Cultura

Quatro poemas | Julia Lemos

Foto de Peter Mason na Unsplash

Escapo da turba que no meu encalço se amotina.

Não cuidei que me surpreenderiam nua da cintura para cima, a ler no meu quintal o pergaminho das 7 cantigas de amigo, de Martin Codax.

Estava eu ao sol aguardando que secasse meu único traje de nobre empobrecida. 

Uma mulher teria que ler escondida. Agora me acusam de indecência e furto do material proibido.

Socorreu – me a bondade do apaixonado Frei Domenico, primeiro cobrindo- me com sua capa violácea, depois transportando – me às suas costas para o esconderijo na sacristia onde o abade oficia.

Viessem homens sábios para dizimar essa coorte de impiedosos… Mas não. 

Agora ouço em angustiosa culpa o pronunciarem as sentenças: 

De morte, 

sobre quem vai permanecer na masmorra

sobre os que seguirão para o degredo em África. 

Sobre quem foi julgado inocente 

e agora segue escoltado para a liberdade. 

-Eu delirei, dentre estas, ouvir meu nome.

 

SONHASTE COMIGO ONTEM À NOITE 

 

Há um fim a avançar em sobressaltos e de vez em quando uma risada sobreleva tonitruante. Sigo em frente, não é chegada a minha hora. Os anúncios dessa ordem carregavam no dorso a própria morte e era nos alvores de minha vida. Ao completar seu ciclo, lacrou-me uma melancolia inusual naquela idade, mas poeticamente diáfana e com seus disfarces, como tudo quanto é mau. 

 

Naquela altura, passei a avistar estrelas ziguezagueando, comecei a divisar furtivas nesgas projetadas na meia- lua, e até as vozes da sibila eu ouvia.

Passei a desejar com veemência a felicidade. Meu pai não dava conta de me ocultar as prescrições do destino e em certo dia vi- o tão disposto a recitar estes versos do poeta Augusto: 

 

“ quebrei a imagem de meus próprios sonhos!” Eu tinha os cabelos curtinhos e uma vontade enorme de vida e aquilo evidenciou- me uma completa ausência de cores, mas eu as retinha guardadas na caixinha de lápis da escola; meus desenhos eram em bico de pena errando asas de pássaros a riscar seus voos numa débil e pequena altura.

 

Os pássaros pronunciavam vaticínios contra os quais não se podia resistir. Eu incompreendia os decretos porque ocultados nas entranhas de um vulcão, e sob o comando de um deus menor, uma hora ele deitaria suas larvas incendiadas. Há muitos crimes em decorrência da mentira e acerca disso os lobos já intuem. Salvou- me sempre o ignorar as minudências da trama.

 

Este, o lado bom de toda inocência. Ela sempre nos ajuda com distrações e sonhos; o perigo passa rente. Sim, no decorrer tenho sabido mais de deduções do que de pressupostos e venho deliberando, em minha defesa, ignorar o óbvio. Sempre parto do princípio pueril de que a imaginação está podendo tudo. No entanto, há mentes sutilmente poderosas com ardis que podem nos passar incólumes. Mas até a morte – Deus me disse- e seja por que causa for, pode redundar em benefício. 

 

A poesia é um profuso bordado em arabescos no claro- escuro. E se alteia a um outro que vive de arrodear o universo poético, a que chamamos comumente de Diabo. Porém, ele não pode contra a música de realejo que se ouve de minha boca incessantemente. E que pode ser escutada numa egrégora de poetas onde, conjuntamente, a morte deve ser adiada. 

 

Já os poemas de amor eu não escrevo, eles não sobreexistem nesta seara.

O amor é uma miragem na parede, que morre quando a luz acende.

 

A tarde desfez o crochê, desfez os cabelos.

Uma por uma foi desfazendo as horas…

A tarde me enredou em um sem- fim de desnecessidades.

– E se foi deixando a noite pasmada no abismo.

 

BORDADO EM PONTO DE SOMBRA 

O toque no silêncio induz a palavra,

tão perfeito e diferente do castanho 

de meus cabelos é o tom desse chão,

– o meu desentendimento hoje é sobre quase tudo…

Anchas sombras deliram na atmosfera. 

Antes percebo a me escutar o que de mim se oculta, 

enquanto lavo os pratos, ignoro o telefone a vibrar 

e diviso no longe uma música.

 

Fotografia de Julia Lemos

Julia Lemos é poeta e atriz, natural de Pernambuco (Brasil) e reside na capital, Recife. 

Publicou os livros de poesias “Carmem Antônia Migliacchio Enlouqueceu”, Recife, Edições Pirata, 1980;  “A Casa Estrelada”, Editora da FUNDARPE- CEPE, 1997; “A Exposição dos Sóis”, Editora Penalux, São Paulo, 2017. Publica também em sites e nas redes sociais.

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