
Escapo da turba que no meu encalço se amotina.
Não cuidei que me surpreenderiam nua da cintura para cima, a ler no meu quintal o pergaminho das 7 cantigas de amigo, de Martin Codax.
Estava eu ao sol aguardando que secasse meu único traje de nobre empobrecida.
Uma mulher teria que ler escondida. Agora me acusam de indecência e furto do material proibido.
Socorreu – me a bondade do apaixonado Frei Domenico, primeiro cobrindo- me com sua capa violácea, depois transportando – me às suas costas para o esconderijo na sacristia onde o abade oficia.
Viessem homens sábios para dizimar essa coorte de impiedosos… Mas não.
Agora ouço em angustiosa culpa o pronunciarem as sentenças:
De morte,
sobre quem vai permanecer na masmorra
sobre os que seguirão para o degredo em África.
Sobre quem foi julgado inocente
e agora segue escoltado para a liberdade.
-Eu delirei, dentre estas, ouvir meu nome.
SONHASTE COMIGO ONTEM À NOITE
Há um fim a avançar em sobressaltos e de vez em quando uma risada sobreleva tonitruante. Sigo em frente, não é chegada a minha hora. Os anúncios dessa ordem carregavam no dorso a própria morte e era nos alvores de minha vida. Ao completar seu ciclo, lacrou-me uma melancolia inusual naquela idade, mas poeticamente diáfana e com seus disfarces, como tudo quanto é mau.
Naquela altura, passei a avistar estrelas ziguezagueando, comecei a divisar furtivas nesgas projetadas na meia- lua, e até as vozes da sibila eu ouvia.
Passei a desejar com veemência a felicidade. Meu pai não dava conta de me ocultar as prescrições do destino e em certo dia vi- o tão disposto a recitar estes versos do poeta Augusto:
“ quebrei a imagem de meus próprios sonhos!” Eu tinha os cabelos curtinhos e uma vontade enorme de vida e aquilo evidenciou- me uma completa ausência de cores, mas eu as retinha guardadas na caixinha de lápis da escola; meus desenhos eram em bico de pena errando asas de pássaros a riscar seus voos numa débil e pequena altura.
Os pássaros pronunciavam vaticínios contra os quais não se podia resistir. Eu incompreendia os decretos porque ocultados nas entranhas de um vulcão, e sob o comando de um deus menor, uma hora ele deitaria suas larvas incendiadas. Há muitos crimes em decorrência da mentira e acerca disso os lobos já intuem. Salvou- me sempre o ignorar as minudências da trama.
Este, o lado bom de toda inocência. Ela sempre nos ajuda com distrações e sonhos; o perigo passa rente. Sim, no decorrer tenho sabido mais de deduções do que de pressupostos e venho deliberando, em minha defesa, ignorar o óbvio. Sempre parto do princípio pueril de que a imaginação está podendo tudo. No entanto, há mentes sutilmente poderosas com ardis que podem nos passar incólumes. Mas até a morte – Deus me disse- e seja por que causa for, pode redundar em benefício.
A poesia é um profuso bordado em arabescos no claro- escuro. E se alteia a um outro que vive de arrodear o universo poético, a que chamamos comumente de Diabo. Porém, ele não pode contra a música de realejo que se ouve de minha boca incessantemente. E que pode ser escutada numa egrégora de poetas onde, conjuntamente, a morte deve ser adiada.
Já os poemas de amor eu não escrevo, eles não sobreexistem nesta seara.
O amor é uma miragem na parede, que morre quando a luz acende.
A tarde desfez o crochê, desfez os cabelos.
Uma por uma foi desfazendo as horas…
A tarde me enredou em um sem- fim de desnecessidades.
– E se foi deixando a noite pasmada no abismo.
BORDADO EM PONTO DE SOMBRA
O toque no silêncio induz a palavra,
tão perfeito e diferente do castanho
de meus cabelos é o tom desse chão,
– o meu desentendimento hoje é sobre quase tudo…
Anchas sombras deliram na atmosfera.
Antes percebo a me escutar o que de mim se oculta,
enquanto lavo os pratos, ignoro o telefone a vibrar
e diviso no longe uma música.
Julia Lemos é poeta e atriz, natural de Pernambuco (Brasil) e reside na capital, Recife.
Publicou os livros de poesias “Carmem Antônia Migliacchio Enlouqueceu”, Recife, Edições Pirata, 1980; “A Casa Estrelada”, Editora da FUNDARPE- CEPE, 1997; “A Exposição dos Sóis”, Editora Penalux, São Paulo, 2017. Publica também em sites e nas redes sociais.










