
I
Não se matam mais humanos para consumo,
pra fazer mingau de vísceras.
Não se matam mais rituais
com tambores em volta da fogueira:
o olhar da presa esbugalhado
e heróis uivando para os deuses.
Matam-se pelos que não têm nome.
Mudaram-se os dígitos da insânia cíclica
no site da morte e sua noite metafísica.
II
O que quer um matador
em sua alma de aluguel
e seu coração de breu?
Por acaso busca o céu,
ao destroçar sua presa
com a devoção de quem reza?
Por que lhe negar revanche,
ao decretar seu desmanche?
O que move um matador,
na sede que lhe sugere
a lâmina de sangue em série?
O que abisma um matador
na explosão do disparo?
Algum diamante raro?
Algum tesouro escondido
que se evola no estampido?
O que busca um matador?
Busca – por acaso – grana?
Busca, na infâmia, fama?
Acaso, a vida é o dízimo
de sua igreja de abismo?
(retirado da antologia A cor da palavra. Editora Húmus, 2022.)










