existente do pensado, a crítica – maioridade de julgar mediante o próprio conhecimento – é o que resume a autonomia como resistência à menoridade kantiana.

 

Se tudo conspira contra a crítica a favor da positividade sempre resignada, pensar formas novas de concebê-la – a partir de pressupostos ainda pertinentes – é tarefa que se impõe como meio eficaz de enfrentamento do processo contínuo de degradação da organização social baseada em resultados. Não será outro o antídoto para a perene condição do indivíduo entregue à própria sorte na sociedade ungida pelo capital.

Fotografia de Lucyane de Moraes

 

BIOGRAFIA: Lucyane De Moraes – Nascida em Salvador/Bahia, é professora, pesquisadora e colaboradora em diferentes revistas acadêmicas.

 

É também autora do livro Theodor Adorno & Walter Benjamin – Em torno de uma amizade eletiva (Edições 70). @lucyanedemoraes

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